16 março 2026

UM QUARTO DO SÉCULO XXI

 




UM QUARTO DO SÉCULO XXI

 

Reno Viana

 

1 – Reflexões sobre o tempo que vivemos


Escrevo estas linhas nas primeiras semanas do ano de 2026, em minha cidade de trabalho e de vida, Vitória da Conquista, no Sertão da Bahia. Do lado de fora, o verão do interior baiano alterna sol forte e chuvas vigorosas, enquanto a cidade segue seu ritmo cotidiano entre avenidas movimentadas e o burburinho de uma sociedade que está a se transformar.

Dentro deste espaço mais silencioso, encontro-me em meu quarto de trabalho, diante do brilho azulado do notebook que se tornou meu principal instrumento de reflexão e escrita. Sou, por profissão, magistrado, habituado a lidar diariamente com conflitos humanos concretos que chegam aos tribunais. Considero-me também, modestamente, um escritor, alguém que procura compreender a realidade por meio das palavras. É nesse ponto de encontro entre o ofício da justiça e o exercício da reflexão que este texto começa a tomar forma.

O espaço em que escrevo é pequeno e de contornos bastante definidos. Uma mesa de trabalho, algumas estantes carregadas de livros acumulados ao longo de décadas, papéis que registram estudos, anotações e projetos, além da presença silenciosa dos aparelhos que hoje sustentam o cotidiano de quem escreve no século XXI. Ainda assim, percebo com certo espanto que este aposento abriga algo muito maior do que sua metragem permitiria imaginar. Entre esta tela iluminada e as prateleiras que guardam meus livros, coube exatamente um quarto de século de história.

O mundo mudou de maneira profunda desde a virada do milênio. Boa parte dessas transformações atravessou também este espaço modesto onde agora estou sentado.

Quando observo o cursor que pisca no monitor, tenho a impressão de contemplar uma espécie de ampulheta invisível. A areia desse relógio simbólico começou a escoar no instante em que o calendário passou de 1999 para 2000, momento que muitos de nós recordamos com uma mistura de expectativa e inquietação. Naquele tempo, falava-se do temido “bug do milênio”, imaginando que sistemas digitais poderiam colapsar e paralisar o funcionamento de bancos, aeroportos e redes de energia. Nada disso ocorreu da forma dramática que se temia. No entanto, olhando em retrospecto, é possível perceber que aquela passagem de século realmente inaugurou um período de mudanças profundas. Desde então, revoluções tecnológicas, crises econômicas, guerras, pandemias e transformações culturais redesenharam o cenário do mundo contemporâneo.

Enquanto tudo isso acontecia lá fora, nas grandes capitais do planeta, nos centros de decisão política, nas bolsas financeiras e nas ruas agitadas das metrópoles, eu acompanhava essas transformações a partir de lugares concretos da vida brasileira. Salas de audiência, gabinetes forenses, bibliotecas e, sobretudo, neste quarto onde agora escrevo. Muitas vezes, depois de um dia inteiro dedicado ao exercício da magistratura, voltava para este mesmo espaço para tentar compreender, estudar e traduzir em palavras aquilo que estava acontecendo no país e no mundo. Assim, entre decisões judiciais, leituras noturnas e páginas escritas lentamente, este quarto tornou-se também um observatório da história recente.

É por isso que, ao olhar hoje para este ambiente aparentemente simples, percebo que ele guarda algo mais do que móveis e livros. Ele contém vestígios de um tempo histórico inteiro. Entre estas paredes atravessaram-se debates sobre democracia, direitos humanos, crises políticas, transformações sociais e revoluções tecnológicas que redefiniram a própria experiência humana. Ao longo desses vinte e cinco anos, de 2000 até este início de 2026, o mundo mudou de pele várias vezes. E eu, aqui dentro, procurei acompanhar esse processo, tentando compreender, registrar e narrar, com a paciência possível, os vertiginosos acontecimentos do primeiro quarto do século XXI.

O trocadilho entre o meu quarto físico e esse “quarto de século” não me parece apenas uma coincidência linguística. Ele revela uma ponte inesperada entre o indivíduo e a história. Do ponto de vista estritamente cronológico, o fechamento do ano de 2025 marca a conclusão da primeira das quatro frações iguais que compõem a centúria. Estar situado no ano de 2026 significa, portanto, atravessar a fronteira matemática dos primeiros vinte e cinco anos do século XXI. Esse período deixou de ser promessa e tornou-se matéria histórica consolidada. O que antes era chamado de “futuro” transformou-se, agora, no primeiro bloco completo de experiência histórica deste novo milênio. São vinte e cinco anos de dados, eventos, rupturas e transformações que nos permitem medir, com certa clareza, a velocidade com que a humanidade se transformou desde o início do século.

Lembro-me de que naquela virada do milênio o mundo parecia suspenso entre a euforia tecnológica e o medo de um colapso digital. Nada de dramático aconteceu naquela noite e muitos imaginaram que o novo século se abriria sob o signo de um progresso contínuo, alimentado pela expansão da internet e pela promessa de uma aldeia global hiperconectada. Eu mesmo ainda me familiarizava com os primeiros e-mails, aprendendo a lidar com as ferramentas digitais que começavam a reorganizar o cotidiano.

Esse otimismo, no entanto, durou pouco. Enquanto eu ajustava as configurações de um sistema operacional recém-instalado e explorava as primeiras páginas da internet com a curiosidade de quem descobre um novo continente, o estrondo das Torres Gêmeas em 2001 estilhaçou a vidraça daquela utopia.

O século XXI não pediu licença para começar. Ele entrou de maneira abrupta, substituindo a promessa de uma globalização pacífica pela realidade brutal da chamada “Guerra ao Terror”. A segurança passou a dominar os debates políticos e a vigilância tornou-se um elemento central da vida contemporânea. Aquele mundo que parecia caminhar rumo à cooperação tecnológica revelou, de repente, a persistência de velhas tensões.

Dizem que a maturidade nos oferece o privilégio da perspectiva. Talvez seja verdade. Olho para o meu quarto de trabalho hoje e percebo algo que antes me escapava, os vestígios materiais dessa transformação histórica. No fundo de uma gaveta ainda repousam alguns disquetes guardados desde o início dos anos 2000, lembranças de uma época em que aquelas pequenas peças de plástico representavam o ápice da tecnologia doméstica. Sobre a mesa, entretanto, repousa um notebook capaz de processar em segundos volumes de informação que aquela década inteira mal poderia imaginar. Essa coexistência de objetos antigos e dispositivos atuais funciona quase como uma pequena escavação arqueológica do tempo recente.

Percebo, então, que habito literalmente um quarto de século. Foram vinte e cinco anos em que o mundo acumulou promessas, dados e ansiedades. Começamos essa travessia temendo que um erro de programação pudesse paralisar as máquinas, sem perceber que o verdadeiro choque viria da velocidade com que a realidade analógica se tornaria obsoleta diante de nossos olhos. Aos poucos deixamos de acumular objetos físicos, discos, CDs, livros, pilhas de jornais, para acumular algo muito mais abstrato: dados, arquivos digitais e fluxos incessantes de informação.

O atentado de 11 de setembro de 2001 foi talvez o primeiro grande trauma coletivo consumido em tempo real pela humanidade hiperconectada. As imagens das torres em colapso repetiam-se continuamente nas telas, inaugurando um novo regime de experiência histórica, no qual os acontecimentos se transformam instantaneamente em espetáculo global.

A partir daquele momento, a sensação de estabilidade cedeu lugar à percepção de que o mundo entrava em um período de turbulência permanente. O excesso de informação não trouxe necessariamente clareza. Ao contrário, passou a conviver com novas formas de vigilância, insegurança e ansiedade coletiva.

Há, por isso, um silêncio peculiar neste meu quarto de trabalho. Não se trata da ausência de sons, mas do acúmulo de tempos sobrepostos. Olhando para o cursor que pisca na tela, sinto-me habitando uma espécie de ampulheta existencial. Cada grão de areia que desce representa um fragmento desse quarto de século que agora se completa. O que começou com a esperança de uma democracia global conectada rapidamente revelou a complexidade de um mundo marcado por crises financeiras, conflitos geopolíticos e transformações tecnológicas incessantes.

Com o passar dos anos, o silêncio reflexivo deste espaço foi sendo invadido por um ruído crescente. Primeiro vieram os noticiários em fluxo contínuo. Depois, as notificações constantes das redes sociais. Aquilo que antes era um refúgio para a leitura e a reflexão tornou-se atravessado por uma avalanche de mensagens, imagens e opiniões. O meu quarto, que outrora funcionava como um pequeno observatório silencioso da realidade, passou a conviver com o tumulto informacional de um planeta permanentemente conectado.

Entramos, assim, na chamada era da pós-verdade. Nesse ambiente saturado de dados, a autoridade da reflexão intelectual passou a disputar espaço com a lógica dos algoritmos e com a fragmentação das bolhas digitais. A realidade, que antes parecia um terreno comum de discussão, tornou-se frequentemente uma construção disputada por narrativas ideológicas concorrentes. O cursor que pisca na tela do meu notebook parece, muitas vezes, lutar contra essa enxurrada de ruído e desinformação.

Talvez seja justamente por isso que sinto a necessidade de organizar essa experiência. Este quarto em que trabalho, aparentemente modesto, transformou-se ao longo dos anos em uma espécie de posto de observação do nosso tempo. Entre estas paredes acumulam-se não apenas livros e arquivos digitais, mas também as memórias de um mundo que mudou de maneira vertiginosa entre 2000 e 2025. Narrar esse quarto de século tornou-se, para mim, uma tarefa de arrumação da memória, uma tentativa de compreender como chegamos até aqui e de que maneira essa história recente continua a moldar o futuro que ainda está por vir.


2 - Retrato de um século em formação

 

Ao procurar compreender os principais acontecimentos do mundo nas primeiras décadas do século XXI, deparamo-nos com uma tarefa ao mesmo tempo necessária e desafiadora. Trata-se de analisar um período histórico que ainda está em pleno curso, marcado por mudanças civilizatórias acentuadas. Vivemos a transição de um mundo que, até o final do século XX, ainda guardava fortes características analógicas e estava estruturado em torno de algumas potências tradicionais, para uma realidade inteiramente nova, definida pela hiperconectividade digital, pela presença crescente da inteligência artificial e pela emergência cada vez mais visível da crise climática. Nesse cenário, os acontecimentos históricos, econômicos e sociológicos das últimas décadas revelam um tempo de grandes mudanças, no qual antigas estruturas se transformam e novos desafios surgem diante da humanidade.

No plano histórico e geopolítico, o início do século XXI foi profundamente marcado pelos atentados de 11 de setembro de 2001, quando a destruição das Torres Gêmeas, em Nova York, provocou uma redefinição completa das políticas de segurança internacional. A partir daquele momento teve início o que ficou conhecido como “Guerra ao Terror”, com as invasões do Afeganistão, em 2001, e do Iraque, em 2003. Alguns anos depois, entre 2010 e 2012, uma nova onda de acontecimentos chamou a atenção do mundo, a chamada Primavera Árabe, conjunto de protestos populares que atravessou diversos países do Oriente Médio e do Norte da África, derrubando governos autoritários e desencadeando, em certos casos, conflitos prolongados, como a guerra civil na Síria. Nesse mesmo período, assistiu-se também à consolidação da China como grande potência econômica e política global, fenômeno que passou a desafiar a hegemonia tradicional exercida pelos Estados Unidos. Outros acontecimentos relevantes reforçaram a percepção de um mundo cada vez mais instável, como a saída do Reino Unido da União Europeia (o chamado Brexit) e, mais recentemente, a entrada da Rússia na Ucrânia em 2022, conflito que recolocou a guerra entre Estados no centro da política internacional europeia.

No campo econômico, as primeiras décadas do século XXI também foram marcadas por intensas oscilações e pela rápida transformação dos mercados. A crise financeira internacional de 2008, provocada pelo colapso do mercado imobiliário norte-americano, espalhou-se pelo sistema financeiro global e produziu a mais grave recessão desde a crise de 1929. Ao mesmo tempo, novas tecnologias começaram a modificar profundamente a organização da economia. O surgimento das criptomoedas, com o lançamento do Bitcoin em 2009, introduziu a tecnologia blockchain e passou a questionar o papel tradicional dos bancos centrais e dos sistemas monetários nacionais.

Paralelamente, consolidou-se aquilo que se convencionou chamar de economia do compartilhamento, com o aparecimento de plataformas digitais que redefiniram a relação entre propriedade e consumo, como ocorreu com empresas de transporte e hospedagem mediadas por aplicativos.  

Um dos sinais mais visíveis dessa transformação foi o surgimento de plataformas digitais de intermediação de serviços, como o Uber, no setor de transporte urbano, o iFood, no setor de entregas e alimentação, e o Airbnb, no campo da hospedagem e do aluguel temporário de imóveis. Essas plataformas passaram a reorganizar profundamente diversos setores da economia e do mercado de trabalho, criando novas formas de prestação de serviços baseadas na lógica das plataformas digitais e na conexão direta entre usuários por meio de aplicativos. Ao mesmo tempo em que ampliaram o acesso a serviços e oportunidades de renda, também suscitaram intensos debates sobre precarização do trabalho, proteção social e direitos trabalhistas no contexto da economia digital, além de levantarem discussões sobre regulação urbana, concorrência com setores tradicionais e os limites da chamada economia de plataformas.

Nesse cenário de transformações, intensificaram-se também as disputas econômicas entre as grandes potências, especialmente na chamada guerra comercial entre Estados Unidos e China, centrada na disputa por tecnologias estratégicas como as redes de comunicação 5G e a produção de semicondutores. A pandemia de COVID-19, iniciada em 2020, agravou ainda mais esse quadro, interrompendo cadeias globais de produção e provocando efeitos econômicos que se prolongaram por vários anos.

No plano sociológico e cultural, as mudanças ocorridas neste início de século talvez tenham sido ainda mais profundas. A expansão das redes sociais digitais transformou radicalmente as formas de comunicação, de sociabilidade e até mesmo de organização política das sociedades contemporâneas. Plataformas como Facebook, Twitter e Instagram alteraram a maneira como as pessoas recebem informações, participam do debate público e constroem sua percepção da realidade, fenômeno que muitos analistas passaram a identificar como a chamada era da pós-verdade. Ao mesmo tempo, o surgimento do smartphone, especialmente após o lançamento do iPhone em 2007, colocou a internet permanentemente no bolso de milhões de pessoas, criando uma conexão praticamente contínua entre os indivíduos e o mundo digital. Nesse ambiente surgiram também novos movimentos sociais de alcance global, como as mobilizações contra o racismo, o movimento #MeToo e as campanhas ambientais protagonizadas por jovens ativistas.

A pandemia de COVID-19, por sua vez, produziu uma transformação brusca nos hábitos sociais, institucionalizando práticas como o trabalho remoto e evidenciando desigualdades estruturais, especialmente no campo da educação.

Mais recentemente, a rápida difusão das tecnologias de inteligência artificial generativa inaugurou um novo debate sobre o futuro do trabalho, da criatividade e da própria produção cultural humana.

Por fim, atravessando todos esses processos históricos, econômicos e sociais, impõe-se cada vez mais um desafio comum à humanidade, a crise climática. Ao longo das últimas décadas, tornou-se evidente que as alterações provocadas pela atividade humana no equilíbrio ambiental do planeta passaram a produzir consequências concretas e cada vez mais visíveis. O Acordo de Paris, firmado em 2015, representou a primeira tentativa global de estabelecer compromissos internacionais para limitar o aquecimento da Terra. Entretanto, os anos seguintes foram marcados pelo aumento de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas e enchentes devastadoras, fenômenos que passaram a afetar diretamente a vida cotidiana de diversas populações. Assim, a questão ambiental deixou de ser apenas um tema científico ou acadêmico e passou a ocupar o centro das decisões políticas, econômicas e sociais do nosso tempo, constituindo-se talvez no maior desafio civilizatório do século XXI.

 

3 - Do otimismo digital às crises globais


Para compreender plenamente o impacto dessas transformações, é útil situá-las dentro de um panorama cronológico mais amplo dos acontecimentos que marcaram as primeiras décadas do século XXI. 

Ao observar em perspectiva os acontecimentos que marcaram esse período, é possível organizar essa história recente em uma espécie de mapa cronológico, no qual se destacam alguns fatos que, em cada momento, simbolizam mudanças de paradigma. Entre os anos 2000 e 2025, o mundo atravessou transformações intensas nos campos político, econômico, tecnológico e cultural. Esses acontecimentos, quando vistos em sequência, revelam um período de aceleração histórica no qual antigas estruturas foram colocadas em questão e novas formas de organização social passaram a emergir. O cronograma desses eventos permite compreender como a humanidade transitou de um mundo ainda marcado pelas expectativas tecnológicas do final do século XX para uma realidade caracterizada por crises globais, hiperconectividade digital e novas disputas geopolíticas.

A primeira década do século XXI, compreendida entre 2000 e 2009, pode ser descrita como um período de choque e conectividade. O século iniciou-se sob o impacto do estouro da chamada bolha das empresas “ponto com”, fenômeno que revelou os limites das expectativas exageradas em torno da economia digital nascente. Ao mesmo tempo, dissiparam-se os temores que cercavam o chamado “bug do milênio”, que havia alimentado preocupações globais sobre possíveis falhas nos sistemas informáticos na virada do século. Contudo, o acontecimento que marcaria definitivamente o início dessa nova era foi o atentado de 11 de setembro de 2001, quando ataques terroristas contra as Torres Gêmeas, em Nova York, redefiniram as políticas de segurança internacional e inauguraram o período conhecido como “Guerra ao Terror”. Pouco tempo depois, em 2003, os Estados Unidos lideraram a invasão do Iraque sob a alegação da existência de armas de destruição em massa, fato que provocou profundas controvérsias no cenário internacional.

Enquanto esses acontecimentos transformavam a geopolítica mundial, novas tecnologias começavam a redefinir as formas de comunicação e interação social. Em 2004 foi criada a plataforma Facebook, que se tornaria um dos principais marcos da expansão das redes sociais digitais. Nesse mesmo ano, um devastador tsunami atingiu diversos países do Oceano Índico, lembrando dramaticamente a vulnerabilidade humana diante de grandes catástrofes naturais. No ano seguinte surgiu o YouTube, ampliando radicalmente a circulação de imagens e conteúdos audiovisuais na internet. Ainda na mesma década, o furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans em 2005, expôs profundas desigualdades sociais existentes na sociedade norte-americana. Em 2007 ocorreu outro marco decisivo, o lançamento do iPhone, que consolidou o smartphone como um instrumento central da vida contemporânea e inaugurou a era da conectividade permanente. A crise financeira de 2008, desencadeada pela quebra do banco Lehman Brothers, espalhou-se rapidamente pelos mercados globais e deu início à maior recessão internacional desde 1929. No ano seguinte, surgiram duas novidades que simbolizam os novos tempos, a criação do Bitcoin, primeira grande criptomoeda baseada em tecnologia blockchain, e a pandemia de gripe H1N1, que já indicava a crescente vulnerabilidade do mundo globalizado diante de crises sanitárias.

A segunda década do século XXI, que vai de 2010 a 2019, pode ser compreendida como um período marcado por revoltas sociais, transformações políticas e pela crescente influência das redes digitais na vida pública. Em 2010 teve início a chamada Primavera Árabe, uma série de mobilizações populares que atravessou diversos países do Oriente Médio e do Norte da África, derrubando governos autoritários e demonstrando o papel decisivo das redes sociais na organização de protestos políticos. No ano seguinte, a morte de Osama bin Laden encerrou simbolicamente um capítulo da luta internacional contra o terrorismo, ao mesmo tempo em que o mundo assistia ao desastre nuclear de Fukushima, no Japão, provocado por um terremoto e um tsunami devastadores.

Em 2012, pesquisadores do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) anunciaram a confirmação experimental da existência do “bóson de Higgs”, uma partícula subatômica cuja existência havia sido prevista teoricamente quase cinquenta anos antes por outros cientistas. Essa confirmação ocorreu após experimentos realizados no maior acelerador de partículas já construído, localizado na fronteira entre a Suíça e a França. A descoberta do “bóson de Higgs” ajudou a responder perguntas essenciais da Física. Por isso, ela foi frequentemente apresentada na imprensa como a descoberta da chamada “partícula de Deus”.

Outros acontecimentos reforçaram a percepção de que a tecnologia digital passava a exercer influência direta sobre a política global. Em 2013, as revelações de Edward Snowden trouxeram à luz um vasto sistema de vigilância eletrônica conduzido pela Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, provocando debates internacionais sobre privacidade e segurança. No ano seguinte, a anexação da Crimeia pela Rússia reacendeu tensões geopolíticas na Europa, enquanto a África Ocidental enfrentava um grave surto de Ebola. Em 2015 foi firmado o Acordo de Paris, primeiro grande pacto internacional voltado ao enfrentamento das mudanças climáticas. Pouco tempo depois, em 2016, dois acontecimentos evidenciaram a ascensão de novas formas de populismo político, o referendo que aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia (conhecido como Brexit) e a primeira eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Nesse ambiente marcado por polarização e disputas narrativas, consolidou-se a expressão “pós-verdade” para descrever um tempo em que emoções e crenças pessoais muitas vezes passaram a ter mais influência no debate público do que fatos verificáveis. Em 2018, teve início a chamada guerra comercial entre Estados Unidos e China, evidenciando a disputa global por liderança tecnológica e econômica.

Já em 2019 surgiram os primeiros casos de uma nova doença respiratória na cidade chinesa de Wuhan, prenunciando a crise sanitária que marcaria o início da década seguinte, ao mesmo tempo em que incêndios florestais de grandes proporções atingiam regiões como a Amazônia e a Austrália.

A terceira década do século XXI iniciou-se sob o signo de profundas rupturas. A pandemia de COVID-19, declarada em 2020, provocou lockdowns generalizados, interrompeu cadeias globais de produção e acelerou a digitalização do trabalho e da educação. Em poucos meses, práticas como o trabalho remoto e as reuniões virtuais tornaram-se parte do cotidiano de milhões de pessoas.

No ano seguinte, o mundo assistiu com surpresa à invasão do Capitólio, em Washington, episódio que simbolizou as tensões políticas internas nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, avançava a vacinação em massa contra o coronavírus, enquanto em diversos países surgia o fenômeno conhecido como “Grande Renúncia” (Big Quit), caracterizado por uma ampla reavaliação das relações entre trabalho, qualidade de vida e expectativas profissionais.

Em 2022, um novo conflito de grandes proporções voltou a abalar a ordem internacional, a entrada da Rússia na Ucrânia. Esse acontecimento recolocou a guerra entre Estados no centro da política europeia, provocando uma crise energética e reacendendo memórias da antiga Guerra Fria.

Nesse mesmo período, o avanço das tecnologias de inteligência artificial ganhou enorme visibilidade com o lançamento de sistemas capazes de gerar textos, imagens e outros conteúdos complexos, inaugurando um novo debate sobre o futuro do trabalho e da criatividade humana.

Em 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou o fim da emergência global provocada pela COVID-19, embora as consequências sociais e econômicas da pandemia continuassem a ser sentidas.

Ao mesmo tempo, o conflito entre Israel e o Hamas reacendeu de forma gravíssima as tensões no Oriente Médio.

Os anos seguintes indicam que o mundo continua a atravessar um período de rápida transformação. Em 2024 ocorreu número recorde de eleições em diversos países, demonstrando a vitalidade, mas também as tensões, das democracias contemporâneas. Nesse mesmo período, tecnologias de inteligência artificial começaram a substituir ou transformar diversas funções administrativas e profissionais. Já em 2025, consolidaram-se projetos de moedas digitais emitidas por bancos centrais e registraram-se avanços importantes nas pesquisas sobre fusão nuclear comercial, sinalizando que as transformações tecnológicas continuam a redefinir, em ritmo acelerado, os horizontes econômicos e sociais da humanidade.

 

4 - Alvorecer da era multipolar

 

Entre todos esses acontecimentos, um processo estrutural se tornava cada vez mais evidente, que era a lenta transformação da ordem internacional.

A história social do século XXI tem sido marcada por reconfigurações acentuadas na estrutura do poder mundial. Após o fim da Guerra Fria, consolidou-se inicialmente uma ordem internacional caracterizada pela predominância dos Estados Unidos, que durante algum tempo pareceram exercer uma posição unipolar no cenário global. Com o passar das décadas, contudo, essa configuração começou gradualmente a se modificar. A dinâmica econômica internacional, associada às crises recorrentes do capitalismo contemporâneo, passou a revelar sinais de desgaste estrutural do modelo dominante, abrindo espaço para o surgimento de novas forças e para a formação de um sistema internacional mais complexo e plural. Nesse contexto, muitos analistas passaram a interpretar o início do século XXI como um período de transição entre a hegemonia unipolar do pós-Guerra Fria e uma ordem internacional de caráter progressivamente multipolar.

Parte importante desse processo tem sido associada às transformações internas do próprio capitalismo global. Diversos estudos apontam que, nas últimas décadas, o sistema econômico passou a privilegiar cada vez mais a lógica do capital financeiro e do rentismo, em detrimento da produção material e do investimento produtivo de longo prazo. Essa predominância das finanças sobre a economia real teria contribuído para o aumento significativo das desigualdades sociais em diversas regiões do mundo, ao mesmo tempo em que produziu ciclos recorrentes de instabilidade econômica, como se observou de maneira particularmente evidente na crise financeira internacional de 2008. Em muitos países, essas transformações foram acompanhadas por reformas institucionais associadas ao paradigma neoliberal, caracterizadas pela redução do papel do Estado na economia, pela flexibilização de direitos sociais e pela ampliação da centralidade dos mercados financeiros na organização das políticas públicas.

Paralelamente a esse movimento, um dos fenômenos mais significativos da história recente tem sido a ascensão da China como potência econômica, tecnológica e política de alcance global. Após décadas de reformas iniciadas no final dos anos 1970, o país experimentou um crescimento econômico extraordinário, que o levou a ocupar posições de destaque na economia mundial. De acordo com diversos indicadores, a China tornou-se uma das maiores economias do planeta, destacando-se também em áreas estratégicas como infraestrutura, tecnologia digital, telecomunicações e inteligência artificial. Um dos aspectos frequentemente ressaltados nesse processo é o amplo programa de redução da pobreza implementado no país, responsável por retirar centenas de milhões de pessoas de condições extremas de privação ao longo de algumas décadas, fato que passou a ser interpretado por muitos observadores como um dos maiores processos de transformação social já registrados na história contemporânea.

Esse novo protagonismo chinês também se reflete na esfera geopolítica. Nas últimas décadas, ampliaram-se as iniciativas de cooperação econômica e política entre países emergentes, especialmente no âmbito de organismos multilaterais e de articulações regionais. Entre esses esforços destaca-se a atuação de fóruns como o BRICS, que reúne economias de grande dimensão territorial e populacional, buscando fortalecer mecanismos de cooperação entre países do chamado Sul Global. Em paralelo, observa-se também o aprofundamento das relações estratégicas entre China e Rússia em diversos campos, incluindo energia, comércio e coordenação diplomática em organismos internacionais. Esses movimentos têm sido interpretados por alguns analistas como sinais de um processo gradual de reorganização das forças no sistema internacional.

Diante dessas transformações, os Estados Unidos passaram a redefinir parte significativa de sua estratégia geopolítica nas últimas décadas. O crescimento econômico e tecnológico da China passou a ser frequentemente percebido pelas lideranças norte-americanas como um desafio direto à posição que o país ocupou no sistema internacional após o fim da Guerra Fria. Como consequência, intensificaram-se disputas comerciais, tecnológicas e diplomáticas entre as duas maiores economias do mundo, manifestadas em conflitos tarifários, disputas por cadeias globais de produção e debates sobre controle de tecnologias estratégicas.

No plano ideológico e social, esse cenário internacional continua marcado por profundas contradições. Apesar das mudanças observadas na distribuição do poder global, o capitalismo permanece como sistema econômico predominante na maior parte do mundo, exercendo forte influência sobre instituições políticas, mercados e sistemas culturais. Ao mesmo tempo, a progressiva multipolarização das relações internacionais tem aberto novas possibilidades de cooperação entre países periféricos ou semiperiféricos, permitindo a diversificação de parcerias econômicas e a construção de estratégias de desenvolvimento menos dependentes dos centros tradicionais de poder. Nesse contexto, ampliam-se as oportunidades para iniciativas de cooperação Sul-Sul, que procuram fortalecer intercâmbios econômicos, tecnológicos e políticos entre países em desenvolvimento, contribuindo para redesenhar, ainda que gradualmente, o mapa das relações internacionais no século XXI.

 

5 - Poder invisível das plataformas digitais

 

Mas as disputas de poder no século XXI não ocorrem apenas entre Estados. Elas também se desenvolvem no interior do espaço digital, onde novas formas de poder econômico e informacional emergiram.

A história social do século XXI não pode ser compreendida sem considerar o extraordinário poder alcançado pelas grandes empresas de tecnologia que passaram a dominar o espaço digital global. Nas primeiras décadas deste século, consolidou-se aquilo que passou a ser conhecido como “Big Tech”, expressão utilizada para designar as corporações tecnológicas mais influentes do planeta. Entre elas destacam-se, sobretudo, cinco gigantes norte-americanas: Google, Apple, Facebook (atualmente denominada Meta), Amazon e Microsoft. Essas empresas tornaram-se protagonistas de uma nova arquitetura econômica baseada na informação, dominando setores estratégicos como inteligência artificial, computação em nuvem, publicidade digital, redes sociais, comércio eletrônico, software, streaming e desenvolvimento de dispositivos eletrônicos de consumo. Seu alcance global é de tal magnitude que bilhões de pessoas passaram a depender cotidianamente de seus serviços para trabalhar, comunicar-se, consumir informações e participar da vida pública.

Ao mesmo tempo, outras companhias surgiram desafiando parcialmente esse domínio, como Netflix, Airbnb, Tesla e Uber. Em determinados contextos, o conceito de Big Tech passou a englobar também empresas altamente valorizadas no mercado financeiro ou companhias de setores distintos que adotam estratégias intensivas em tecnologia. Fenômeno semelhante pode ser observado na China, onde grandes conglomerados digitais (Baidu, Alibaba, Tencent e Xiaomi) desempenham papel comparável na estrutura econômica e tecnológica daquele país.

A expressão Big Tech começou a ganhar destaque no debate público por volta de 2013, quando economistas e analistas passaram a observar sinais claros de concentração de poder no mercado digital. Entretanto, a popularização definitiva do termo ocorreu alguns anos depois, especialmente a partir de 2017, quando investigações sobre a interferência russa nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016 colocaram essas empresas sob intenso escrutínio político. Pela primeira vez tornou-se evidente, para amplos setores da sociedade, o alcance do chamado Big Data, isto é, o gigantesco volume de informações pessoais coletadas e processadas por essas plataformas. A partir daquele momento, intensificaram-se debates sobre privacidade, manipulação informacional e o poder das empresas tecnológicas de influenciar comportamentos individuais e coletivos.

O poder estrutural dessas corporações é difícil de exagerar. Atendendo bilhões de usuários em todo o planeta, as Big Techs passaram a controlar fluxos massivos de dados, transformando informação em um dos ativos econômicos mais valiosos do século XXI. Diversos críticos passaram a caracterizar esse novo modelo econômico como capitalismo de vigilância, expressão que busca descrever um sistema no qual as interações cotidianas das pessoas, pesquisas na internet, mensagens, deslocamentos e preferências de consumo são continuamente monitoradas, analisadas e convertidas em mercadoria.  

Em alguns setores, esse domínio assume contornos particularmente claros. O Google, por exemplo, controla diversas das principais infraestruturas da internet contemporânea, incluindo mecanismos de busca, o sistema operacional Android presente em bilhões de smartphones, a plataforma de vídeos YouTube, o navegador Chrome e serviços de mapas amplamente utilizados. O Facebook consolidou sua posição dominante ao adquirir o Instagram em 2012 e o WhatsApp em 2014, ampliando enormemente seu alcance no campo das redes sociais e da comunicação digital. A Amazon, por sua vez, transformou-se em uma potência no comércio eletrônico global, exercendo enorme influência sobre a cadeia de produção e distribuição de bens culturais, incluindo o mercado de livros digitais, no qual detém participação majoritária.

As controvérsias em torno das Big Techs atravessam praticamente todo o espectro político. Setores progressistas costumam enfatizar a concentração de riqueza e o poder excessivo dessas empresas, enquanto setores conservadores frequentemente acusam as plataformas digitais de promover censura ou favorecer determinadas orientações ideológicas. O debate sobre a moderação de conteúdo tornou-se especialmente intenso nos últimos anos. Para alguns críticos, as plataformas não têm sido suficientemente eficazes no combate à desinformação e ao extremismo online. Para outros, medidas de remoção de conteúdo representam ameaças à liberdade de expressão.

Para além das disputas políticas e econômicas, o domínio das Big Techs produziu mutações na própria forma como a informação circula na sociedade contemporânea. Durante grande parte do século XX, a organização do conhecimento era mediada por instituições editoriais relativamente estáveis (jornais, revistas, editoras e bibliotecas) que funcionavam como filtros culturais. Com a ascensão das plataformas digitais, essa função passou a ser desempenhada por algoritmos, sistemas automatizados que selecionam conteúdos com base em cálculos probabilísticos destinados a maximizar engajamento e tempo de permanência nas plataformas.

Esse ambiente favoreceu a formação das chamadas câmaras de eco, espaços digitais nos quais indivíduos passam a receber predominantemente informações que confirmam suas próprias crenças e preferências. Nesse contexto, a base comum de fatos compartilhados, tradicionalmente considerada essencial para o funcionamento da democracia, tende a fragmentar-se. A chamada era da pós-verdade emerge precisamente nesse cenário, em que narrativas emocionalmente convincentes podem adquirir mais força do que informações verificadas.

Independentemente da posição adotada nesse debate, uma conclusão parece inevitável. O poder acumulado pelas Big Techs transformou profundamente a estrutura da comunicação, da economia e da vida social no século XXI. Nunca antes na história humana um pequeno grupo de empresas privadas concentrou tamanho controle sobre os fluxos globais de informação. Compreender o funcionamento dessas estruturas tornou-se, portanto, uma tarefa indispensável para quem deseja interpretar o mundo contemporâneo e refletir sobre os desafios que se colocam para a democracia, para a liberdade e para a própria experiência humana na era digital.

 

6 - Um mundo em disputa


Ao longo das primeiras décadas do século XXI, a geopolítica internacional passou a ser marcada por conflitos que revelam não apenas disputas territoriais ou estratégicas, mas também profundas rupturas éticas e civilizatórias. Entre os episódios mais dramáticos desse período destacam-se os confrontos recentes na região de Gaza e de Israel, bem como a guerra entre Rússia e Ucrânia. Esses conflitos expõem os limites das instituições internacionais, a fragilidade das tentativas de construção de uma ordem mundial baseada em regras comuns e, sobretudo, a persistência da violência como instrumento de resolução de disputas políticas no mundo contemporâneo. 

No caso do conflito entre Israel e o Hamas, o ponto de inflexão ocorreu em 7 de outubro de 2023, quando um ataque de grande escala realizado pelo grupo palestino rompeu a percepção de invulnerabilidade que durante décadas havia marcado o imaginário político e militar do Estado israelense. A reação de Israel foi imediata e de grande intensidade, desencadeando operações militares que produziram devastação significativa na Faixa de Gaza e provocaram um colapso humanitário de grandes proporções. Ao longo de 2023 e 2024, a comunidade internacional passou a acompanhar, muitas vezes em tempo real, a destruição de bairros inteiros, o deslocamento massivo de populações civis e a deterioração das condições básicas de sobrevivência naquele território. Nos anos seguintes, sucederam-se tentativas de cessar-fogo, frequentemente frágeis e instáveis, acompanhadas por novas restrições à circulação de ajuda humanitária. Do ponto de vista antropológico e simbólico, a Faixa de Gaza passou a ser descrita por muitos analistas como uma espécie de “prisão a céu aberto”, ao mesmo tempo em que esse conflito tornou-se uma das primeiras guerras de alta intensidade acompanhadas globalmente por meio de imagens transmitidas instantaneamente pelas redes digitais e analisadas por algoritmos e sistemas de inteligência artificial.

Outro conflito que marcou profundamente a geopolítica contemporânea foi a guerra entre Rússia e Ucrânia, cujas origens remontam ao ano de 2014, quando a Rússia anexou a península da Crimeia após a crise política que se seguiu às manifestações do movimento Euromaidan em Kiev. A partir desse momento iniciou-se também um confronto armado na região de Donbas, no leste da Ucrânia, envolvendo forças separatistas apoiadas por Moscou. No entanto, o conflito atingiu uma dimensão muito mais ampla em fevereiro de 2022, quando a Rússia lançou uma ocupação em larga escala do território ucraniano. A resistência liderada pelo presidente Volodymyr Zelensky transformou rapidamente o confronto em uma guerra prolongada de desgaste, marcada pelo uso intensivo de tecnologias militares contemporâneas, como drones de reconhecimento, satélites e sistemas avançados de vigilância.

Ao longo dos anos seguintes, a guerra produziu profundas consequências econômicas e geopolíticas, contribuindo para uma crise energética na Europa e para a elevação dos preços globais de alimentos e fertilizantes. Entre 2025 e 2026 consolidou-se um cenário frequentemente descrito como “conflito congelado”, no qual as linhas de frente permanecem relativamente estabilizadas, enquanto o apoio internacional à Ucrânia enfrenta sinais de fadiga política em diversos países ocidentais. Ao mesmo tempo, a Rússia passou a intensificar sua aproximação estratégica com países asiáticos, em especial com a China, em movimento articulado no contexto das lideranças de Vladimir Putin e Xi Jinping, redesenhando gradualmente os equilíbrios geopolíticos globais. Esse conflito também simboliza o fim definitivo da ilusão de que a expansão do comércio internacional e da globalização econômica seria suficiente para impedir guerras entre Estados.

Enquanto esses conflitos redefiniam o cenário internacional, a América Latina atravessava suas próprias transformações políticas, marcadas pela alternância e pela disputa entre diferentes projetos de sociedade. Nas primeiras décadas do século XXI, consolidou-se no continente aquilo que muitos analistas passaram a chamar de “ondas rosas”, expressão utilizada para descrever a ascensão de governos de esquerda ou de centro-esquerda em diversos países da região. A chamada primeira onda ocorreu aproximadamente entre 2000 e 2014, período em que lideranças como Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Néstor e Cristina Kirchner na Argentina e Hugo Chávez na Venezuela protagonizaram projetos políticos voltados para a ampliação de políticas sociais, a valorização do papel do Estado na economia e a busca por maior integração regional. Nesse contexto surgiram iniciativas como a criação da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), além da derrota da proposta de criação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), vista por muitos governos como um instrumento de predominância econômica dos Estados Unidos na região.

Após esse período inicial, entre aproximadamente 2015 e 2020, diversos países latino-americanos atravessaram um momento de forte tensão política e institucional. Nesse intervalo, setores ligados à esquerda passaram a denunciar o uso de estratégias judiciais e midiáticas para desestabilizar governos progressistas, fenômeno frequentemente descrito pelo termo “lawfare”. Ao mesmo tempo, ocorreram mudanças políticas significativas em vários países, incluindo crises institucionais, protestos sociais e alternâncias de poder, como as que se verificaram no Brasil, na Bolívia e no Chile.

Mais recentemente, a partir da década de 2020, alguns países da região voltaram a eleger governos identificados com pautas progressistas, como ocorreu com Gabriel Boric no Chile, Gustavo Petro na Colômbia e o retorno de Lula à presidência do Brasil. Esse novo ciclo tem sido associado a temas como a transição energética, políticas ambientais e debates sobre direitos civis e reprodutivos, ao mesmo tempo em que retoma a antiga ideia de uma “Pátria Grande” latino-americana, ou seja, um projeto de maior autonomia regional nas relações com as grandes potências globais.

Paralelamente a essas experiências políticas, também se consolidaram na América Latina correntes ideológicas de caráter liberal e conservador que criticam o papel ampliado do Estado defendido pelos governos progressistas. Desde os anos 2000, essas correntes encontraram apoio em setores que viam com preocupação o modelo político venezuelano e o crescimento de projetos inspirados no chamado bolivarianismo. Ao longo da década de 2010, essa vertente ganhou novo impulso com a formação de alianças econômicas voltadas para políticas de mercado, como a Aliança do Pacífico, além do fortalecimento de movimentos que apresentavam investigações anticorrupção, como a “Operação Lava Jato” no Brasil, como símbolos de combate a projetos de poder associados à esquerda. Nesse contexto ocorreram também vitórias eleitorais de lideranças identificadas com agendas liberais ou conservadoras, como Mauricio Macri na Argentina e Jair Bolsonaro no Brasil. Já na década de 2020 emergiram novas expressões dessa corrente política, incluindo movimentos libertários e discursos fortemente críticos ao chamado “globalismo”, como se observa no caso da ascensão de Javier Milei na Argentina, bem como em modelos políticos voltados para políticas de segurança rígidas, como o adotado por Nayib Bukele em El Salvador.

Esses fenômenos refletem a permanência de um intenso debate sobre os rumos políticos, econômicos e institucionais da América Latina no século XXI.

 

7 – Laudato Si


Enquanto essas transformações políticas ocorriam no campo da democracia e da economia, outra instituição milenar também buscava reinterpretar o mundo contemporâneo, a Igreja Católica.

Ao longo das primeiras décadas do século XXI, a Igreja Católica atravessou um dos períodos mais intensos de transformação de sua história recente. Instituição bimilenar profundamente enraizada na cultura ocidental e latino-americana, a Igreja viu-se confrontada com um mundo em rápida mutação, marcado pela globalização econômica, pela revolução digital, pela emergência de novos movimentos sociais e por crises morais que atingiram também a própria instituição. Nesse contexto de mudanças aceleradas, o catolicismo passou gradualmente de uma fase em que predominava a defesa mais estrita da ortodoxia doutrinária para um momento em que ganharam crescente destaque temas ligados à justiça social, à proteção dos pobres e migrantes e, de modo cada vez mais evidente, à preservação do meio ambiente e da própria vida no planeta.

O início desse período foi marcado pelo final do longo pontificado de João Paulo II, que governou a Igreja entre 1978 e 2005 e exerceu enorme influência espiritual e política no cenário internacional. Nos primeiros anos do novo milênio, seu papado concentrou-se na reafirmação da doutrina moral católica e na celebração do Jubileu do ano 2000, evento simbólico que buscou renovar a esperança cristã na passagem para o terceiro milênio. Após sua morte, em 2005, foi eleito o papa Bento XVI, teólogo alemão que conduziu a Igreja até 2013. Seu pontificado caracterizou-se pela defesa da tradição doutrinária e pela crítica ao que ele frequentemente descrevia como o “relativismo moral” presente nas sociedades contemporâneas. Entretanto, esse período também foi profundamente abalado pela revelação de numerosos casos de abusos cometidos por membros do clero, situação que desencadeou uma grave crise de credibilidade institucional.

Em 2013, Bento XVI protagonizou um acontecimento histórico ao renunciar ao papado, gesto raríssimo que não ocorria havia quase seis séculos.

A eleição de seu sucessor, o papa Francisco, representou um momento de inflexão na orientação pastoral da Igreja. Primeiro pontífice latino-americano da história, oriundo da Argentina e profundamente marcado pela experiência social da América Latina, Francisco trouxe para o centro do debate católico temas ligados à justiça social, ao acolhimento dos migrantes e à responsabilidade moral da humanidade diante da crise ambiental.

Foi nesse contexto que surgiu, em 2015, a encíclica Laudato Si, documento que rapidamente se tornou uma das intervenções mais importantes da Igreja no debate global sobre o futuro do planeta.

Inspirada no Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis, a encíclica Laudato Si apresentou-se como um verdadeiro manifesto espiritual e social em defesa daquilo que o papa chamou de “casa comum”. O texto denunciava o consumismo desenfreado, a exploração irresponsável dos recursos naturais e as formas de desenvolvimento econômico que sacrificam tanto a natureza quanto as populações mais vulneráveis. Mais do que uma simples reflexão ambiental, a encíclica introduziu um conceito central para compreender os desafios contemporâneos, o de ecologia integral. Segundo essa perspectiva, a crise ambiental e a crise social não são problemas distintos, mas expressões diferentes de uma mesma e profunda crise civilizatória.

A proposta da ecologia integral representou uma inovação significativa no pensamento social católico. Ao contrário de concepções que tratam a natureza como um cenário externo à vida humana, o documento afirma que tudo está interligado. A relação entre os seres humanos, a organização das instituições sociais, os modelos econômicos e o equilíbrio dos ecossistemas constituem uma rede inseparável de interdependências. Por essa razão, qualquer tentativa de enfrentar os problemas ambientais exige também enfrentar as desigualdades sociais, a pobreza e os processos de exclusão que marcam o mundo contemporâneo. Não existem, portanto, duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental.

A encíclica também sublinhou a centralidade do bem comum, princípio tradicional da doutrina social da Igreja, reinterpretado à luz dos desafios ecológicos contemporâneos. Em um mundo marcado por profundas desigualdades e por aquilo que o papa chamou de “cultura do descarte”, o cuidado com o meio ambiente deve caminhar lado a lado com a solidariedade para com os mais pobres. Segundo o documento, a degradação ambiental afeta de maneira desproporcional as populações mais vulneráveis, que frequentemente são as primeiras vítimas de desastres climáticos, escassez de recursos e deterioração das condições de vida urbana. Nesse sentido, a defesa da natureza torna-se inseparável da luta por justiça social.

Outro aspecto relevante da Laudato Si foi sua atenção à vida cotidiana das pessoas. O documento insiste que a questão ecológica não pode ser reduzida a debates técnicos ou a políticas ambientais isoladas. Ela envolve também a qualidade da vida nas cidades, a organização dos espaços públicos, o acesso a moradia digna, transporte adequado e ambientes urbanos saudáveis. O desenvolvimento autêntico, afirma a encíclica, não se mede apenas pelo crescimento econômico, mas pela capacidade de promover condições de vida mais humanas, mais solidárias e mais respeitosas para com a natureza.

O impacto histórico da Laudato Si foi profundo e ultrapassou os limites da própria Igreja Católica. Publicada no mesmo ano em que ocorreu a Conferência de Paris sobre o clima, a encíclica contribuiu para ampliar a consciência global acerca da gravidade da crise ambiental. O documento foi amplamente debatido por cientistas, economistas, líderes religiosos e governantes, sendo reconhecido como uma das intervenções morais mais importantes do início do século XXI. Ao denunciar a existência de uma “dívida ecológica” entre países ricos e países pobres, o texto também trouxe para o debate ambiental a dimensão da justiça internacional, ressaltando que as nações mais industrializadas possuem responsabilidades históricas maiores na crise climática.

A encíclica dirigiu-se não apenas aos católicos, mas a todas as pessoas do planeta, convidando a humanidade a refletir sobre os caminhos da civilização contemporânea. Nesse sentido, representou um chamado à cooperação global e à criação de novos mecanismos de governança capazes de proteger os bens comuns da humanidade. O documento também promoveu um diálogo inédito entre diferentes tradições religiosas e comunidades científicas, mobilizando líderes espirituais de diversas matizes e especialistas de diferentes áreas do conhecimento em torno da defesa do planeta.

Nesse contexto de mudanças culturais e religiosas, a encíclica Laudato Si permanece como um dos documentos mais significativos da história social do século XXI. Ao conectar de maneira profunda a crise ambiental, as desigualdades econômicas e a dignidade da pessoa humana, o texto redefiniu os termos do debate ético sobre o futuro da civilização. Mais do que uma reflexão teológica, a encíclica tornou-se um apelo universal à responsabilidade coletiva, lembrando à humanidade que o destino da natureza e o destino dos seres humanos são inseparáveis e que cuidar da Terra significa, em última instância, cuidar uns dos outros.

 

8 - Quando o mundo parou

 

Poucos anos depois da publicação da Laudato Si, a humanidade seria confrontada com um acontecimento que revelaria dramaticamente a fragilidade da nossa civilização global.  

A pandemia de COVID-19 constituiu um dos acontecimentos mais marcantes da história social do início do século XXI. A doença, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, foi identificada pela primeira vez em dezembro de 2019, após um surto registrado na cidade de Wuhan, na China. Nas semanas seguintes, as tentativas iniciais de contenção mostraram-se insuficientes, permitindo que o vírus se espalhasse rapidamente para outras regiões do território chinês e, logo depois, para diferentes partes do planeta.

Diante da velocidade de disseminação e do aumento contínuo de casos, a Organização Mundial da Saúde declarou, em 30 de janeiro de 2020, que o surto representava uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Pouco tempo depois, em 11 de março do mesmo ano, a situação foi oficialmente classificada como pandemia.

Em poucos meses, o vírus já havia alcançado praticamente todos os continentes, configurando uma crise sanitária global sem precedentes recentes. Até janeiro de 2026, haviam sido confirmados cerca de 780 milhões de casos em 233 países e territórios, com mais de 7 milhões de mortes registradas, tornando a COVID-19 uma das pandemias mais letais da história moderna.

A transmissão da doença ocorre principalmente por via respiratória, através da inalação de gotículas e aerossóis expelidos quando pessoas infectadas respiram, falam, tossem, espirram ou cantam. Os sintomas podem variar amplamente, indo desde quadros assintomáticos até formas graves da enfermidade, que podem levar à morte, especialmente entre idosos e indivíduos com doenças preexistentes. A capacidade de transmissão do vírus foi agravada pelo fato de que pessoas infectadas podiam disseminá-lo mesmo sem apresentar sintomas evidentes, permanecendo contagiosas por períodos que geralmente variavam entre dez e quatorze dias. Ao longo da pandemia, sucessivas mutações deram origem a diferentes variantes do vírus, algumas com maior capacidade de transmissão ou maior gravidade clínica, o que dificultou ainda mais os esforços de controle epidemiológico.

Diante da rápida propagação da doença, governos e autoridades sanitárias em todo o mundo adotaram diversas medidas de prevenção e controle. Entre as estratégias mais difundidas estiveram o uso de máscaras, o distanciamento social, a ventilação adequada de ambientes, a higiene frequente das mãos e o isolamento de pessoas sintomáticas ou contaminadas. Em vários países foram implementadas medidas mais rigorosas, como lockdowns temporários, fechamento de escolas e restrições à circulação de pessoas.

A partir de dezembro de 2020, um novo capítulo da luta contra a pandemia teve início com a aprovação e distribuição das primeiras vacinas contra a COVID-19. Estudos posteriores indicaram que a vacinação em larga escala foi responsável por evitar milhões de mortes em todo o mundo, reduzindo significativamente os índices de hospitalização e mortalidade.  

Os impactos da pandemia ultrapassaram amplamente o campo da saúde pública e alcançaram praticamente todos os aspectos da vida social. No plano econômico, a crise provocou uma profunda instabilidade global, gerando a maior recessão desde a Grande Depressão do século XX. Cadeias de produção e logística foram interrompidas, provocando escassez de diversos produtos, enquanto setores como turismo, transporte aéreo e entretenimento sofreram perdas devastadoras. Eventos esportivos, festivais culturais e estreias cinematográficas foram cancelados ou adiados, em uma interrupção sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial. Instituições religiosas também precisaram suspender celebrações presenciais e adaptar suas atividades para transmissões virtuais, evidenciando o alcance universal das restrições impostas pela pandemia. Ao mesmo tempo, a circulação de desinformação nas redes sociais contribuiu para ampliar o clima de incerteza e dificultou a implementação de estratégias sanitárias coordenadas.

As consequências humanas da pandemia foram igualmente profundas. O medo do contágio, o isolamento social e as perdas familiares provocaram um agravamento generalizado dos problemas de saúde mental em diferentes sociedades. Casos de ansiedade, depressão, estresse e transtornos psicológicos cresceram de forma significativa durante o período, afetando tanto a população em geral quanto profissionais de saúde que atuavam na linha de frente do combate à doença. A pandemia também suscitou debates sobre desigualdade no acesso aos sistemas de saúde, discriminação racial e geográfica e o delicado equilíbrio entre medidas de proteção coletiva e a preservação das liberdades individuais.

No cotidiano das sociedades contemporâneas, a pandemia acelerou mudanças que já vinham se desenhando ao longo das últimas décadas. O comércio eletrônico e os serviços de entrega domiciliar expandiram-se rapidamente, enquanto o ensino remoto tornou-se uma realidade para mais de um bilhão de estudantes em todo o mundo durante o fechamento temporário das escolas. No campo do trabalho, o teletrabalho e os modelos híbridos de organização profissional passaram a ser amplamente adotados, transformando a rotina de milhões de trabalhadores. Sistemas políticos também foram afetados, com adiamento de eleições, interrupção de atividades parlamentares e intensificação de debates ideológicos sobre as estratégias de enfrentamento da crise sanitária.

No Brasil, o primeiro caso confirmado de COVID-19 foi registrado em 26 de fevereiro de 2020, na cidade de São Paulo.

A partir daí, o vírus espalhou-se rapidamente por todo o território nacional, levando o país a enfrentar uma das mais severas crises sanitárias de sua história recente. Ao longo dos anos seguintes, o Brasil registrou mais de 39 milhões de casos confirmados e cerca de 716 mil mortes.

A evolução da pandemia no país ocorreu em diferentes fases, associadas ao surgimento de variantes do vírus, como a cepa original que marcou o primeiro pico em 2020, a variante Gama que provocou grande aumento de casos em 2021 e a variante Ômicron que se disseminou rapidamente no início de 2022.

Durante esse período, diversas instituições precisaram adaptar suas rotinas. O sistema judiciário, por exemplo, passou a realizar audiências e sessões de julgamento por videoconferência, inaugurando novas formas de funcionamento institucional mediadas pela tecnologia.

A campanha de vacinação representou um ponto de inflexão no enfrentamento da pandemia no país. Em 17 de janeiro de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou o uso emergencial das primeiras vacinas. A enfermeira Mônica Calazans tornou-se a primeira pessoa imunizada no território brasileiro. A vacinação em massa começou oficialmente em 19 de janeiro de 2021 e foi gradualmente ampliada ao longo dos anos seguintes, incluindo posteriormente a aplicação de doses de reforço e vacinas bivalentes. A ampla cobertura vacinal foi decisiva para reduzir significativamente o número de internações e óbitos associados à doença, marcando um dos capítulos mais importantes da resposta brasileira à pandemia.

Ao final desse período, tornou-se evidente que a COVID-19 não apenas representou uma grave crise sanitária, mas também um evento histórico capaz de redefinir hábitos sociais, políticas públicas e formas de organização da vida coletiva no século XXI.

 

9 - Brasil à procura de seu caminho


Os impactos da crise global também se fizeram sentir de maneira profunda no Brasil.

A história do Brasil no século XXI tem sido marcada por intensas transformações políticas, econômicas e sociais, frequentemente descritas por analistas como um movimento irregular de avanços e retrocessos. Em muitos momentos, essa trajetória foi comparada à imagem popular do “voo de galinha”. Períodos de crescimento e mobilidade social seguidos por crises profundas e interrupções abruptas de projetos nacionais.

Nesse intervalo de pouco mais de duas décadas, o país experimentou mudanças significativas na estrutura do mundo do trabalho, na distribuição de renda, na organização política e nas formas de participação social, ao mesmo tempo em que enfrentou momentos de polarização política que alteraram profundamente o tecido social brasileiro.

Um marco decisivo dessa trajetória ocorreu em 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente da República, assumindo o cargo em 2003. Pela primeira vez na história do país, um líder oriundo do movimento operário e sindical alcançava a chefia do Estado brasileiro, fato que representou uma importante inflexão na composição das elites políticas nacionais. A partir daquele momento iniciou-se um ciclo político caracterizado pela ampliação das políticas sociais, pelo crescimento econômico e pela tentativa de fortalecer a soberania nacional. Nos anos seguintes, o Brasil viveu um período de relativa estabilidade institucional, acompanhado pela expansão do emprego formal, pela valorização real do salário-mínimo e por programas de transferência de renda que contribuíram para retirar milhões de brasileiros da pobreza.

Esse período, frequentemente descrito como um ciclo progressista de inclusão social, estendeu-se aproximadamente entre 2003 e 2016, abrangendo os governos de Lula e de Dilma Rousseff. Durante esses anos, observou-se a retomada do crescimento econômico, impulsionado em parte pelo chamado “boom das commodities”, alimentado pela forte demanda internacional, especialmente da China, por produtos agrícolas e minerais. Paralelamente, ampliaram-se políticas públicas voltadas para a democratização do acesso à educação superior, com a expansão das universidades federais e a aprovação da Lei de Cotas em 2012, que ampliou o acesso de estudantes de escolas públicas e de grupos historicamente excluídos ao ensino superior.

Ao mesmo tempo, esse ciclo político também buscou ampliar a inserção internacional do Brasil, diversificando parcerias econômicas e fortalecendo iniciativas de integração regional latino-americana. O país participou ativamente de articulações multilaterais entre países emergentes, aproximando-se de outras nações do chamado Sul Global e ampliando sua presença diplomática no cenário internacional.

Ainda assim, esse período não esteve livre de contradições. Muitos analistas apontam que o modelo de desenvolvimento adotado conviveu com uma certa dualidade de interesses, marcada por acordos políticos e pela ausência de reformas estruturais mais profundas que pudessem enfrentar problemas históricos da sociedade brasileira, como a desigualdade fundiária, a concentração de renda e a fragilidade do sistema produtivo nacional.

A crise financeira internacional iniciada em 2008 colocou novos desafios diante desse modelo. Embora o Brasil tenha inicialmente resistido aos impactos mais severos da turbulência global, beneficiando-se de políticas anticíclicas e da força do mercado interno, a economia começou a apresentar sinais de desaceleração nos anos seguintes. A partir da década de 2010, o país entrou em um período de crescente instabilidade política e econômica.

Em 2013, grandes manifestações populares conhecidas como Jornadas de Junho tomaram as ruas de diversas cidades brasileiras. Inicialmente motivados pelo aumento das tarifas de transporte público, esses protestos rapidamente se transformaram em um amplo movimento de contestação política que revelou insatisfações acumuladas em relação ao funcionamento das instituições e à qualidade dos serviços públicos.

Pouco tempo depois, entre 2014 e 2018, o país foi profundamente marcado pela “Operação Lava Jato”, investigação judicial que revelou um vasto esquema de corrupção envolvendo empresas estatais, empreiteiras e diversos partidos políticos. As repercussões institucionais dessa operação contribuíram para desorganizar o sistema partidário brasileiro e intensificaram o clima de polarização política.

Em 2016 ocorreu o golpe do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, episódio que aprofundou as divisões na sociedade brasileira e passou a ser interpretado de maneira divergente por diferentes setores da opinião pública.

O período que se seguiu foi caracterizado por uma forte inflexão na orientação econômica e política do país. Muitos analistas identificam nessa fase uma retomada de políticas associadas ao paradigma neoliberal, marcado pela redução do papel do Estado na economia, pela intensificação de privatizações e por reformas institucionais voltadas à flexibilização das relações de trabalho. A reforma trabalhista aprovada em 2017 representou a mais profunda alteração na Consolidação das Leis do Trabalho desde sua criação em 1943. Entre outras mudanças, ampliou a possibilidade de negociação direta entre empresas e trabalhadores, extinguiu a contribuição sindical obrigatória e regulamentou modalidades de trabalho mais flexíveis, como o trabalho intermitente. Para seus defensores, tais medidas buscavam dinamizar o mercado de trabalho. Para críticos, representaram um processo de precarização das condições laborais.

Nesse mesmo contexto, ocorreram também outras reformas estruturais, como a reforma da previdência aprovada em 2019, que estabeleceu idades mínimas para aposentadoria e alterou regras de contribuição diante do envelhecimento populacional e das pressões fiscais sobre o sistema previdenciário. Paralelamente, consolidou-se um ambiente de intensas disputas ideológicas e culturais que marcou profundamente a vida pública brasileira no período.  

 

10 - Caminhos da reconstrução nacional

 

A eleição de Jair Bolsonaro à presidência da República em 2018 simbolizou a ascensão de uma nova direita política no Brasil, marcada por discursos conservadores, críticas às instituições tradicionais e forte polarização ideológica. Muitos analistas descrevem esse período, compreendido aproximadamente entre 2016 e 2022, como um ciclo regressivo caracterizado por políticas econômicas de inspiração ultraliberal e por um ambiente político marcado por tensões constantes. Entre as medidas adotadas nesse período destacaram-se a instituição do teto de gastos públicos, que limitou o crescimento das despesas governamentais por duas décadas, bem como a aprovação da autonomia formal do Banco Central.  

As consequências sociais desse período foram amplamente debatidas. Diversos indicadores apontaram para o agravamento da desigualdade social, o aumento da insegurança alimentar e o retorno do Brasil ao chamado Mapa da Fome. A pandemia de COVID-19, iniciada em 2020, aprofundou ainda mais esse quadro de dificuldades. A crise sanitária provocou graves impactos econômicos e sociais, ampliando o desemprego, pressionando os sistemas de saúde e expondo fragilidades estruturais da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, o período foi marcado por tensões políticas constantes e pela disseminação de discursos de ódio nas redes sociais, fenômeno que contribuiu para o aumento de conflitos sociais, episódios de violência e manifestações de racismo, misoginia e intolerância.

Paralelamente a essas disputas políticas, o mundo do trabalho brasileiro passou por transformações estruturais profundas ao longo do século XXI. A reestruturação produtiva associada à revolução digital modificou a organização das atividades econômicas e alterou significativamente as formas de emprego. Um dos fenômenos mais emblemáticos desse processo foi a chamada “uberização do trabalho”, caracterizada pela expansão de atividades mediadas por plataformas digitais. Nesse modelo, trabalhadores atuam como prestadores de serviços independentes, frequentemente sem vínculos formais de emprego e sem acesso às proteções tradicionais da legislação trabalhista.

Esse novo formato de organização do trabalho contribuiu para ampliar a informalidade e fragmentar a capacidade de organização coletiva dos trabalhadores. Muitas plataformas digitais passaram a apresentar essa forma de inserção laboral sob o discurso do “empreendedorismo individual”, transferindo para o próprio trabalhador os custos e riscos da atividade produtiva. Em 2023, estimativas indicavam que a taxa de informalidade no Brasil alcançava cerca de 39% da força de trabalho, envolvendo dezenas de milhões de pessoas. Entre elas, milhões atuavam diretamente por meio de aplicativos de transporte e entrega, frequentemente submetidos a longas jornadas de trabalho e remunerações instáveis.

A juventude brasileira tem sido particularmente afetada por essas transformações. Altas taxas de rotatividade no emprego, baixos salários e dificuldades de inserção profissional marcam a experiência de muitos jovens no mercado de trabalho contemporâneo. Ao mesmo tempo, a economia brasileira passou a depender cada vez mais do setor de serviços e de atividades baseadas em tecnologia e conhecimento, sinalizando uma transição gradual em relação ao modelo econômico tradicionalmente apoiado na indústria e na agricultura. 

Em meio a essas transformações, persistem problemas históricos que continuam a desafiar a sociedade brasileira. A questão agrária permanece como um dos temas mais sensíveis do país. O campo brasileiro segue marcado por disputas intensas entre o agronegócio voltado à exportação e movimentos sociais ligados à agricultura familiar, comunidades indígenas e populações quilombolas que reivindicam acesso à terra e proteção de seus territórios tradicionais. Nos últimos anos, esses conflitos passaram a envolver também debates ambientais relacionados ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, bem como discussões jurídicas sobre a demarcação de terras indígenas.

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um terceiro mandato presidencial em 2022 abriu um novo capítulo na história política do país. O período iniciado em 2023 tem sido frequentemente descrito como um momento de reconstrução nacional, marcado pela tentativa de restaurar políticas públicas descontinuadas, fortalecer instituições democráticas e recuperar a credibilidade internacional do Brasil. Esse processo ocorre em um cenário ainda marcado por fortes desigualdades regionais, persistência da informalidade no mercado de trabalho e desafios estruturais relacionados à violência urbana, à presença de milícias em periferias metropolitanas e às disputas por território envolvendo povos indígenas e comunidades tradicionais.

Nesse quadro complexo, a história brasileira no século XXI permanece em aberto. Entre ciclos de avanço e retrocesso, o país continua buscando caminhos para conciliar crescimento econômico, justiça social, preservação ambiental e fortalecimento democrático, desafios que permanecem no centro do debate sobre o futuro da sociedade brasileira.

 

11 - Lula

 

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência da República, em 2002, representou um dos marcos decisivos da história política brasileira no início do século XXI. Sua vitória inaugurou um novo ciclo político no país, ao levar forças progressistas ao centro do poder estatal após uma década marcada pela predominância do receituário neoliberal.

Muitos analistas interpretam esse momento como uma inflexão histórica, na qual o Brasil buscou reverter o quadro de estagnação econômica e desigualdade herdado do período frequentemente descrito como de regressão social e de forte dependência das diretrizes do sistema financeiro internacional. A chegada de Lula ao Palácio do Planalto simbolizou, para amplos setores da sociedade, a possibilidade de reconstrução nacional e de retomada de um projeto de desenvolvimento voltado para a inclusão social e a afirmação da soberania do país.

Os primeiros governos de Lula, iniciados em 2003, marcaram um período frequentemente descrito como um ciclo de inclusão social e fortalecimento do Estado. Nesse período, políticas públicas voltadas para o combate à pobreza e à desigualdade ganharam centralidade na agenda governamental. Programas como o Bolsa Família e o Fome Zero tornaram-se referências, ao retirar milhões de brasileiros da extrema pobreza e ao contribuir para que o Brasil deixasse o Mapa da Fome das Nações Unidas em 2014. Paralelamente, a valorização real do salário-mínimo, a expansão do crédito e a ampliação de políticas sociais estimularam a mobilidade social e permitiram a ascensão de milhões de pessoas à chamada “nova classe média”.

No campo internacional, o governo Lula buscou reposicionar o Brasil no cenário global, adotando uma política externa marcada pela defesa do multilateralismo e pela valorização das relações entre países do chamado Sul Global. Nesse contexto, o país fortaleceu sua participação em iniciativas como a criação do BRICS, ampliou o diálogo com países africanos e latino-americanos e assumiu posição de destaque em debates sobre governança global.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro tomou decisões simbólicas no campo da soberania econômica e diplomática. Entre elas destacou-se a recusa ao projeto da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), iniciativa defendida pelos Estados Unidos que previa a criação de um grande mercado continental sob liderança norte-americana. A rejeição desse projeto foi interpretada por diversos analistas como um gesto de afirmação da autonomia política brasileira. Paralelamente, o país quitou antecipadamente sua dívida com o Fundo Monetário Internacional, encerrando um período de tutela financeira que havia marcado décadas anteriores. Essas medidas foram acompanhadas pela intensificação de projetos de integração regional na América Latina, como a criação da UNASUL e o fortalecimento da cooperação entre países do continente.

Apesar desses avanços, os governos progressistas liderados por Lula também enfrentaram limitações estruturais e contradições políticas. Para garantir governabilidade em um sistema político altamente fragmentado, a administração precisou estabelecer amplas alianças parlamentares e acordos políticos com diferentes partidos. Esse processo produziu aquilo que alguns analistas descrevem como uma “dualidade de interesses”, na qual conviviam, dentro da própria coalizão governamental, projetos e visões distintas sobre o desenvolvimento nacional. Essa dinâmica acabou por impor limites à implementação de reformas estruturais mais profundas que poderiam enfrentar de maneira definitiva algumas das contradições históricas do país.

Entre essas questões estruturais frequentemente apontadas estão a persistente concentração fundiária, que mantém grandes extensões de terra sob controle de latifúndios improdutivos; a elevada concentração de renda e patrimônio, que continua a favorecer o capital em detrimento do trabalho; e as profundas desigualdades regionais que separam o desenvolvimento econômico do Sudeste e do Sul das condições socioeconômicas de outras regiões brasileiras. Além disso, muitos críticos argumentam que o Estado brasileiro permaneceu parcialmente moldado por estruturas institucionais herdadas das reformas neoliberais das décadas anteriores, mantendo forte dependência de um sistema financeiro caracterizado pela predominância do capital rentista. Esses fatores, somados às pressões políticas internas e às crises econômicas internacionais, como a crise financeira global de 2008, limitaram o alcance de algumas transformações pretendidas.

A trajetória política de Lula, contudo, não pode ser compreendida apenas a partir de seus governos. Sua ascensão ao poder representa também uma das narrativas mais emblemáticas da história social brasileira contemporânea. Na década de 1970, emergiu como liderança sindical no ABC paulista, tornando-se presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Foi nesse contexto que liderou as históricas greves operárias de 1978 a 1980, que desafiaram diretamente a Ditadura Militar e contribuíram para o processo de redemocratização do país.

Essas mobilizações operárias deram origem ao chamado Novo Sindicalismo, movimento que buscava autonomia em relação ao Estado e aos partidos tradicionais. Dessa experiência surgiu, em 1980, o Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em São Paulo. A nova legenda reuniu sindicalistas, intelectuais de esquerda e militantes das Comunidades Eclesiais de Base ligadas à Teologia da Libertação e à Igreja Católica. Lula tornou-se rapidamente a principal liderança desse novo projeto político, desempenhando o papel de mediador entre diferentes correntes ideológicas e consolidando-se como a figura pública mais identificada com o partido.

Nas décadas seguintes, Lula disputou diversas eleições presidenciais antes de alcançar a vitória. Essas derrotas foram acompanhadas por um processo gradual de amadurecimento político e de reformulação estratégica. Em 2002, sua campanha adotou a imagem conciliadora sintetizada no slogan “Lula Paz e Amor”. A publicação da “Carta aos Brasileiros” buscou tranquilizar setores do mercado financeiro ao reafirmar compromissos com a estabilidade econômica.  

Nas décadas seguintes, a figura de Lula consolidou-se como um dos principais protagonistas da política brasileira. Sociólogos e cientistas políticos passaram a identificar o fenômeno do “lulismo”, entendido como uma forma particular de liderança política que combina carisma pessoal, base popular e capacidade de negociação institucional. Para muitos observadores, Lula tornou-se uma liderança que ultrapassa os limites formais do próprio Partido dos Trabalhadores, mobilizando apoio social mesmo entre eleitores que não se identificam diretamente com a legenda.

Após um período marcado por crises políticas, processos judiciais e forte polarização nacional, Lula retornou à presidência da República em 2023. Esse terceiro mandato tem sido interpretado como uma fase de reconstrução nacional, voltada para a recuperação de políticas públicas enfraquecidas nos anos anteriores e para a defesa das instituições democráticas. Entre as iniciativas desse período destacam-se a retomada de programas sociais históricos, a criação de novas políticas públicas e a aprovação de medidas voltadas para a promoção da igualdade, como a Lei da Igualdade Salarial entre homens e mulheres.

No campo internacional, o governo tem buscado reafirmar o papel do Brasil como ator relevante na política global. A diplomacia brasileira voltou a enfatizar a cooperação entre países do Sul Global, fortalecendo parcerias estratégicas com países como China, Índia e África do Sul, além de ampliar o protagonismo do país em debates sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável.  

Ainda assim, o atual ciclo político enfrenta desafios significativos. Embora as taxas de desemprego tenham apresentado queda nos últimos anos, o mercado de trabalho brasileiro continua marcado por elevados índices de informalidade e pela expansão de formas precárias de emprego associadas à economia digital. Ao mesmo tempo, o Estado brasileiro permanece atravessado por tensões entre projetos econômicos distintos, refletindo a persistência de influências neoliberais nas estruturas institucionais e nas orientações de política econômica.

Nesse sentido, a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva pode ser compreendida como parte de um processo mais amplo de transformação social e política do Brasil contemporâneo. Ao longo de mais de quatro décadas de vida pública, sua figura tornou-se símbolo das contradições e das possibilidades da democracia brasileira, representando, para muitos, a tentativa de construir um projeto nacional que combine crescimento econômico, justiça social e protagonismo internacional em um mundo cada vez mais complexo e multipolar.

 

12 - Condição humana na era das redes


A cultura do século XXI revela um conjunto de mutações que alteraram não apenas as formas de produção artística e de comunicação social, mas também a própria experiência de existir no mundo contemporâneo. Uma das características mais marcantes desse período pode ser descrita como uma verdadeira hibridização da existência humana. A vida cotidiana passou a ocorrer simultaneamente em dois planos, o físico e o digital, criando novas formas de identidade, sociabilidade e percepção da realidade.

Nesse contexto, a experiência de mundo de cada indivíduo é permanentemente mediada por dispositivos tecnológicos, especialmente o smartphone, que funciona como uma espécie de prótese cognitiva capaz de armazenar memória, organizar deslocamentos, conectar pessoas e produzir identidades sociais.

A presença constante das redes digitais contribuiu para tornar as identidades mais fluidas e performáticas, frequentemente construídas por meio de imagens e interações virtuais.

Ao mesmo tempo, o início do século XXI foi marcado pela crescente consciência de que a humanidade se tornou uma força geológica capaz de alterar profundamente o equilíbrio do planeta. Esse novo horizonte, frequentemente descrito pelo conceito de Antropoceno, introduziu na cultura contemporânea uma forte sensação de angústia ambiental e de responsabilidade coletiva diante da crise climática. Em diversos campos da produção cultural e intelectual emergiu a busca por novas formas de convivência com a natureza, baseadas menos na ideia de dominação e mais na perspectiva de uma relação simbiótica entre sociedade e meio ambiente.

 Paralelamente, a vida social passou por um processo de fragmentação das antigas grandes narrativas ideológicas que marcaram o século XX. Em lugar das grandes ideologias totalizantes, proliferaram múltiplas comunidades culturais, tribos digitais e bolhas informacionais nas quais grupos sociais constroem suas próprias versões da realidade. Nesse ambiente ganhou força o fenômeno frequentemente descrito como pós-verdade, no qual emoções, crenças e identidades coletivas passaram a exercer influência crescente na formação da opinião pública.

A cultura contemporânea passou então a refletir aquilo que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida”. Um tempo no qual instituições, relações sociais e valores parecem cada vez mais instáveis e transitórios, produzindo uma sensação generalizada de incerteza diante do futuro.

Essas transformações também se manifestaram intensamente no campo do entretenimento, das Artes e da Literatura. No início do século, o consumo cultural ainda era fortemente organizado em torno de grandes produtos da indústria cinematográfica e televisiva, distribuídos em formatos físicos como o DVD e centrados em franquias globais de enorme sucesso. Contudo, a partir da década de 2010, o avanço das plataformas digitais de streaming alterou radicalmente a maneira como filmes, séries e músicas são produzidos e consumidos. Serviços como Netflix e outras plataformas transformaram o entretenimento em um fluxo contínuo e personalizado de conteúdos, criando ao mesmo tempo uma sensação paradoxal conhecida como “fadiga de conteúdo”, na qual a abundância de opções gera saturação e dificuldade de escolha.

Nas Artes Visuais, o período também foi marcado por novas formas de experimentação estética. Exposições imersivas e instalações artísticas passaram a ocupar espaços inteiros, convidando o público a participar da obra de forma sensorial e interativa. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento de tecnologias possibilitou o surgimento de novos formatos de Arte, que procuraram redefinir a ideia de propriedade e autenticidade no universo digital. Mais recentemente, o avanço da inteligência artificial generativa abriu um debate inédito sobre os limites da criatividade humana e sobre o valor estético da imperfeição produzida pela experiência humana.

No campo da Literatura, o século XXI assistiu ao surgimento de novos fenômenos editoriais e de novas formas de circulação das obras literárias. Plataformas digitais e redes sociais passaram a influenciar diretamente o mercado editorial, especialmente entre o público jovem, que descobriu livros por meio de comunidades virtuais de leitores. Também se destacou o surgimento de vozes literárias provenientes de grupos historicamente marginalizados, ampliando o repertório de experiências representadas na Literatura brasileira e mundial.

Livros de grande repercussão abordaram questões históricas, sociais e existenciais que atravessam o mundo atual, refletindo preocupações com identidade, memória e justiça histórica. Diversas obras passaram a ser vistas como expressões emblemáticas do espírito de nosso tempo.

Dentre essas obras, destacou-se por exemplo o romance “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves, publicado em 2006. A obra tornou-se uma referência central na Literatura brasileira contemporânea ao narrar, com grande densidade histórica e emocional, a experiência da população negra durante e após o período da escravidão. Ao recuperar memórias silenciadas da história brasileira, o livro contribuiu para ampliar o debate público sobre identidade racial, reparação histórica e representação cultural. Seu impacto tornou-se ainda mais visível ao evidenciar a possibilidade de a Literatura dialogar com a memória coletiva da sociedade.

Paralelamente às transformações culturais e artísticas, o século XXI foi também marcado pela emergência de intensos debates identitários. Questões relacionadas ao reconhecimento de grupos historicamente marginalizados tornaram-se motores centrais de transformações sociais contemporâneas. Movimentos negros ampliaram sua presença pública ao denunciar o racismo estrutural e ao reivindicar políticas de reparação histórica, inspirados tanto por mobilizações internacionais quanto por iniciativas locais de letramento racial e valorização da cultura afrodescendente. O movimento feminista também passou por uma nova fase de mobilização global, especialmente a partir das campanhas contra o assédio e a violência de gênero. Ao mesmo tempo, movimentos ligados à diversidade sexual e de gênero conquistaram avanços significativos em diversas partes do mundo, incluindo o reconhecimento de direitos civis e a criminalização da discriminação.

No Brasil, debates sobre identidade indígena e direitos territoriais ganharam grande destaque nas discussões políticas recentes, especialmente em torno da demarcação de terras e da criação de políticas públicas voltadas aos povos originários.  

Outras pautas emergentes também passaram a ocupar espaço crescente na esfera pública, como a defesa dos direitos das pessoas com deficiência, o reconhecimento da neurodiversidade e as discussões sobre envelhecimento populacional e conflitos geracionais.

Ao mesmo tempo, a saúde mental tornou-se um tema central do debate contemporâneo, especialmente após a pandemia de COVID-19, quando fenômenos como burnout, ansiedade e esgotamento profissional passaram a ser reconhecidos como problemas sociais amplamente disseminados.

Nesse ambiente de hiperconectividade digital, novas formas de linguagem também emergiram. Entre elas destaca-se a cultura dos “memes”, que evoluiu de simples bordões humorísticos para complexas colagens simbólicas capazes de comentar acontecimentos políticos e sociais em tempo real. O humor tornou-se, muitas vezes, um mecanismo de defesa coletiva diante da instabilidade do mundo contemporâneo.

Ao mesmo tempo, a difusão massiva de memes e conteúdos virais contribuiu para a formação de um ambiente comunicacional no qual ironia, sátira e desinformação frequentemente se misturam, criando o cenário propício para a disseminação de fake news e para o fortalecimento da lógica da pós-verdade.

Essas transformações culturais também se refletiram na própria paisagem urbana das cidades contemporâneas. Espaços tradicionais de circulação do conhecimento, como bancas de jornal e grandes livrarias, passaram por mudanças diante da digitalização da informação. Muitas bancas deixaram de funcionar como centros de distribuição de jornais e revistas, transformando-se em pequenos quiosques de conveniência. Ao mesmo tempo, diversas megastores do mercado editorial desapareceram ou reduziram drasticamente suas atividades, dando lugar a livrarias menores e mais especializadas.

Nesse novo ambiente cultural, a busca por informação e conhecimento passou a ocorrer predominantemente nas telas de computadores e smartphones, consolidando definitivamente a centralidade do universo digital na vida cultural do século XXI.

 

13 - O século dos algoritmos e a esperança


Ao concluir este balanço do primeiro quarto de século do século XXI, volto inevitavelmente ao ponto de onde parti. Este quarto de trabalho, aparentemente modesto, onde o brilho azulado do notebook iluminou tantas horas de leitura, reflexão e escrita.

Ao longo desses vinte e cinco anos, esse instrumento deixou de ser apenas uma máquina de escrever moderna para transformar-se em algo muito mais complexo, quase um telescópio voltado para uma tempestade histórica. Através dele passaram imagens de guerras, crises econômicas, pandemias, revoluções tecnológicas e disputas culturais que redefiniram o mundo contemporâneo. Aquilo que começou como uma ferramenta de organização do pensamento tornou-se também uma janela permanente para o tumulto global.

Diante dessa avalanche de acontecimentos, o desafio de quem escreve, especialmente de quem já atravessou mais de meio século de vida, consiste em tentar, de tempos em tempos, fechar essa janela.  

Não se trata de negar a realidade ou de buscar refúgio em uma nostalgia do mundo analógico, mas de recuperar a capacidade de silêncio que torna possível o pensamento profundo.  

Retomar o controle deste quarto de século exige, portanto, uma forma discreta de insubordinação contra aquilo que poderíamos chamar de ditadura do clique. Em um mundo organizado pela lógica das notificações, das métricas de engajamento e da urgência permanente, a decisão de interromper o fluxo de estímulos digitais transforma-se em um gesto de resistência intelectual.

Essa resistência não implica abandonar a tecnologia, mas redefinir a maneira como nos relacionamos com ela. O notebook, afinal, não precisa ser um portal permanente para a ansiedade global. Ele pode voltar a ser aquilo que deveria ter sido desde o início. Um instrumento para organizar ideias, registrar memórias e refletir sobre a experiência humana. A “resistência do silêncio” manifesta-se justamente nesse esforço de recuperar práticas que a velocidade digital quase tornou raras. A leitura prolongada, a escrita que não busca aprovação imediata e a coragem de desconectar-se por alguns instantes para que a ampulheta da reflexão volte a correr no ritmo natural do pensamento.

Nesse sentido, a posição do cidadão comum diante da história torna-se particularmente significativa. Muitos de nós pertencemos a uma espécie de geração de transição, uma geração que poderia ser chamada de “geração da ponte”. Somos, ao mesmo tempo, herdeiros de uma memória analógica e habitantes de um mundo profundamente digitalizado. Carregamos lembranças de um tempo em que o conhecimento se acumulava lentamente nas bibliotecas e, ao mesmo tempo, convivemos com um presente em que algoritmos parecem disputar com os intelectuais a autoridade sobre a interpretação do mundo. Essa transição produziu uma curiosa crise de autoridade cultural. Aquilo que antes era reconhecido como saber consolidado passou a disputar espaço com o poder difuso das redes e com a lógica fragmentada das bolhas digitais.

O próprio quarto que servia de refúgio para a reflexão foi gradualmente atravessado por essa transformação. O espaço que antes parecia protegido da turbulência exterior passou a ser invadido pela internet, pelas redes sociais e pela velocidade das notícias. Aquilo que era um observatório silencioso do mundo converteu-se em uma espécie de janela permanentemente aberta para o caos informacional.  

Ao mesmo tempo, a cultura contemporânea passou a exigir de cada indivíduo uma nova forma de desempenho permanente. No ambiente marcado pelo neoliberalismo e pela hiperconectividade, o cidadão é constantemente incentivado a tornar-se uma espécie de “empresário de si mesmo”, administrando a própria produtividade, a própria imagem e até mesmo a própria identidade digital. O resultado frequente desse processo é o esgotamento psicológico que hoje se manifesta em fenômenos como o burnout e a dissolução das fronteiras entre trabalho e descanso.

Talvez seja nesse contexto que duas frases frequentemente atribuídas a autores anônimos adquiram um significado particularmente revelador para compreender o nosso tempo.

A primeira delas afirma que o verdadeiro perigo do século XXI não é que os computadores comecem a pensar como humanos, mas que os humanos passem a pensar como computadores. Essa advertência resume, de maneira quase simbólica, uma das tensões centrais da nossa época. Pensar como uma máquina significa reduzir a complexidade da vida humana a cálculos de eficiência, substituir a empatia pela produtividade e transformar relações sociais em métricas de desempenho. A chamada “datificação” da vida, na qual amizades se tornam conexões e experiências se convertem em conteúdo, representa talvez o exemplo mais visível desse processo.

A segunda frase aponta para o outro polo dessa tensão histórica ao sugerir que, embora o século XXI frequentemente pareça desprovido de sentido, a esperança ainda resiste. Essa afirmação não expressa um otimismo ingênuo, mas uma forma de resistência ética diante das crises que marcaram as primeiras décadas do milênio. Entre o colapso financeiro de 2008, a pandemia global iniciada em 2020, os conflitos geopolíticos recentes e as incertezas climáticas que atravessam o planeta, muitos poderiam concluir que a história perdeu sua direção.  

No entanto, a esperança manifesta-se justamente na persistência de movimentos que buscam reconstruir o sentido da experiência humana. Nas lutas por justiça social, na defesa dos povos indígenas e do meio ambiente, na valorização da memória histórica e na tentativa permanente de preservar a dignidade humana em um mundo cada vez mais complexo.

É nesse ponto que a reflexão individual volta a encontrar a história coletiva. Situar essas duas frases no contexto do primeiro quarto do século XXI significa reconhecer que vivemos um verdadeiro combate pela Humanidade.  

De um lado, as tecnologias digitais e os sistemas automatizados tendem a reorganizar o mundo segundo critérios de eficiência e velocidade. De outro, permanece a capacidade humana de refletir, emocionar-se, duvidar e buscar sentido para além dos dados. O futuro do século XXI dependerá, em grande medida, da forma como essas duas forças se equilibrarão.

Ao encerrar este percurso reflexivo, volto mais uma vez ao silêncio deste quarto. Entre estas paredes acumulam-se não apenas livros, arquivos e lembranças tecnológicas de uma época que se transformou rapidamente, mas também a consciência de que a maior fronteira atravessada nesses vinte e cinco anos não foi apenas tecnológica, foi existencial. Deixamos para trás a estabilidade de um mundo analógico e entramos em uma era em que a velocidade do processamento frequentemente ultrapassa a lentidão necessária ao pensamento.

Talvez por isso o silêncio recuperado deste quarto continue sendo tão importante. Ele representa o último reduto da subjetividade em um mundo saturado de dados. É aqui que o indivíduo preserva a capacidade de interpretar o tempo em que vive e de resistir à tentação de reduzir a experiência humana a algoritmos.

Pois, embora o turbilhão de crises e transformações possa sugerir que o século XXI carece de sentido, a verdade é que o sentido do nosso tempo continuará sempre sendo reconstruído por aqueles que insistirem em pensar e escrever. É justamente nessa persistência silenciosa, humana e imperfeita que a esperança encontra uma forma concreta de existência.

Talvez seja justamente por isso que continuo escrevendo.

Em um tempo dominado pelo ruído das máquinas e pela vertigem dos acontecimentos, cada palavra cuidadosamente pensada ainda é um pequeno gesto de Humanidade.

Assim, para mim, escrever permanece como uma forma concreta de manter viva a esperança. 


* Imagem inicial: Victor Meirelles (1832–1903), Cabeça de homem (com barba). Óleo sobre tela, c. 1856.