24 fevereiro 2026

ANA ISABEL ROCHA MACEDO, ROMANCISTA CONQUISTENSE

 




ANA ISABEL ROCHA MACEDO, ROMANCISTA CONQUISTENSE


Reno Viana


No próximo dia 26 de fevereiro de 2026, em Vitória da Conquista, aqui neste Sertão da Bahia, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, às 19h30, acontecerá o lançamento do novo livro da escritora Ana Isabel Rocha Macedo, intitulado “Tempo de intensa crueldade: resistência mantida pela luta e pelo amor”.

Trata-se do quinto romance lançado pela escritora, que há muitos anos tem se dedicado aqui à Literatura de ficção.


1 – A escritora


Ana Isabel Rocha Macedo, professora, militante e expressiva romancista nasceu em Vitória da Conquista, na Avenida João Pessoa, antiga “Rua da Boiada”, hoje localizada no Centro da cidade. 

Sua trajetória de vida é marcada pela forte ligação com a Educação, com as Artes e com os movimentos sociais, experiências que se refletem profundamente em suas obras literárias.

Ela cursou o ensino fundamental em escolas locais e depois cursou o ensino médio no Instituto de Educação Euclides Dantas (antiga Escola Normal). Posteriormente, graduou-se na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Nessa mesma universidade, tornou-se professora na área de Letras e atuou como coordenadora de Comunicação Social da instituição. Fez também pós-graduação em Letras e participou ativamente do movimento sindical docente, integrando a Associação dos Docentes da UESB (ADUSB) e o Sindicato dos Professores Estaduais da Bahia.

Desde a juventude envolveu-se com grupos de teatro amador da cidade, a partir da segunda metade da década de 1960. Orientada pelos princípios da Teologia da Libertação, unindo a fé cristã à luta social, teve forte engajamento nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ligadas à Igreja Católica.

Casada com Gutemberg Soares de Macedo (“Hans”), teve três filhos: Vinicius, Pedro Ivo e Maria Maria.

Posteriormente passou a revezar moradia entre Vitória da Conquista e a localidade de Barra Grande, no litoral sul da Bahia, à beira-mar.


2 – Malva


O belo livro “MALVA: um meio-sorriso e um certo olhar”, lançado originalmente em 1995, é o primeiro romance de Ana Isabel Rocha Macedo. A obra inaugurou sua carreira de romancista, servindo como introdução ao seu universo ficcional.

A trama se passa em Jequitibaú, uma pequena localidade fictícia de características rurais, criada para representar a simplicidade do interior. O cenário é descrito com traços nostálgicos, envolvendo elementos como ruas de terra, banhos de rio e o sol de fim de tarde, evocando memórias sensoriais. O ambiente serve de pano de fundo para expor a realidade de uma população humilde e adoecida, refletindo a pobreza do homem rural brasileiro.

O texto critica as condições sociais da vida no campo, onde as doenças são tratadas como filhas da pobreza, expondo a denúncia do abandono e a impotência diante da miséria econômica.

O Narrador é um jovem médico que atende a população local e se fascina pela sabedoria popular, sendo o responsável por relatar a maior parte da história em primeira pessoa. O romance contrapõe os compêndios científicos do conhecimento acadêmico à sabedoria popular dos moradores, admitindo que o povoado ensinou ao médico o que a formação teórica não foi capaz.

A autora utiliza modificações fonéticas e construções gramaticais coloquiais para reproduzir fielmente o sotaque e a fala do homem rural. O uso do regionalismo, porém, não é apenas estético. Ele demonstra como uma linguagem considerada incorreta pela norma culta pode carregar reflexões filosóficas profundas e autênticas.

A trama entrelaça as vidas de Malva, Seu Gonçalo, Maria Alecrim (filha de Gonçalo) e Giba (o amor de Maria) em uma teia de destinos cruzados que culmina em um desfecho trágico e impactante.

Malva, personagem-título, é uma mulher idosa e enigmática que vive desconectada do presente, marcada por um "meio-sorriso" e um "certo olhar" que sugerem um destino perdido no tempo. Seu Gonçalo é um morador antigo e sábio que abriga o médico e torna-se seu grande interlocutor, em reflexões profundas sobre a vida.

A obra inova ao promover um embate direto entre Narrador, autora e leitor, técnica vanguardista para um romance regionalista (“quebra da quarta parede”). Em um momento crucial, o Narrador se revolta contra as decisões do enredo impostas pela autora, rebela-se contra a situação e abandona a narrativa. 

Após um aviso de que "O Narrador fugiu!", a própria autora assume o texto em terceira pessoa para concluir o fio da trama, explicando que não permitiria que a história fosse desvirtuada.


3 - Heloísa


O nostálgico romance “Heloísa — a do povo de Vicente” foi lançado em 2014.

A obra é um romance que transita entre a memória e a ficção, utilizando um tom nostálgico para explorar a complexidade das relações familiares, bem como os desafios da convivência e das situações cotidianas.

Ela é conduzida por uma Narradora em terceira pessoa, onisciente, que, embora externa, adota um discurso que mergulha no universo feminino com profunda abordagem afetiva. Como legítima Literatura de expressão feminina, a obra coloca a mulher como sujeito e objeto do discurso literário.

A trama se passa entre as décadas de 1950 (na juventude da protagonista Heloísa) e o tempo presente, sendo ambientada inicialmente nas fictícias cidades de Vitória da Fé e de Roseiral, no litoral da Ponta do Juá.

O patriarca do núcleo familiar é Vicente, um pai firme, engenhoso e afetuoso que lidera uma casa com dez filhos, utilizando sua autoridade para conduzir a família em aventuras e proteger a honra das filhas.

Maria Cândida, a segunda esposa de Vicente e mãe de Heloísa, é descrita como enérgica, carinhosa e braço direito do marido na gestão do núcleo familiar.

A Protagonista Heloísa é o personagem central, cujo arco de vida é marcado por um fascínio espiritual pelo mar e por decisões que alteram o destino da família. Aos onze anos, ela viaja com a família na carroceria de um caminhão até o litoral. Ao ver o oceano pela primeira vez, ela entra em uma espécie de transe, paralisada pelo encantamento, e pergunta ao pai se "o mar é Deus".

A narrativa reimagina de forma inusitada a pintura do teto da Catedral local (inspirada na de Vitória da Conquista), mesclando fatos históricos com a sensibilidade ficcional da autora. A presença do pintor Jó Luna catalisa mudanças profundas. Heloísa decide se casar aos 16 anos para não se separar do artista, levando Vicente a decretar uma festa monumental.

O livro encerra-se com um salto temporal melancólico, onde a cena da infância de Heloísa se repete ciclicamente com novas gerações, diante da imensidão do mar.

No romance existe um equilíbrio entre a voz reflexiva e poética da Narradora e a naturalidade dos diálogos dos personagens, que usam termos coloquiais e linguagem regionalista. O regionalismo baiano está presente no vocabulário, na culinária (como no consumo do biscoito "chimango"), nas festas de São João e no senso de honra interiorana.

O mar não é apenas um cenário, mas uma força invasiva e transformadora, que representa tanto o divino quanto o silêncio do luto.

Nas entrelinhas, o romance transmite a mensagem de que, apesar dos traumas e impasses do convívio, é necessário encarar a realidade como um exercício de superação e de descoberta.


4 - Carmela


O inusitado livro "CARMELA: uma história de amor" foi lançado em 2017.

O romance é narrado em primeira pessoa pela voz da própria protagonista Carmela, uma mulher de mais de 80 anos que revisita sua trajetória de vida como prostituta, em um tom intimista e confidencial.

A estrutura apoia-se no entrelaçamento entre realidade e ficção, admitindo que o relato é filtrado pelo tempo. Apesar da temática densa, a autora utiliza uma linguagem de leveza e sagacidade, conduzindo o leitor com maestria até reviravoltas narrativas surpreendentes. A Literatura e a palavra são temas centrais, através da metalinguagem, funcionando como um "tapete mágico" e um "bálsamo" que permite à protagonista ressignificar suas dores no fim da vida.

Carmela cresce na casa de tolerância de Tia Madô ("Madô Faca Afiada"), convivendo com as histórias tristes e curiosas das mulheres que trabalhavam no ambiente do bordel.

De sua mãe Leonor, Carmela recebe o "olhar que tudo vê" (capacidade de observação) e a receita do "xarope-de-quarto", fórmula secreta para potencializar o prazer masculino. Mais que a receita, a mãe ensina que o sucesso depende da responsabilidade individual, usando a metáfora da terra seca que só brota água se for regada com cuidado e dosagem correta.

Carmela muda-se para a localidade fictícia de Barra do Jambeiro, onde compra sua própria casa e abre o "Cantinho do Pastel de Forno", um negócio de fachada para atrair clientes selecionados.

A narrativa transita entre os "Ninhos de Amor" do casarão de Tia Madô e a paisagem litorânea de Barra do Jambeiro, com suas pedras à beira-mar e o "Cantinho do Pastel".

Ela estabelece diretrizes rígidas para seu trabalho, cobrando o próprio preço e não admitindo desrespeito ou "saliência" fora da intimidade. Demonstra sua independência ao rejeitar o namoro do jovem Jaime, cobrando por seus serviços para deixar claro que não buscava salvação através do casamento.

O personagem Professor Deodato é uma figura elegante e culta que, ao disponibilizar sua biblioteca pessoal, introduz Carmela ao mundo dos livros e prova que a aceitação pode vir de onde menos se espera.

O núcleo emocional da obra é a relação dela com Dido, que dura 24 anos, 3 meses e 9 dias. Com ele, Carmela experimenta o amor correspondido e a felicidade absoluta. A morte súbita de Dido deixa uma saudade devastadora, momento em que Carmela passa a viver sustentada pelas lembranças e pelo refúgio da leitura.

O texto coloca-se contra o moralismo e a ideia da prostituta como uma figura necessariamente trágica ou submissa. Carmela encara o envelhecimento com aceitação, acreditando que "pessoas felizes são mais bonitas" e mantendo a disciplina nas pequenas tarefas.

Carmela é uma personagem cuja personalidade é moldada pela observação, pela independência e por uma visão pragmática, porém poética, da vida. Observadora sagaz, desenvolveu uma capacidade aguçada de analisar o comportamento humano. Essa característica a torna uma mulher difícil de ser enganada e muito consciente das motivações alheias. Independente e altiva, recusa o papel de vítima e estabelece suas próprias regras, horários e preços, não admitindo desrespeito ou submissão. 

Ao se apaixonar pelos livros, a leitura não é para ela apenas um passatempo, mas uma ferramenta de releitura da própria existência. Resiliente e serena, ela não guarda rancores da vida, encarando o envelhecimento e a morte com tranquilidade e sem desespero.

A vida da protagonista termina em paz quando, após completar seu relato, ela ouve o chamado de Dido e entrega-se voluntariamente à morte para o reencontro final.


5 – Maria Mar


Em 2023, a escritora Ana Isabel Rocha Macedo lançou seu volumoso romance “Maria Mar: estrela das ideias e do amor”. 

A obra acompanha a intensa trajetória da personagem Eliza, entrelaçando seu despertar político, sua atuação como professora e um drama amoroso clandestino sob a sombra da Ditadura Militar. 

Com forte presença de intertextualidade e metalinguagem, o texto é permeado por referências que vão da Bíblia à MPB, com um Narrador que reflete constantemente sobre o milagre de transformar sentimentos em linguagem. O título do romance é um anagrama poético que esconde o verbo amar (algo como “Maria ia amar no mar”), funcionando como uma senha para a essência do afeto. Como metáfora da existência, representa a vida doada ao amor e à resistência, conectando-se ao subtítulo da obra.

Com quase 700 páginas, o romance apresenta uma estrutura cuidadosamente amarrada, de modo que a revelação dramática do epílogo instiga o leitor a uma releitura imediata sob nova perspectiva. Na surpreendente revelação final, descobre-se a verdadeira identidade do Narrador da história, e essa quebra de expectativa leva à reavaliação completa de toda a leitura.

Embora utilize a cidade de Vitória da Fé como cenário de origem da protagonista — em vez de empregar explicitamente o nome de Vitória da Conquista —, a narrativa explora profundamente a identidade, a cultura e a história de uma cidade do interior na segunda metade do século XX. A obra retrata sua estrutura comercial e os espaços de lazer da época, como cinemas, rádio e clubes sociais, além das dinâmicas e preconceitos religiosos, com uma maioria católica em contraste com a marginalização da Umbanda e do Candomblé. Sobretudo, reflete o impacto histórico da Ditadura Militar no cotidiano dos moradores.

O cenário da história transita principalmente por três localidades que contrastam o ambiente urbano do interior com a vida litorânea. Vitória da Fé é a cidade natal de Eliza, marcada pelo conservadorismo, pelos clubes sociais e pela efervescência de seu engajamento político inicial, sendo o local onde ela inicia suas reflexões sobre a desigualdade. 

Marati é o município para onde Eliza é nomeada após passar no concurso estadual para professora, funcionando como centro urbano de referência para a vila litorânea, dispondo de hospital e médicos. 

Já Ponta da Pedra é o cenário principal da maior parte da obra. Uma vila à beira-mar, pertencente ao município de Marati, onde Eliza passa a lecionar na Escola Adonias Filho. Ali, a rotina é ditada pela natureza e pelas marés, com personagens vivenciando fortes laços comunitários, pescarias, rodas de conversa e romances. O próprio mar atua quase como um personagem onipresente, envolvendo a vida e os sentimentos dos moradores.

Nesse contexto, a obra constrói uma dualidade do tempo. De um lado, há o “tempo de fora”, urbano, conectado a bancos e correios. De outro, o tempo psicológico e rítmico da vila, onde a natureza governa a rotina. Ponta da Pedra representa esse tempo moroso, enquanto Vitória da Fé permanece associada ao dinamismo social e político do interior.

A Ditadura Militar surge como elemento opressor que molda as relações entre os personagens, impondo um pacto de silêncio e clandestinidade. A narrativa expõe a colaboração entre o Exército e setores da Igreja na investigação e perseguição de jovens considerados “comunistas”. A opressão aproxima diferentes classes sociais em alianças secretas, mas também semeia desconfiança e medo.

Entre os principais personagens do romance está Eliza, protagonista que rompe com sua origem conservadora ao tornar-se professora e engajar-se na luta contra a opressão social e política. Ernesto Dazu, conhecido pelo codinome “Francês”, é o grande amor de sua vida e atua clandestinamente na resistência contra o regime, marcando sua trajetória pelo mistério e pelo sacrifício. Camilo Dazu, filho de Ernesto, estabelece com Eliza uma relação profunda e complexa. Celino, por sua vez, é um dos amigos mais antigos de Eliza, com quem mantém forte cumplicidade desde a infância em Vitória da Fé. Mais tarde, torna-se advogado bem-sucedido na capital, mas permanece presente na vida da protagonista.

A vida comunitária em Ponta da Pedra é marcada pelas “Rodas de Revisão de Vida”, inspiradas nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica. Esses encontros servem ao enfrentamento coletivo de problemas locais e à reflexão política, gerando iniciativas transformadoras como o “Curso de Letramento de Adultos”, que fortalece os laços de benquerença entre os moradores.

Assim, o romance se afirma como um manifesto contra o apagamento histórico das torturas e atrocidades do regime militar, exigindo que a sociedade assuma a responsabilidade por essa memória. Há também uma ruptura patriarcal, uma vez que a autora subverte a estrutura do campo literário tradicionalmente dominado por homens ao conferir protagonismo absoluto à subjetividade e aos desejos femininos. 

Ao colocar o amor como forma de resistência, a obra ensina que, mesmo sob a tirania, as conexões humanas e o afeto são elementos que conferem sentido à existência e à busca por justiça social.


6 - Tempo de Intensa Crueldade


“Tempo de Intensa Crueldade: resistência mantida pela luta e pelo amor”, do final de 2025, é o romance mais recente de Ana Isabel Rocha Macedo. 

A obra utiliza a Ditadura Militar como pano de fundo para abordar temas de resistência, luta e amor, situando sua narrativa principalmente entre os anos de 1964 e 1985. O enredo se constrói a partir do entrelaçamento entre relações afetivas intensas e a militância política de seus personagens, revelando como a opressão histórica molda trajetórias individuais e coletivas.

A narrativa é conduzida por uma voz externa e onisciente, que adota tom de relato quase epistolar e coloquial, como se contasse a história a um ouvinte merecedor. Essa confidência aproxima o leitor dos dilemas e paixões dos personagens, criando empatia sem julgamentos morais.

A história se inicia centrada em Laura, uma mulher que vive de forma intensa seus sentimentos e defende a experiência do “amor plural”. Casada com Gualberto, companheiro compreensivo que respeita sua liberdade, Laura mantém também relações extraconjugais marcadas por paixão e conflito. Seu relacionamento com Paulo, professor e ex-amante, constitui um amor arrebatador e clandestino que termina de forma conturbada com sua morte trágica em um acidente automobilístico. Posteriormente, Laura aproxima-se de Aldo, advogado trabalhista de ideais libertários, tornando-se sua grande paixão. A relação, vivida em encontros furtivos, é atravessada pelo medo e pela tensão impostos pelo contexto político.

A trama se desloca então para dezembro de 1983, quando Aldo, profundamente marcado por perdas e pela repressão, inicia uma viagem clandestina ao lado de sua cuidadora Zenaide e das freiras militantes Irmã Virgília (Ivone Martins) e Irmã Beta. O objetivo do grupo é chegar a São Paulo para participar do comício das Diretas Já, símbolo da luta pela redemocratização do país. Durante o trajeto, realizado sob constante temor de perseguição pelos “meganhas da ditadura”, a presença das religiosas funciona como disfarce estratégico para evitar suspeitas. A viagem representa a última grande jornada de Aldo em prol da democracia.

Após a morte de Aldo, Zenaide — grávida do militante Juca (Padre Marco Túlio) — e as freiras estabelecem-se na região da cidade fictícia de Várzea do Rio, onde se engajam em projetos de alfabetização de adultos por meio das Comunidades Eclesiais de Base. O epílogo acompanha o período de redemocratização e evidencia a continuidade da memória e da resistência daqueles que tombaram durante os tempos de intensa crueldade.

A Ditadura Militar atua como pano de fundo opressivo que molda os destinos dos personagens. O regime impõe um cenário de violência e medo constante, obrigando militantes a viverem na clandestinidade e a desenvolverem estratégias de disfarce e sobrevivência. Nesse contexto, a viagem final de Aldo ao lado das freiras exemplifica a necessidade de táticas sutis para burlar a vigilância estatal.

Ao mesmo tempo, o romance constrói um contraponto à violência institucional ao exaltar a solidariedade, a fé libertadora e os afetos humanos. A vivência do amor plural por Laura e a atuação de comunidades cristãs engajadas demonstram que o amor e a fraternidade podem constituir formas legítimas de resistência política. 

O violão surge como importante símbolo dessa resistência sensível. Companheiro inseparável de Aldo, o instrumento o acompanha mesmo em sua fuga clandestina, funcionando como fonte de alento e elo entre Arte e militância. No epílogo, o violão representa a continuidade do espírito libertário, conectando o passado de luta ao futuro democrático.

O tempo e o espaço narrativos estruturam-se em torno de experiências políticas e afetivas. A história transita por cenários fictícios, como Várzea do Rio, Jequitibaú e Cascalheira. Mas também por São Paulo, sendo a capital paulista o destino da viagem rumo ao comício das Diretas Já. A narrativa inscreve-se, assim, em uma geografia marcada por refúgios, rotas de fuga e espaços de organização política.

A Teologia da Libertação constitui uma das bases morais e políticas do romance. As Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica atuam como polos de organização popular, enquanto religiosas como Irmã Virgília e Irmã Beta participam ativamente da resistência, abrigando perseguidos políticos e denunciando a hipocrisia de torturadores, sendo a militância dessas mulheres validada pela própria hierarquia religiosa.

As freiras são retratadas de forma humanizada e engajada, rompendo o estereótipo da reclusão passiva. Dirigem veículos em rotas de fuga, expressam indignação contra a violência do regime e combinam firmeza política com humor e afeto. Irmã Raimunda, Madre Superiora em Várzea do Rio, oferece abrigo aos viajantes e apoia as iniciativas sociais do grupo.

Ao colocar personagens femininas na linha de frente da resistência, Ana Isabel Rocha Macedo desafia o machismo e os estereótipos religiosos, apresentando mulheres como protagonistas de suas histórias e de transformações sociais. Assim, a autora entrelaça o campo íntimo ao ativismo cívico, mostrando que a autonomia feminina reside na posse de seus afetos, escolhas e lutas.

Nas entrelinhas, o romance constrói uma memória humanizadora e solidária. Embora trate de paixões intensas, sua espessura reside na denúncia das fronteiras impostas ao afeto e à liberdade. A obra afirma que o amor e a solidariedade são formas vitais de enfrentamento político e que a democracia é fruto do sacrifício daqueles que lutaram em tempos sombrios.

Em última instância, "Tempo de Intensa Crueldade" funciona como instrumento de memória e alerta para o presente. Ao evocar a vida mutilada e ceifada de tantos que resistiram, o romance ensina às novas gerações que a democracia é uma conquista permanente. 

Como mensagem final, reafirma que, apesar da crueldade, sempre haverá espaço para o amor e para a busca pelo outro. Lembrando que é preciso sempre estar atento e forte, pois a luta continua.


7 - Características literárias


A escrita de Ana Isabel Rocha Macedo transita com naturalidade entre relatos confessionais intimistas e experimentações de vanguarda. Suas técnicas narrativas e seu estilo literário compõem um conjunto múltiplo, em que se destacam tanto a potência afetiva quanto a ousadia formal, sempre orientadas por uma visão de mundo humanizadora e solidária. 

Sua linguagem mantém com frequência um tom de relato confidencial, coloquial e epistolar, como se o texto fosse uma conversa íntima. Mesmo ao tratar de temas pesados, a autora consegue empregar uma linguagem dotada de leveza. 

Em contrapartida, quando necessário, essa mesma linguagem adquire densidade e gravidade, ganhando um peso diferente conforme o drama se intensifica. 

Soma-se a isso uma abordagem poética, em que a prosa busca extrair a grandiosidade do vulgar, do chão das coisas e do todo-dia, decodificando emoções com zelo e sem pressa por meio de uma minuciosa abordagem afetiva. 

Esse efeito de proximidade é intensificado pelo uso imersivo da primeira pessoa e pelo tom coloquial e confidencial. A autora frequentemente constrói narrativas que soam como relatos íntimos. A Narradora externa interage com o leitor como se confiasse segredos a um amigo próximo. 

Ao longo do texto, esse tom de confidência sustenta a fluidez do relato, criando uma intimidade que humaniza os personagens e quebra preconceitos morais, sobretudo quando a autora valida sentimentos complexos, sem julgamentos conservadores.

Paralelamente, sua obra recorre com frequência a procedimentos como narrativa não linear, intertextualidade e metalinguagem, sendo permeada por referências externas — da Bíblia à MPB — e por reflexões internas da Narradora sobre as dificuldades do ofício da escrita. 

A metalinguagem e a intertextualidade aparecem não apenas como técnica estrutural, mas como tema e vocação estética. A própria linguagem e o ofício da escrita são questões recorrentes. É comum que a voz narrativa pense dentro da história sobre como transformar sentimentos em linguagem, tratando essa transmutação como um gesto quase milagroso. 

A palavra escrita é exaltada como bálsamo e como “tapete mágico”, ferramenta de salvação e de recomposição do humano. Assim, a escrita se torna, ao mesmo tempo, assunto e instrumento, comentário e ação, forma e fundamento.

A narrativa também se enriquece pelo contraste de registros linguísticos. Há tensão e harmonia entre a postura poética da Narradora e a naturalidade ruidosa dos diálogos dos personagens, que trazem ao texto forte colorido.

A linguagem utilizada na escrita de Ana Isabel Rocha Macedo é rica e multifacetada, transitando entre a poesia profunda e a crueza do cotidiano. A autora equilibra a simplicidade da oralidade com reflexões existenciais complexas, sendo o regionalismo um de seus instrumentos mais significativos. 

Ela incorpora organicamente o sotaque e o modo de falar do interior e das áreas rurais, recorrendo a modificações fonéticas, supressão de letras, concordância coloquial e vasto vocabulário típico. Esse regionalismo não é mero ornamento. É empregado de forma proposital para expressar a profunda sabedoria popular, apresentando reflexões filosóficas por meio de uma linguagem simples e rústica. 

O aspecto mais interessante desse uso da oralidade é justamente o contraste entre a forma e o conteúdo. Através de falas gramaticalmente “incorretas” para a norma culta, seus personagens são capazes de formular metáforas complexas e belíssimas reflexões sobre a vida e as emoções.

Dentro dessa arquitetura, também se sobressaem as reviravoltas narrativas em epílogos dramáticos. Ana Isabel tem o dom de embalar o leitor ao longo da leitura para, no final, surpreendê-lo com grandes revelações contidas no epílogo, reconfigurando a perspectiva e fazendo com que toda a narrativa anterior tenha que ser relida sob nova luz. 

Esse domínio do “efeito final” dialoga com sua habilidade de controlar densidades. O texto pode começar leve e, quando o enredo exige, ganhar espessura e um peso progressivo, sobretudo nos momentos em que a violência histórica ou a tragédia íntima entram em cena.

Outra marca forte do estilo de Ana Isabel Rocha Macedo é o entrelaçamento de ficção e memória. A autora frequentemente funde a realidade — suas lembranças e a história da região — com a invenção romanesca, produzindo um tom nostálgico, emotivo e, por vezes, doído, como se o relato fosse construído por meio de uma peneira da memória. 

Esse recurso reforça o caráter memorialístico, enquanto a narrativa se estrutura como um testemunho afetivo que preserva pessoas, cenas, paisagens e acontecimentos, transformando-os em matéria literária.

Os romances de Ana Isabel Rocha Macedo, natural de Vitória da Conquista, exploram a identidade e a história da cidade natal, ao transformarem memórias locais, marcos urbanos e a intensa vida sociopolítica da região em matéria-prima essencial para a ficção. 

Esse movimento aparece no resgate de marcos históricos e afetivos, quando a autora entrelaça memória e invenção para reimaginar eventos marcantes para a identidade do município, como a pintura do teto da Catedral de Vitória da Conquista. 

Sua Literatura também funciona como vitrine memorialística, prestando homenagem a figuras locais e à própria família, como se a narrativa fosse, além de romance, um arquivo sensível do lugar.

Ao mesmo tempo, a autora retrata a efervescência cultural e urbana ao utilizar cidades fictícias como cenário de origem dos personagens, refletindo profundamente a identidade de uma cidade do interior baiano na segunda metade do século XX. Nesse retrato, surgem a estrutura comercial, o lazer da época — cinemas, rádio e clubes sociais —, as tensões religiosas — domínio católico em contraste com a marginalização de religiões de matriz africana — e o impacto opressor da Ditadura Militar sobre o cotidiano. 

A transposição da vida política e religiosa é parte desse mesmo gesto. A identidade de resistência encenada em seus livros espelha a realidade histórica de Vitória da Conquista nas décadas de 1960 e 1970, quando a sua Diocese foi enorme centro de difusão das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e polo de educação popular. Essas dinâmicas estruturam o engajamento de personagens e o ativismo cristão presentes nos romances, sendo o ativismo conquistense transposto para personagens como professores universitários e advogados voltados a causas populares.

A autora explora paisagens do interior baiano e projeta vivências reais para descrever rios, ruas de terra e o ambiente rústico que circunda a cidade, construindo uma Literatura que preserva não apenas a geografia física, mas o espírito cultural da região. 

Dessa forma, sua obra atua como verdadeiro repositório da memória de Vitória da Conquista, traduzindo para a ficção a tessitura histórica, cultural, religiosa e política da cidade, que se torna um autêntico personagem coletivo.

Por fim, outro traço central da sua obra é a Literatura de expressão feminina. O grande diferencial da autora não é apenas escrever sobre as mulheres, mas fazer com que o próprio discurso literário incorpore a essência feminina. Assim, a mulher torna-se, simultaneamente, sujeito e objeto da narrativa. O universo feminino é abordado por meio de uma minuciosa abordagem afetiva, capaz de decodificar emoções com profundidade e sem recorrer a discursos moralistas. 

Nessa mesma direção, a autora desenvolve protagonismos femininos complexos e emancipados, investigando a experiência das mulheres de dentro para fora, com leveza e dignidade, sem submetê-las ao crivo da hipocrisia social ou ao falso moralismo.

Seus grandes temas sociais se conectam de forma orgânica à construção de protagonistas femininas. Ana Isabel entrelaça a dimensão íntima com a dimensão cívica. Utiliza o despertar político feminino para denunciar sistemas opressores e o apagamento histórico, especialmente em relação à Ditadura Militar, narrando a evolução do engajamento estudantil, a militância ativa das professoras, a educação popular na clandestinidade e o ativismo das Comunidades Eclesiais de Base, fundamentadas na Teologia da Libertação. 

Simultaneamente, a autora rompe preconceitos morais e dá voz digna e humanizada a figuras estigmatizadas, desafiando moralismos e hipocrisias sociais ao contar a trajetória feminina com leveza e sem julgamentos, centralizando-a numa vivência amorosa profunda.

Nos seus romances, as mulheres subvertem convenções de submissão e exclusividade, sem falsos pudores, sem culpas e sem necessidade de pedir permissão para gerir a própria vida íntima. Longe de papéis passivos, as personagens femininas assumem liderança e articulação política em situações de risco. 

A autora, inclusive, quebra radicalmente o estereótipo da mulher religiosa reclusa, retratando freiras que repudiam torturas, atuam em rotas de fuga dirigindo veículos, protegem militantes e enfrentam o machismo de forma incisiva. Além disso, a independência íntima diante das adversidades aparece como recusa de assumir o papel de dependência, mesmo em momentos de extrema fragilidade física.

Assim, pela soma de versatilidade formal, vigor linguístico, memória regional e consciência social, a obra de Ana Isabel Rocha Macedo consolida uma Literatura em que a experiência feminina não é apenas tema, mas estrutura. 

Em que a linguagem não é apenas veículo, mas personagem. 

Em que a luta política e o exercício da liberdade e do amor caminham lado a lado, compondo uma escrita que simultaneamente acolhe, preserva e denuncia.


8 – Contextualização


A percepção da Arte como produto histórico, sociocultural, técnico e estético exige, antes de tudo, a tarefa intelectual de contextualizar. 

Toda obra nasce de um tempo e de um lugar.

A devida apreciação da Arte, em suas diversas expressões — inclusive a literária — não pode ocorrer de forma isolada, mas demanda a compreensão das circunstâncias que envolvem sua criação, circulação e recepção. 

Essa tarefa de contextualização permite ampliar o âmbito informativo e perceber a história da obra de Arte como produção social, que abarca dimensões históricas e culturais.

Ao contextualizar a produção artística, torna-se possível compreender sua importância tanto no plano individual quanto no coletivo. A obra deixa de ser vista como um objeto autônomo e passa a ser entendida como parte de um processo social mais amplo, vinculado às experiências, valores e conflitos de uma determinada época. 

Esse movimento também favorece a criação de relações entre as produções artísticas e a leitura de mundo, permitindo que a Arte seja interpretada como linguagem que dialoga com a realidade vivida.

Nesse processo, desenvolve-se a capacidade de realizar análises críticas da obra de Arte por meio de procedimentos de descrição e análise que conduzem à interpretação, à avaliação e à investigação de significados. 

A discussão de questões estéticas amplia o repertório cultural do observador, ao mesmo tempo em que evidencia que a Arte está, antes de tudo, presente na vida das pessoas.

Assim, a contextualização da produção artística não apenas enriquece a compreensão estética, mas também contribui para o desenvolvimento de conceitos de cidadania e de identidade cultural, ao revelar a Arte como expressão viva das experiências humanas e como instrumento de reflexão sobre o mundo social.


9 – Arte literária


A Literatura é um produto cultural milenar e multifacetado. 

Embora não exista um conceito único e definitivo, ela é reconhecida como o meio pelo qual o ser humano utiliza a linguagem para expressar sua visão da existência e refletir sobre os enigmas da vida. 

A Arte literária, nesse sentido, pode ser compreendida como a expressão mais completa do ser humano. Ao contrário de outras atividades que fragmentam o indivíduo na forma de um especialista técnico, a Literatura o aborda em sua totalidade, sem distinções ou qualificações, como se nela a experiência humana pudesse reaparecer inteira, com suas contradições, desejos, fraquezas, aspirações e visões de mundo.

Mas ninguém escreve no vazio.

Toda obra nasce de um tempo e de um lugar.

Assim, o fenômeno literário é parte integrante do processo histórico. A essência e o valor estético das obras não existem no vácuo, mas refletem o desenvolvimento intelectual, social e econômico de um povo. 

Por isso, compreender a Literatura implica reconhecer que ela se forma, se transforma e ganha significado no interior de uma sociedade concreta, atravessada por tensões, mudanças e conflitos. 

Em consequência, a análise literária deve rejeitar o formalismo isolado. É impossível compreender a evolução da Literatura sem relacioná-la aos conflitos profundos da vida social e ao processo histórico geral.

Nessa perspectiva, a Literatura exerce uma função humanizadora e psíquica decisiva. Ela atua como o “sonho acordado das civilizações”. Assim como o sonho é vital para o equilíbrio psíquico individual durante o sono, a fabulação literária é indispensável para o equilíbrio social e para a saúde mental coletiva. 

A forma literária organiza o caos interior, vez que a estrutura coerente da palavra organizada comunica ordem ao espírito do leitor, transformando sentimentos vagos em estruturas consistentes e reflexivas. 

É nesse processo que ocorre a humanização, quando a Literatura desenvolve traços essenciais como a empatia, a reflexão e o afinamento das emoções de maneira profunda e invisível, sob a superfície da consciência, operando em camadas que nem sempre se deixam perceber de modo imediato.

A experiência literária, contudo, é paradoxal. 

Ela humaniza não por ser meramente edificante ou por oferecer lições moralizantes, mas justamente por expor o indivíduo à complexidade da vida, confrontando livremente aquilo que chamamos de bem e de mal. 

Ao permitir que o leitor habite, pela imaginação, experiências distintas, contraditórias e por vezes inquietantes, a Literatura amplia a capacidade de compreensão do humano, afinando emoções e tornando mais complexa a própria percepção do mundo.

Essa dimensão se articula com a função social da Literatura e com seu papel de neutralização da especialização. A Literatura combate o embrutecimento produzido pela divisão social do trabalho. 

Na sociedade contemporânea, ela atua como força neutralizadora que resgata a humanidade do especialista, elevando-o acima de interesses puramente utilitários e reabrindo nele a possibilidade de uma percepção não fragmentada da realidade. 

Nesse sentido, a Arte literária oferece um refúgio contra o egoísmo e o materialismo. Em um mundo onde a religião e a ciência podem parecer distantes, a Literatura mantém viva a ânsia pelas altas questões, dando sentido e alvo à vida humana, reacendendo perguntas que não cabem apenas no cálculo, na técnica ou no proveito imediato.

Porém, o papel social da Literatura, inclusive seu potencial de denúncia e de desmascaramento de iniquidades, só atinge sua força total quando a mensagem é convertida em uma estrutura artística pertinente. 

Ou seja, não basta declarar uma intenção crítica. É necessário que a obra, enquanto forma literária, organize e encarne essa crítica em linguagem, ritmo, construção de personagens, conflitos e imagens, de modo que a dimensão literária seja o próprio meio pelo qual a experiência crítica se torna viva, intensa e transformadora.

Quando se considera a Literatura nacional e a realidade brasileira, essa relação entre obra e sociedade ganha contornos ainda mais claros. A Literatura nacional define-se pelo vínculo orgânico com o meio, quando o escritor abandona a imitação e se aproxima dos dramas, da terra e da gente do seu próprio país. 

Assim, o valor estético aparece como projeção das transformações sociais.

Os aspectos formais na Literatura refletem a participação do povo e o amadurecimento histórico da sociedade em direção à sua própria fisionomia. Em outras palavras, a forma literária e suas escolhas expressivas também nascem da realidade social, não podendo ser compreendidas sem o diálogo com as forças que movem a vida real.

Por fim, a Literatura deve ser entendida como direito humano e bem coletivo. O acesso à Literatura é uma necessidade universal. 

Por ser um fator indispensável para a integridade espiritual, privar o indivíduo da fruição literária é cometer uma mutilação de sua própria humanidade. 

A segregação cultural, portanto, é uma injustiça social. Limitar as classes populares apenas à cultura de massa, privando-as das criações estéticas complexas, é fruto da espoliação de direitos. Não de uma incapacidade intelectual delas. 

Daí decorre que a democratização da cultura é alicerce para uma sociedade justa. 

Garantir o acesso às formas literárias mais complexas é passo essencial para a superação da barbárie e para a plena humanização de todos os cidadãos.


10 - Conclusão


Ao percorrer a trajetória literária de Ana Isabel Rocha Macedo — desde “Malva” até “Tempo de Intensa Crueldade” — evidencia-se que sua obra não nasce isolada no campo da imaginação, mas profundamente enraizada na experiência histórica, cultural e afetiva de Vitória da Conquista, no interior baiano. 

Aquilo que, no início deste texto, aparece como biografia — a professora, a militante, a mulher vinculada à Educação, às Artes e aos movimentos sociais — revela-se, ao final, como matriz viva de sua criação literária. 

Sua ficção é, em larga medida, uma transfiguração estética dessa vivência concreta.

As noções teóricas apresentadas nos itens finais deste texto — que situam a Arte como produção sociocultural e a Literatura como instrumento de humanização — encontram plena confirmação na obra da autora. 

Seus romances demonstram que a linguagem literária não é mero ornamento, mas forma de organizar a experiência humana, de transformar dor em memória e de converter conflitos históricos em reflexão sensível. 

Ao articular memória, regionalismo, protagonismo feminino e engajamento social, Ana Isabel constrói narrativas que transcendem o plano individual e alcançam dimensão coletiva, evidenciando a Literatura como “sonho acordado” capaz de dar forma ao caos da experiência histórica.

Nesse sentido, suas personagens encarnam aquilo que a teoria aponta como função humanizadora da Literatura, como ampliação da empatia e o enfrentamento das contradições da vida. 

A presença da Ditadura Militar, da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base e das tensões sociais não surge como simples pano de fundo, mas como elemento estruturante que reafirma o vínculo orgânico entre obra e sociedade.

Assim, a produção literária de Ana Isabel Rocha Macedo confirma que a Literatura, elaborada como forma estética, porém enraizada na realidade, torna-se instrumento de memória, de denúncia e de esperança. 

Seus romances demonstram que o amor, a luta e a palavra podem constituir forças de resistência e de reconstrução do humano.

Dessa forma, sua escrita narra histórias, preserva experiências, ilumina conflitos e contribui para a formação de uma consciência histórica.

Ao reafirmar a Literatura como direito humano e bem coletivo, sua obra inscreve-se no movimento mais amplo de democratização da cultura, mostrando que, mesmo em tempos de intensa crueldade, a Arte permanece como espaço de encontro, de reflexão e de afirmação da dignidade humana.



NOTA


Enquanto escrevia este texto, além dos romances de Ana Isabel Rocha Macedo, consultei também os seguintes livros:

“Arte-Educação: leitura no subsolo”, de Ana Mae Barbosa (Cortez, 1998);

“História da Literatura Brasileira”, de Nelson Werneck Sodré (Graphia, 2002);

“Vários Escritos”, de Antonio Candido (Duas Cidades / Ouro Sobre Azul, 2004);

"Que é a Literatura?", de Jean-Paul Sartre (Ática, 1993).






18 fevereiro 2026

CONVERSA SOBRE DIAMANTES

 




CONVERSA SOBRE DIAMANTES


Reno Viana


O livro “Diamantes não são para sempre”, de Edna Maria Viana Soares, foi publicado no final de 2025, pela editora Girassóis. 

Desde então, eu tenho tentado escrever uma resenha sobre a obra. Não consegui.

A autora é minha irmã. A família retratada é a minha. E, para agravar o drama, fui leitor crítico da obra antes de sua publicação — embora nenhuma das minhas sugestões tenha sido acatada.

Restava-me um único caminho: ouvir a autora. 

Foi o que fiz.

A conversa transcrita a seguir aconteceu em uma das novas cafeterias de Vitória da Conquista, dessas que brotam como refúgios urbanos entre o frio súbito da cidade e o vai-e-vem apressado das ruas. O mês é fevereiro de 2026. Mas chovia — e fazia frio, como só Conquista sabe contrariar o calendário. Do lado de fora, a chuva insistente desenhava véus nas vidraças. Do lado de dentro, o aroma intenso do café expresso aquecia o ambiente e estimulava o fluir da conversa, como se cada gole ajudasse a decantar lembranças e a dar forma às palavras.


— Edna, de onde nasce sua vocação para a escrita?

— A escrita surgiu muito cedo em minha vida. Ainda menina, na rua 7 de Setembro, eu escrevia diários íntimos e poesias. A par disto, cresci ouvindo histórias da família, da cidade, da vida miúda e dos grandes feitos. Nossa mãe, Blandina, era uma narradora natural. O que faço hoje é uma espécie de continuidade consciente dessa tradição oral. Transformo memória em texto, mas sem retirar dela o calor humano.


— Como foi sua formação universitária?

— Minha trajetória universitária começou na antiga Faculdade de Formação de Professores de Vitória da Conquista, hoje integrada à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Foi ali que iniciei meus estudos em Letras e consolidei minha vocação para a docência e para a literatura.

Posteriormente, ampliei minha formação na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde aprofundei meu interesse pela Literatura e pelo seu duplo, a crítica literária, em seu diálogo com a História Cultural. 

Na UFBA cursei graduação em Letras Vernáculas e especialização em Língua e Literatura.

O mestrado em Letras foi realizado na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), etapa fundamental para a consolidação da pesquisa acadêmica e para o amadurecimento das reflexões sobre memória, cidade e processos culturais.

Já o doutorado em Letras, com ênfase em Filologia e Crítica Textual, foi realizado na Universidade de Lisboa, em Portugal, experiência que marcou profundamente meu modo de lidar com documentos, manuscritos e arquivos. O rigor filológico aprendido ali tornou-se uma base metodológica decisiva na escrita de “Diamantes não são para sempre”.

Paralelamente, realizei também especialização em Administração de Recursos Humanos, formação que dialoga com minha atuação como consultora técnica no banco Baneb e que contribuiu para a organização estrutural e metodológica do livro.

Paralelo ao curso de Administração de RH, fiz o percurso de Formação de Facilitadores do Processo Criativo, no Instituto Latino-Americano de Criatividade e Estratégia, o ILACE, em parceria com a University of the State of New York, em Buffalo, nos EUA.


— Essa formação em criatividade influenciou o livro?

— Essa formação foi decisiva, embora nem sempre apareça de forma explícita. No Instituto Latino-Americano de Criatividade e Estratégia, em parceria com a University of the State of New York, aprendi que criatividade não é improviso, é processo.

Ao escrever “Diamantes não são para sempre”, percebi que não estava apenas reunindo documentos e organizando genealogias. Eu conduzia um percurso de memória. Escutava relatos, estimulava lembranças, ajudava a organizar narrativas dispersas. De certo modo, atuei como facilitadora de um processo coletivo de elaboração do passado.

A Crítica Textual me ofereceu rigor. A formação em criatividade me deu método para integrar razão e intuição. Uma garantiu a fidelidade às fontes, a outra permitiu a costura simbólica entre pedra, tempo e linhagem.

Talvez por isso o livro não seja apenas um registro histórico, mas um espaço de mediação afetiva entre gerações. Escrever “Diamantes” foi, também, facilitar um reencontro da família consigo mesma. 


— Além de “Diamantes”, quais suas outras obras publicadas?

“Uma cidade dia sim dia não: Salvador nas crônicas de Vasconcelos Maia”, publicado pela EDUNEB, em 2015.

Tenho também artigos publicados no Brasil e em Portugal.

Recentemente participei da coletânea internacional “Conexões Atlânticas 2024”.


— Como dialogam seus livros “Uma cidade dia sim dia não” e “Diamantes não são para sempre”?

— São livros irmãos, embora distintos.

“Uma cidade dia sim dia não” olha para Salvador e para seus processos de transformação urbana e cultural.

“Diamantes não são para sempre” volta-se para a memória familiar nas Lavras Diamantinas.

Um investiga a cidade, o outro, a linhagem. Mas ambos tratam da mesma matéria: tempo, pertencimento e permanência.


— Como foi o seu estudo sobre o escritor Vasconcelos Maia?

— Analisei suas crônicas no Jornal da Bahia, entre 1958 e 1964. Ele registrou a modernização de Salvador. Valorizou a cultura popular e as raízes negras. Sua escrita contribuiu para a tradição soteropolitana moderna.


— O que é o livro “Diamantes não são para sempre”?

— A reconstrução da saga de uma família baiana ao longo de quatro séculos. A narrativa acompanha as transformações desde o Brasil Imperial até hoje, da riqueza da mineração à simplicidade do interior. Mais que História, celebra identidade e resiliência.


— Que período a saga cobre?

— Do século XVIII ao XXI.

Começa em 1769, em Cachoeira. Passa pelo ciclo minerador no século XIX. Registra a migração no século XX. E chega à consolidação da memória no século XXI.


— Como se deu o processo de escrita?

— Uma tecelagem entre oralidade e pesquisa histórica. Combinei memória coletiva com documentos oficiais e eclesiásticos. Atuei como ponte entre tradição oral e registro histórico.


— No livro, você aparece como escritora ou como herdeira da memória?

— Como ambas. O livro nasceu de um desejo íntimo. Preservar a história familiar antes que se perdesse. Tecendo fragmentos herdados de nossa mãe, de nossa avó Julieta e de nossas tias, busquei salvaguardar o legado das Lavras Diamantinas.


— A genealogia, para você, é ciência, literatura ou memória afetiva?

— As três coisas ao mesmo tempo. A genealogia me interessa como método, cruzamento de fontes, arquivos, registros paroquiais, jornais antigos. Mas também como narrativa.


— Quais espaços atravessam a narrativa?

— Do Recôncavo às Lavras Diamantinas. Lençóis, Andaraí, Mucugê, Palmeiras. Depois, o deslocamento para o Planalto da Conquista. Vitória da Conquista, Poções e Anagé.


— O que simboliza o fim do ciclo do diamante?

— A reinvenção. O abandono do garimpo foi ruptura necessária. A nova relação com a terra inaugura outros caminhos.


— No percurso da saga familiar, que significado assumem, no contexto do livro, Vitória da Conquista e Anagé?

— Representam a passagem do esplendor para a permanência.

Se as Lavras Diamantinas simbolizam o tempo da abundância mineral, Vitória da Conquista marca o tempo da reconstrução, o lugar onde a família reorganiza a vida após o declínio do garimpo. Não há mais o brilho súbito das pedras, mas a solidez do recomeço.

Já Anagé simboliza o enraizamento. É o território onde a narrativa sugere uma nova relação com a terra, menos marcada pela extração e mais pela permanência.

Se o diamante foi o sonho, o Planalto da Conquista foi o abrigo.


— Há uma dimensão política na sua escrita?

— Sim. Escrever memória é um gesto político. Ao registrar trajetórias de famílias do interior da Bahia, ao recuperar vozes que não aparecem nos grandes manuais, estou reivindicando um lugar no discurso da História.  A micro-história me fascina exatamente por isso, ela ilumina o que parecia pequeno, escreve a história a contrapelo. 


— Qual o papel das mulheres na obra?

— Central. Foram guardiãs da memória. Nossa mãe, quase centenária, catalisou o projeto. São elas que mantiveram a tradição oral e pediram que fosse registrada.


—  O que significa, hoje, escrever sobre sua própria família?

— Significa honrar os mortos e dialogar com os vivos.

Significa atender ao pedido de nossa mãe, que um dia me perguntou por que eu escrevia sobre os outros e não sobre os nossos.

“Diamantes não são para sempre” é, antes de tudo, uma resposta a ela.


A chuva então parou. O sol parecia querer voltar.

Encerrei a conversa com a impressão de que “Diamantes” não é apenas um livro sobre pedras preciosas.


É sobre o que permanece quando elas desaparecem...



Edna Maria Viana Soares


17 fevereiro 2026

GLAUBER, CINEMA E ARTE



GLAUBER, CINEMA E ARTE

 

Reno Viana

 

(Texto originalmente publicado na revista ESCRI7A, dirigida pelo escritor Aurélio Ricardo Filho, edição nº 13, de dezembro de 2025.)

 

Em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, há anos algumas pessoas se mobilizam para preservar a casa onde nasceu o cineasta Glauber Rocha, na rua 2 de Julho, no centro. A defesa desse patrimônio cultural tem sido uma luta árdua. Dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta, confirmou o nascimento ali e chegou a indicar ao fotógrafo JC D’Almeida o quarto exato em que ele nasceu. Glauber Rocha (1939-1981) não foi figura corriqueira da cidade, mas um conquistense de projeção internacional. Por isso, nem todos percebem a dimensão de sua obra e o valor desse vínculo físico e material.

Muitas vezes foi preciso contextualizar a importância cultural e histórica de Glauber Rocha para que alguns compreendessem sua relevância no campo do Cinema e da Arte.

Iniciávamos essa contextualização lembrando que, desde as cavernas até a era digital, o ser humano sempre produziu Arte — presente em todas as civilizações e em todos os tempos.

No mundo contemporâneo, por exemplo, a Arte não está restrita a nichos específicos. Ela molda nossa relação com o mundo, da tela do celular à Arquitetura das ruas. Manifesta-se de modo explícito, como entretenimento e reflexão, mas também de forma sutil, como no design e no ambiente construído. Está na cor e na forma dos objetos que usamos, nos logotipos, embalagens e websites. No rádio, na televisão, nos fones de ouvido e nos shows. Até as roupas — padrões, cores e cortes — refletem tendências estéticas. Igualmente, a beleza e a funcionalidade dos edifícios, das cidades, das praças e parques revelam a sua presença constante.

Ao que parece, a espécie humana sente necessidade da beleza e da expressão. Como dizia o poeta Ferreira Gullar, "a Arte existe porque a vida não basta".

No campo das manifestações artísticas, é comum referir-se ao Cinema como sendo a Sétima Arte.

Para contextualizar e compreender esse conceito, é necessário lembrar que até recentemente as Artes eram classificadas em dois tipos básicos, as Belas-artes e as artes aplicadas ou utilitárias.

Tradicionalmente, eram seis as chamadas Belas-artes. Esse conceito tradicional se baseava na ideia de que cada forma de expressão tem um elemento material principal ou um meio de comunicação específico que define sua natureza e linguagem.

As chamadas Artes Estáticas são aquelas que se constroem a partir da manipulação da forma, da matéria e do espaço, sendo percebidas pelo espectador de maneira simultânea, isto é, em um único golpe de vista. Nesse grupo, a Pintura se define como a Arte da cor e da luz, utilizando pigmentos e jogos de luminosidade para compor imagens sobre uma superfície bidimensional. Já a Escultura é entendida como a Arte do volume, pois trabalha materiais como pedra, metal, madeira ou argila, modelando-os até que se convertam em formas tridimensionais que ocupam fisicamente o espaço. Por fim, a Arquitetura é a Arte da organização do espaço construído, projetando e erguendo edifícios ou ambientes por meio da disposição de volumes, linhas e proporções, de modo a conciliar beleza e funcionalidade.

As Artes Dinâmicas são aquelas que se realizam ao longo de uma duração, sendo percebidas pelo espectador de forma sucessiva, conforme se desenrolam no tempo. Nesse conjunto, a Música se apresenta como a Arte do som, organizando ritmos, timbres e silêncios em padrões temporais capazes de produzir harmonia, melodia e expressão sensível. A Literatura, por sua vez, é a Arte da palavra e da língua, explorando o uso estético e rítmico do discurso, seja escrito ou oral, em verso ou prosa, para transmitir ideias e emoções. Já a Dança e o Teatro são reconhecidos como Artes do movimento e do corpo, pois se valem da gestualidade, da ação dramática e da presença física, seja para expressar sentimentos por meio da movimentação corporal, seja para representar histórias e conflitos sobre o palco.

O Cinema foi reconhecido como a Sétima Arte justamente porque reúne e sintetiza elementos das seis tradicionais Belas-artes, configurando-se como uma forma artística profundamente complexa. Nele, há a manipulação de cores, iluminação e enquadramentos fotográficos, bem como o trabalho com o volume e o espaço, perceptíveis na criação e organização de cenários, objetos e ambientes filmados. Além disso, integra trilha sonora e efeitos sonoros, que contribuem para a construção de atmosferas e sentidos, bem como se estrutura a partir de um roteiro, que organiza a narrativa e os diálogos. Soma-se a isso a encenação, que envolve o movimento do corpo, a expressão dos atores e o ritmo das ações no espaço. Dessa forma, o Cinema articula diferentes linguagens artísticas em um único resultado expressivo.

Ao longo do século XX, a estética norte-americana de Hollywood consolidou-se como o modelo dominante de Cinema industrial, estruturado por um sistema complexo voltado ao lucro e à ampla adesão do público, o que determinou sua linguagem e dramaturgia. A estética hollywoodiana busca criar a ilusão de realidade. Para isso, a montagem adota cortes quase imperceptíveis, com transições suaves, evitando rupturas visíveis que revelem a presença do cineasta. A câmera, em regra, evita ângulos incomuns ou experimentais. Diálogos e ruídos são produzidos de modo a parecer naturais, enquanto a música incidental atua de maneira sutil para intensificar emoções, muitas vezes sem que o espectador perceba. Em geral, o filme hollywoodiano dura cerca de uma hora e meia e organiza todos os seus elementos em função da estória, eliminando o que não contribui para o andamento do enredo. As narrativas tendem a seguir estruturas fixas, muitas vezes centradas no confronto entre mocinho e bandido, com frequência culminando em um final feliz, evitando temas polêmicos que possam afastar parte do público. Além disso, a dramaturgia hollywoodiana é influenciada pela lógica mercadológica, que transforma atores em estrelas capazes de atrair espectadores. A classificação dos filmes em gêneros — como aventura, suspense, romance, terror, faroeste, entre outros — funciona como um mecanismo comercial que garante a venda das obras, uma vez que, quando uma fórmula agrada, a indústria tende a reproduzi-la, assegurando seu sucesso no mercado.

No entanto, muitos cineastas célebres se opuseram ao modelo hollywoodiano, contribuindo assim para a evolução da linguagem cinematográfica e para a afirmação do Cinema como uma Arte de grande densidade estética e crítica. A história do Cinema, assim, ficou marcada pela tensão entre sustentar a ilusão de realidade e denunciar seu ocultamento, permanecendo como um campo de disputa contínua entre o sistema industrial-comercial e propostas estéticas e políticas alternativas.

Glauber Rocha, atuando no contexto do chamado Cinema Novo brasileiro, afirmou-se em oposição ao modelo dominante e industrial de Hollywood. Reconhecido como um dos mais importantes cineastas do Brasil, passaria a ser com frequência citado ao lado de importantes personalidades que enxergavam a Arte cinematográfica como espaço de reflexão política, existencial e estética. Por exemplo, Eisenstein (O Encouraçado Potemkin, 1925); Buñuel (Um Cão Andaluz, 1928); os cineastas do Neorrealismo Italiano, como Rossellini (Roma Cidade Aberta, 1945) e De Sica (Ladrões de Bicicleta, 1948); também Fellini (A Doce Vida, 1960) e Antonioni (Blow-Up - Depois Daquele Beijo, 1966); a Nouvelle Vague francesa, com Godard (Acossado, 1960), Truffaut (Jules e Jim - Uma Mulher para Dois, 1962) e Resnais (Hiroshima Meu Amor, 1959); Ingmar Bergman (Persona - Quando Duas Mulheres Pecam, 1966), explorando dilemas psicológicos e morais; bem como Costa-Gavras (Z - A Orgia do Poder, 1969), inserindo crítica política. Todos esses cineastas tinham em comum a oposição ao modelo dominante, buscando novas formas de produção, novas temáticas e linguagens.

Glauber Rocha, ao lado de diretores como Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas, 1963), Ruy Guerra (Os Fuzis, 1964), Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma, 1969), dentre outros, defendia uma Arte cinematográfica voltada para a questão social, capaz de expressar as contradições do subdesenvolvimento, denunciar injustiças e dar voz aos oprimidos. Associado à ideia de Cinema de Autor, ele buscou realizar uma obra em que o diretor afirmava sua visão estética e política. Seus filmes mais conhecidos, como Deus e o Diabo Na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968), são frequentemente listados entre os mais importantes de todos os tempos no Brasil.

Enquanto a estética hollywoodiana buscava a ilusão de realidade, o Cinema Novo brasileiro apostava em uma expressão crítica e consciente de si mesma. Ao reunir linguagem cinematográfica, dramaturgia e reflexão política, Glauber Rocha criou uma forma de Cinema autoral voltada para a realidade do povo, o subdesenvolvimento e a exploração, desafiando o espectador tanto intelectual quanto emocionalmente. Sua defesa de uma linguagem própria e sua repercussão inédita, com consagração internacional e reconhecimento entre os maiores cineastas do século XX, consolidaram sua relevância para o Cinema mundial, contribuindo decisivamente para elevar a Sétima Arte à condição de espaço de liberdade, crítica e invenção.

Glauber Rocha, assim, alcançou importância internacional, figurando entre os grandes cineastas que elevaram o Cinema do mero entretenimento a um legítimo patamar de obra de Arte.






ELQUISSON SOARES E A POLÍTICA EM NÓS

 




ELQUISSON SOARES E A POLÍTICA EM NÓS

 

Reno Viana Soares

  

(Texto escrito em 2017 para o livro “Elquisson – O menino da vila”, do Professor Durval Lemos Menezes, lançado pela Edt. Kelps, em 2022.)

 

O professor Durval Menezes pediu-me um depoimento escrito para o livro que está escrevendo sobre a trajetória do advogado baiano Elquisson Soares. Dois motivos fortes me obrigaram a atender ao pedido do eminente educador. O primeiro é que neste ano de 2017, quando escrevo, estou completando oito anos de atuação como juiz titular no mesmo Tribunal do Júri da cidade baiana de Vitória da Conquista em que, há quase cinquenta anos, o ilustre advogado começou a se tornar afamado. O segundo motivo que me obrigou a redigir o presente texto foi o fato de que o aludido bacharel cuja carreira será estudada eventualmente é meu tio.

A memória da atuação do advogado Elquisson Soares no Tribunal do Júri se confunde com as minhas primeiras lembranças da infância. Certamente isso pode ter alguma relação inconsciente ou não com o fato de eu estar hoje aqui, tantos anos depois, mourejando todos os dias nos angustiados casos levados a julgamento no tribunal popular.

Por razões familiares, nossos caminhos sempre estiveram entrelaçados. Como em todas as famílias, vivenciamos inúmeros dramas, alguns grandes, outros pequenos, mas também compartilhamos alegrias e regozijos, Graças a Deus. Essas vivências e os respectivos sentimentos que proporcionaram dificilmente poderiam ser transformados em palavras, pelo menos dentro das limitações expressivas do modesto redator destas linhas. No entanto, tentando revelar alguns traços da personalidade do indivíduo de quem ora tratamos, resolvi rememorar abaixo três episódios que me deixaram impressões profundas, genuínos nós existenciais que exigiram de mim algum esforço para desatar, expondo situações que fogem um pouco daquilo que normalmente acontece na maioria das famílias comuns.

Antes, porém, pensando em eventuais leitores que possam se deparar com o presente relato em contexto diverso daquele para o qual está sendo originalmente escrito, penso ser necessário mencionar alguns marcos biográficos principais do sujeito de quem estamos tratando.

O referido indivíduo chama-se Elquisson Dias Soares. Ele nasceu em 1940, na zona rural da cidade de Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, em um pequeno arruado conhecido como São João da Vila Nova, às margens do Rio Gavião. Essa localidade, depois de elevada a condição de Município, passou a se denominar Anagé. Ainda hoje trata-se de uma povoação de feições rústicas, situada em uma região pastoril, em pleno sertão semiárido. Por volta de 1959, o jovem Elquisson seguiu o mesmo destino de muitos dos seus conterrâneos sertanejos e emigrou para o sul do País. Foi para o Rio de Janeiro. Por lá, certamente com algum sacrifício, conseguiu formar-se advogado. Em 1971 resolve retornar para a Bahia. De volta a Vitória da Conquista, ganha aqui fama de destemido e combativo. Profissional bem-sucedido, torna-se também produtor rural e empreendedor. Enveredando pela Política, disputa eleições, vários pleitos, algumas vezes alcançando êxito, outras vezes não.

Esse é o personagem principal dos acontecimentos que quero rememorar.

Assim, relembro primeiramente episódio acontecido no distante ano de 1978.  Estávamos em plena ditadura, no final do mandato presidencial do general Ernesto Geisel. Nesse ano aconteceriam eleições e Elquisson era candidato a deputado federal pelo único partido de oposição existente à época, o MDB. Eu era criança e meus pais residiam em Vitória da Conquista, no Bairro São Vicente, próximo ao centro da cidade. O episódio que quero narrar aconteceu em nossa casa, em reunião na qual se encontravam Elquisson e seus irmãos Elbson (“Bibi”) e Edson, esse último meu pai. Também se encontrava presente meu irmão Antonio Ernesto, então ativo militante político. Em determinado momento, Elbson (“Bibi”), que exercia o primeiro dos seus futuros cinco mandatos como prefeito de Anagé, irrita-se e esbraveja com veemência:


-  Você não é comunista, Elquisson! Comunista é Haroldo Lima, que está lá na cadeia preso...

 

Essas palavras ficaram para sempre gravadas em minha mente e o meu esforço inocente para entender o que significavam marcou para mim o final da minha infância e o ingresso no mundo adulto. Aos poucos fui entendendo o que estava acontecendo. Elquisson visitara na cadeia o dirigente Haroldo Lima e os comunistas de forma velada passaram a apoiar sua candidatura a deputado federal. O assunto tratado na reunião em nossa casa versava sobre o fato de que os comitês eleitorais da sua candidatura estariam sendo usados para rearticulação clandestina do Partido Comunista do Brasil.

Elquisson era amigo dos comunistas. O advogado Ruy Medeiros, seu antigo colega de escritório, era um deles e por isso fora preso e torturado pela ditadura. Outro colega seu, o  advogado Rosalindo de Sousa, igualmente era e morrera como guerrilheiro na região do Araguaia. Na véspera de partir para a guerrilha na selva, Rosalindo teria convidado Elquisson para ir também. Essas eram histórias que eu ia descobrindo a partir daquela épica reunião.

Haroldo Lima, o dirigente comunista que Elquisson visitara na prisão, depois de solto tornou-se também parlamentar. Na Câmara dos Deputados eles dois se juntariam ao renomado líder oposicionista Francisco Pinto, formando um grupo que ficaria conhecido em Brasília como a “Tendência Popular”, agrupamento que atuava dentro do PMDB.

Esses três parlamentares estavam juntos no segundo episódio que quero rememorar. Esse fato aconteceu em 1986, em Salvador, Bahia, onde eu como jovem estudante universitário residia na ocasião. Tratava-se do grande comício de encerramento da campanha progressista de Waldir Pires para governador. No ano anterior tivera fim o regime militar, acontecera a morte dramática do presidente Tancredo Neves e naquele momento já estávamos na chamada “Nova República”. No entanto, poucos meses após o civil José Sarney assumir a Presidência da República, Elquisson rompera com seus antigos companheiros e voltara para a oposição, passando a acompanhar as propostas do socialismo moreno de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.

Naquele comício em Salvador, uma multidão incalculável ocupava a Praça Castro Alves, no centro da capital baiana. Nos jornais do dia seguinte as autoridades falavam em cento e vinte mil pessoas presentes no ato. Foi o prestígio político do lendário Francisco Pinto que assegurou a Elquisson espaço naquela manifestação gigantesca, como um dos principais oradores a falar. Ele proferiu ali um dos seus mais violentos discursos. Perante aquela multidão descomunal, sua voz firme e sua gesticulação segura arrancaram aplausos frenéticos. Eu estava lá e vi. Até hoje me lembro das suas ásperas palavras:

 

-  Não se pergunta a uma mulher grávida se ela é virgem...

 

Depois disso, muitos anos se passaram até chegarmos ao terceiro episódio que desejo rememorar. Em 2010, no último ano do segundo mandato de Lula na Presidência da República, Elquisson já era um septuagenário. Aparentemente, um homem mais tranquilo. Quanto a mim, já atuava como juiz de direito em Vitória da Conquista. Foi nesse ano que mostrei para ele as ofensas que lhe eram dirigidas pelo ex-ministro da fazenda Maílson da Nóbrega, em livro publicado naquele ano, intitulado “Além do Feijão com Arroz”, no qual o tecnocrata tentava explicar suas ideias danosas ao imprescindível Banco do Brasil. Na página 310 do livro, o ex-ministro do Governo Sarney escrevia:

 

“Fui convocado para explicar as propostas na Câmara dos Deputados (…) O deputado Elquisson Soares, do PMDB da Bahia e autor do convite, fez um discurso inflamado contra o projeto. Ao final, sentenciou: Vossa Senhoria é o inimigo público número um do Banco do Brasil. Ninguém se levantou em defesa do nosso trabalho. Não consegui reagir à altura aos ataques pessoais do deputado Elquisson, para me contrapor à demagogia de um parlamentar que olhava os votos que podia conquistar”.

 

Elquisson, na oportunidade em que lhe mostrei esse livro, com revigorada contundência explicou sua atuação em defesa do Banco do Brasil e das empresas estatais estratégicas, reafirmando suas antigas e enraizadas posições nacionalistas. Na luta por elas não somente fizera aguerridos discursos, como também obtivera deferimento em várias medidas judiciais de grande relevância. Além, é claro, de receber os insultos e impropérios de sempre por parte dos entreguistas de variados matizes.

Desses três episódios acima rememorados, ocorridos em momentos distintos da evolução política do Brasil, ficaram algumas impressões resultantes da convivência de tantos anos com Elquisson. Delas, certamente, resultaram algumas importantes lições.

A mais imediata, obviamente, é a importância da conscientização política para todos nós. Muitas decisões que afetam quase todos os aspectos da nossa vida são tomadas nesse âmbito. Não é mero lugar-comum dizer que quem tem nojo da Política é governado por quem não tem. Todavia, se por um lado o desinteresse das pessoas interessa e favorece aos mal-intencionados, por outro lado as grandes transformações exigem esforço de mobilização de muita amplitude e de singular intensidade. Além disso, exige fundamental cuidado a percepção de que a realidade local não se encontra isolada, mas sim intimamente interligada com dimensões mais amplas da existência coletiva, em horizonte de caráter nacional e até internacional.

Porém, em nível mais profundo, que talvez escape ao olhar do observador menos atento, vislumbro também uma dimensão pedagógica na trajetória de Elquisson, considerando o lugar de onde saiu, aquilo em que se tornou e os espaços que ocupou. Isso porque todo ser humano nasce com infinitas possibilidades. Mas vem ao mundo desprovido das necessárias habilidades para efetivá-las. As diversas competências exigidas pela vida ele terá de adquirir. Nesse sentido, o itinerário existencial de Elquisson contou com uma Pedagogia, tanto em termos de educação formal, como também de ampliação das percepções sociais. A participação política, em especial, exigiu dele uma leitura da realidade que trouxe ao percurso de sua vida e ao seu espaço vital, familiar e comunitário, uma dimensão que, na ausência de expressão melhor para definir, eu arriscaria chamar de influência civilizatória. Em outras palavras, ousaria dizer que o movimento de sua vida foi sempre admiravelmente libertador.

Esboçando uma avaliação de tudo que foi dito aqui, à luz dos aspectos pontuados e tendo em vista os talentos singulares da pessoa considerada, reconheço razão em quem disse que vai demorar uns cem anos para surgir em Anagé outro indivíduo tão altivo e desassombrado como o cidadão Elquisson Dias Soares.