CONVERSA SOBRE DIAMANTES
Reno Viana
O livro “Diamantes não são para sempre”, de Edna Maria Viana Soares, foi publicado no final de 2025, pela editora Girassóis.
Desde então, eu tenho tentado escrever uma resenha sobre a obra. Não consegui.
A autora é minha irmã. A família retratada é a minha. E, para agravar o drama, fui leitor crítico da obra antes de sua publicação — embora nenhuma das minhas sugestões tenha sido acatada.
Restava-me um único caminho: ouvir a autora.
Foi o que fiz.
A conversa transcrita a seguir aconteceu em uma das novas cafeterias de Vitória da Conquista, dessas que brotam como refúgios urbanos entre o frio súbito da cidade e o vai-e-vem apressado das ruas. O mês é fevereiro de 2026. Mas chovia — e fazia frio, como só Conquista sabe contrariar o calendário. Do lado de fora, a chuva insistente desenhava véus nas vidraças. Do lado de dentro, o aroma intenso do café expresso aquecia o ambiente e estimulava o fluir da conversa, como se cada gole ajudasse a decantar lembranças e a dar forma às palavras.
— Edna, de onde nasce sua vocação para a escrita?
— A escrita surgiu muito cedo em minha vida. Ainda menina, na rua 7 de Setembro, eu escrevia diários íntimos e poesias. A par disto, cresci ouvindo histórias da família, da cidade, da vida miúda e dos grandes feitos. Nossa mãe, Blandina, era uma narradora natural. O que faço hoje é uma espécie de continuidade consciente dessa tradição oral. Transformo memória em texto, mas sem retirar dela o calor humano.
— Como foi sua formação universitária?
— Minha trajetória universitária começou na antiga Faculdade de Formação de Professores de Vitória da Conquista, hoje integrada à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Foi ali que iniciei meus estudos em Letras e consolidei minha vocação para a docência e para a literatura.
Posteriormente, ampliei minha formação na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde aprofundei meu interesse pela Literatura e pelo seu duplo, a crítica literária, em seu diálogo com a História Cultural.
Na UFBA cursei graduação em Letras Vernáculas e especialização em Língua e Literatura.
O mestrado em Letras foi realizado na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), etapa fundamental para a consolidação da pesquisa acadêmica e para o amadurecimento das reflexões sobre memória, cidade e processos culturais.
Já o doutorado em Letras, com ênfase em Filologia e Crítica Textual, foi realizado na Universidade de Lisboa, em Portugal, experiência que marcou profundamente meu modo de lidar com documentos, manuscritos e arquivos. O rigor filológico aprendido ali tornou-se uma base metodológica decisiva na escrita de “Diamantes não são para sempre”.
Paralelamente, realizei também especialização em Administração de Recursos Humanos, formação que dialoga com minha atuação como consultora técnica no banco Baneb e que contribuiu para a organização estrutural e metodológica do livro.
Paralelo ao curso de Administração de RH, fiz o percurso de Formação de Facilitadores do Processo Criativo, no Instituto Latino-Americano de Criatividade e Estratégia, o ILACE, em parceria com a University of the State of New York, em Buffalo, nos EUA.
— Essa formação em criatividade influenciou o livro?
— Essa formação foi decisiva, embora nem sempre apareça de forma explícita. No Instituto Latino-Americano de Criatividade e Estratégia, em parceria com a University of the State of New York, aprendi que criatividade não é improviso, é processo.
Ao escrever “Diamantes não são para sempre”, percebi que não estava apenas reunindo documentos e organizando genealogias. Eu conduzia um percurso de memória. Escutava relatos, estimulava lembranças, ajudava a organizar narrativas dispersas. De certo modo, atuei como facilitadora de um processo coletivo de elaboração do passado.
A Crítica Textual me ofereceu rigor. A formação em criatividade me deu método para integrar razão e intuição. Uma garantiu a fidelidade às fontes, a outra permitiu a costura simbólica entre pedra, tempo e linhagem.
Talvez por isso o livro não seja apenas um registro histórico, mas um espaço de mediação afetiva entre gerações. Escrever “Diamantes” foi, também, facilitar um reencontro da família consigo mesma.
— Além de “Diamantes”, quais suas outras obras publicadas?
— “Uma cidade dia sim dia não: Salvador nas crônicas de Vasconcelos Maia”, publicado pela EDUNEB, em 2015.
Tenho também artigos publicados no Brasil e em Portugal.
Recentemente participei da coletânea internacional “Conexões Atlânticas 2024”.
— Como dialogam seus livros “Uma cidade dia sim dia não” e “Diamantes não são para sempre”?
— São livros irmãos, embora distintos.
“Uma cidade dia sim dia não” olha para Salvador e para seus processos de transformação urbana e cultural.
Já “Diamantes não são para sempre” volta-se para a memória familiar nas Lavras Diamantinas.
Um investiga a cidade, o outro, a linhagem. Mas ambos tratam da mesma matéria: tempo, pertencimento e permanência.
— Como foi o seu estudo sobre o escritor Vasconcelos Maia?
— Analisei suas crônicas no Jornal da Bahia, entre 1958 e 1964. Ele registrou a modernização de Salvador. Valorizou a cultura popular e as raízes negras. Sua escrita contribuiu para a tradição soteropolitana moderna.
— O que é o livro “Diamantes não são para sempre”?
— A reconstrução da saga de uma família baiana ao longo de quatro séculos. A narrativa acompanha as transformações desde o Brasil Imperial até hoje, da riqueza da mineração à simplicidade do interior. Mais que História, celebra identidade e resiliência.
— Que período a saga cobre?
— Do século XVIII ao XXI.
Começa em 1769, em Cachoeira. Passa pelo ciclo minerador no século XIX. Registra a migração no século XX. E chega à consolidação da memória no século XXI.
— Como se deu o processo de escrita?
— Uma tecelagem entre oralidade e pesquisa histórica. Combinei memória coletiva com documentos oficiais e eclesiásticos. Atuei como ponte entre tradição oral e registro histórico.
— No livro, você aparece como escritora ou como herdeira da memória?
— Como ambas. O livro nasceu de um desejo íntimo. Preservar a história familiar antes que se perdesse. Tecendo fragmentos herdados de nossa mãe, de nossa avó Julieta e de nossas tias, busquei salvaguardar o legado das Lavras Diamantinas.
— A genealogia, para você, é ciência, literatura ou memória afetiva?
— As três coisas ao mesmo tempo. A genealogia me interessa como método, cruzamento de fontes, arquivos, registros paroquiais, jornais antigos. Mas também como narrativa.
— Quais espaços atravessam a narrativa?
— Do Recôncavo às Lavras Diamantinas. Lençóis, Andaraí, Mucugê, Palmeiras. Depois, o deslocamento para o Planalto da Conquista. Vitória da Conquista, Poções e Anagé.
— O que simboliza o fim do ciclo do diamante?
— A reinvenção. O abandono do garimpo foi ruptura necessária. A nova relação com a terra inaugura outros caminhos.
— No percurso da saga familiar, que significado assumem, no contexto do livro, Vitória da Conquista e Anagé?
— Representam a passagem do esplendor para a permanência.
Se as Lavras Diamantinas simbolizam o tempo da abundância mineral, Vitória da Conquista marca o tempo da reconstrução, o lugar onde a família reorganiza a vida após o declínio do garimpo. Não há mais o brilho súbito das pedras, mas a solidez do recomeço.
Já Anagé simboliza o enraizamento. É o território onde a narrativa sugere uma nova relação com a terra, menos marcada pela extração e mais pela permanência.
Se o diamante foi o sonho, o Planalto da Conquista foi o abrigo.
— Há uma dimensão política na sua escrita?
— Sim. Escrever memória é um gesto político. Ao registrar trajetórias de famílias do interior da Bahia, ao recuperar vozes que não aparecem nos grandes manuais, estou reivindicando um lugar no discurso da História. A micro-história me fascina exatamente por isso, ela ilumina o que parecia pequeno, escreve a história a contrapelo.
— Qual o papel das mulheres na obra?
— Central. Foram guardiãs da memória. Nossa mãe, quase centenária, catalisou o projeto. São elas que mantiveram a tradição oral e pediram que fosse registrada.
— O que significa, hoje, escrever sobre sua própria família?
— Significa honrar os mortos e dialogar com os vivos.
Significa atender ao pedido de nossa mãe, que um dia me perguntou por que eu escrevia sobre os outros e não sobre os nossos.
“Diamantes não são para sempre” é, antes de tudo, uma resposta a ela.
A chuva então parou. O sol parecia querer voltar.
Encerrei a conversa com a impressão de que “Diamantes” não é apenas um livro sobre pedras preciosas.
É sobre o que permanece quando elas desaparecem...
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| Edna Maria Viana Soares |


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