07 março 2026

ENTRE DIAMANTES E ESMERALDAS

 



 

ENTRE DIAMANTES E ESMERALDAS

Uma conversa sobre livros, memórias e outras pedras raras

 

Reno Viana

 

 

“IMPRIMATUR

Examinadas estas páginas intituladas Entre Diamantes e Esmeraldas: uma conversa sobre livros, memórias e outras pedras raras, onde memória, livros e caminhos do interior da Bahia se entrelaçam, nada encontramos que impeça sua livre circulação.

Elas trazem o mérito de recordar que certas histórias, como as pedras raras, permanecem ocultas até que alguém as descubra.

Conceda-se, portanto, passagem a estas palavras.

Os leitores decidirão o restante.

Concedido em alguma biblioteca imaginária do Sertão da Ressaca, no ano de 2026.”

 

(Edna Maria Viana Soares. Mensagem pessoal enviada por WhatsApp em 07 de março de 2026)

 


I - Conversa sobre diamantes

 

O livro “Diamantes não são para sempre”, de Edna Maria Viana Soares, foi publicado no final de 2025, pela editora Girassóis. 

Desde então, eu tenho tentado escrever uma resenha sobre a obra. Não consegui.

A autora é minha irmã. A família retratada é a minha. E, para agravar o drama, fui leitor crítico da obra antes de sua publicação — embora nenhuma das minhas sugestões tenha sido acatada.

Restava-me um único caminho: ouvir a autora. 

Foi o que fiz.

A conversa transcrita a seguir aconteceu em uma das novas cafeterias de Vitória da Conquista, dessas que brotam como refúgios urbanos entre o frio súbito da cidade e o vai-e-vem apressado das ruas. O mês é fevereiro de 2026. Mas chovia — e fazia frio, como só Conquista sabe contrariar o calendário. Do lado de fora, a chuva insistente desenhava véus nas vidraças. Do lado de dentro, o aroma intenso do café expresso aquecia o ambiente e estimulava o fluir da conversa, como se cada gole ajudasse a decantar lembranças e a dar forma às palavras.

 

— Edna, de onde nasce sua vocação para a escrita?

— A escrita surgiu muito cedo em minha vida. Ainda menina, na rua 7 de Setembro, eu escrevia diários íntimos e poesias. A par disto, cresci ouvindo histórias da família, da cidade, da vida miúda e dos grandes feitos. Nossa mãe, Blandina, era uma narradora natural. O que faço hoje é uma espécie de continuidade consciente dessa tradição oral. Transformo memória em texto, mas sem retirar dela o calor humano.

 

— Como foi sua formação universitária?

— Minha trajetória universitária começou na antiga Faculdade de Formação de Professores de Vitória da Conquista, hoje integrada à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Foi ali que iniciei meus estudos em Letras e consolidei minha vocação para a docência e para a literatura.

Posteriormente, ampliei minha formação na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde aprofundei meu interesse pela Literatura e pelo seu duplo, a crítica literária, em seu diálogo com a História Cultural. 

Na UFBA cursei graduação em Letras Vernáculas e especialização em Língua e Literatura.

O mestrado em Letras foi realizado na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), etapa fundamental para a consolidação da pesquisa acadêmica e para o amadurecimento das reflexões sobre memória, cidade e processos culturais.

Já o doutorado em Letras, com ênfase em Filologia e Crítica Textual, foi realizado na Universidade de Lisboa, em Portugal, experiência que marcou profundamente meu modo de lidar com documentos, manuscritos e arquivos. O rigor filológico aprendido ali tornou-se uma base metodológica decisiva na escrita de “Diamantes não são para sempre”.

Paralelamente, realizei também especialização em Administração de Recursos Humanos, formação que dialoga com minha atuação como consultora técnica no banco Baneb e que contribuiu para a organização estrutural e metodológica do livro.

Paralelo ao curso de Administração de RH, fiz o percurso de Formação de Facilitadores do Processo Criativo, no Instituto Latino-Americano de Criatividade e Estratégia, o ILACE, em parceria com a University of the State of New York, em Buffalo, nos EUA.

 

— Essa formação em criatividade influenciou o livro?

— Essa formação foi decisiva, embora nem sempre apareça de forma explícita. No Instituto Latino-Americano de Criatividade e Estratégia, em parceria com a University of the State of New York, aprendi que criatividade não é improviso, é processo.

Ao escrever “Diamantes não são para sempre”, percebi que não estava apenas reunindo documentos e organizando genealogias. Eu conduzia um percurso de memória. Escutava relatos, estimulava lembranças, ajudava a organizar narrativas dispersas. De certo modo, atuei como facilitadora de um processo coletivo de elaboração do passado.

A Crítica Textual me ofereceu rigor. A formação em criatividade me deu método para integrar razão e intuição. Uma garantiu a fidelidade às fontes, a outra permitiu a costura simbólica entre pedra, tempo e linhagem.

Talvez por isso o livro não seja apenas um registro histórico, mas um espaço de mediação afetiva entre gerações. Escrever “Diamantes” foi, também, facilitar um reencontro da família consigo mesma. 

 

— Além de “Diamantes”, quais suas outras obras publicadas?

— “Uma cidade dia sim dia não: Salvador nas crônicas de Vasconcelos Maia”, publicado pela EDUNEB, em 2015.

Tenho também artigos publicados no Brasil e em Portugal.

Recentemente participei da coletânea internacional “Conexões Atlânticas 2024”.

 

— Como dialogam seus livros “Uma cidade dia sim dia não” e “Diamantes não são para sempre”?

— São livros irmãos, embora distintos.

“Uma cidade dia sim dia não” olha para Salvador e para seus processos de transformação urbana e cultural.

Já “Diamantes não são para sempre” volta-se para a memória familiar nas Lavras Diamantinas.

Um investiga a cidade, o outro, a linhagem. Mas ambos tratam da mesma matéria: tempo, pertencimento e permanência.

 

— Como foi o seu estudo sobre o escritor Vasconcelos Maia?

— Analisei suas crônicas no Jornal da Bahia, entre 1958 e 1964. Ele registrou a modernização de Salvador. Valorizou a cultura popular e as raízes negras. Sua escrita contribuiu para a tradição soteropolitana moderna.

 

— O que é o livro “Diamantes não são para sempre”?

— A reconstrução da saga de uma família baiana ao longo de quatro séculos. A narrativa acompanha as transformações desde o Brasil Imperial até hoje, da riqueza da mineração à simplicidade do interior. Mais que História, celebra identidade e resiliência.

 

— Que período a saga cobre?

— Do século XVIII ao XXI.

Começa em 1769, em Cachoeira. Passa pelo ciclo minerador no século XIX. Registra a migração no século XX. E chega à consolidação da memória no século XXI.

 

— Como se deu o processo de escrita?

— Uma tecelagem entre oralidade e pesquisa histórica. Combinei memória coletiva com documentos oficiais e eclesiásticos. Atuei como ponte entre tradição oral e registro histórico.

 

— No livro, você aparece como escritora ou como herdeira da memória?

— Como ambas. O livro nasceu de um desejo íntimo. Preservar a história familiar antes que se perdesse. Tecendo fragmentos herdados de nossa mãe, de nossa avó Julieta e de nossas tias, busquei salvaguardar o legado das Lavras Diamantinas.

 

— A genealogia, para você, é ciência, literatura ou memória afetiva?

— As três coisas ao mesmo tempo. A genealogia me interessa como método, cruzamento de fontes, arquivos, registros paroquiais, jornais antigos. Mas também como narrativa.

 

— Quais espaços atravessam a narrativa?

— Do Recôncavo às Lavras Diamantinas. Lençóis, Andaraí, Mucugê, Palmeiras. Depois, o deslocamento para o Planalto da Conquista. Vitória da Conquista, Poções e Anagé.

 

— O que simboliza o fim do ciclo do diamante?

— A reinvenção. O abandono do garimpo foi ruptura necessária. A nova relação com a terra inaugura outros caminhos.

 

— No percurso da saga familiar, que significado assumem, no contexto do livro, Vitória da Conquista e Anagé?

— Representam a passagem do esplendor para a permanência.

Se as Lavras Diamantinas simbolizam o tempo da abundância mineral, Vitória da Conquista marca o tempo da reconstrução, o lugar onde a família reorganiza a vida após o declínio do garimpo. Não há mais o brilho súbito das pedras, mas a solidez do recomeço.

Já Anagé simboliza o enraizamento. É o território onde a narrativa sugere uma nova relação com a terra, menos marcada pela extração e mais pela permanência.

Se o diamante foi o sonho, o Planalto da Conquista foi o abrigo.

 

— Há uma dimensão política na sua escrita?

— Sim. Escrever memória é um gesto político. Ao registrar trajetórias de famílias do interior da Bahia, ao recuperar vozes que não aparecem nos grandes manuais, estou reivindicando um lugar no discurso da História.  A micro-história me fascina exatamente por isso, ela ilumina o que parecia pequeno, escreve a história a contrapelo. 

 

— Qual o papel das mulheres na obra?

— Central. Foram guardiãs da memória. Nossa mãe, quase centenária, catalisou o projeto. São elas que mantiveram a tradição oral e pediram que fosse registrada.

 

—  O que significa, hoje, escrever sobre sua própria família?

— Significa honrar os mortos e dialogar com os vivos.

Significa atender ao pedido de nossa mãe, que um dia me perguntou por que eu escrevia sobre os outros e não sobre os nossos.

“Diamantes não são para sempre” é, antes de tudo, uma resposta a ela.

 

*

 

A chuva então parou. O sol parecia querer voltar.

Encerrei a conversa com a impressão de que “Diamantes” não é apenas um livro sobre pedras preciosas.

 

É sobre o que permanece quando elas desaparecem...

 


II - Esmeraldas de Anagé

 

Entre os antigos diamantes das Lavras Diamantinas e as novas esmeraldas de Anagé, a nossa conversa continua.

O livro “Diamantes não são para sempre” foi publicado no final de 2025, pela editora Girassóis. A autora Edna Maria Viana Soares, Doutora em Letras pela Universidade de Lisboa, em Portugal, é minuciosa pesquisadora do movimento literário baiano.

Para entender melhor o caminho percorrido por esse livro, bem como as histórias que o cercam, restava um gesto simples, quase inevitável: ouvir a própria autora. Foi assim que essa nossa conversa começou.

Estávamos em uma das novas cafeterias de Vitória da Conquista, um desses lugares que surgem como pequenos refúgios urbanos entre o frio contumaz da cidade e o movimento apressado das ruas. Era fevereiro de 2026, mas chovia e fazia aquele frio teimoso que Conquista gosta de impor, mesmo quando o calendário promete calor.

Do lado de fora, a chuva desenhava véus nas vidraças. Do lado de dentro, o aroma do café expresso aquecia o ambiente e parecia convidar à conversa. Aos poucos, entre um gole e outro, as lembranças iam surgindo e as histórias começavam a se organizar. As palavras passavam a encontrar seu ritmo. Foi nesse clima de prosa tranquila, quase doméstica, que novas perguntas apareceram e que outras pedras do caminho literário vieram à superfície.

A chuva ainda caía sobre Vitória da Conquista quando a conversa tomou um novo rumo. O café continuava quente, as histórias também.

No início havíamos falado das antigas lavras de diamantes e da memória familiar da autora. Muitas dessas lembranças vinham da voz das mulheres da família, guardiãs de uma tradição oral que atravessou gerações. Essas narrativas remontavam às antigas Lavras Diamantinas, região marcada pelo ciclo do garimpo e pela vida intensa que girava em torno das pedras preciosas.

Com o tempo, os caminhos mudaram. A vida seguiu adiante. A memória familiar atravessou o sertão até encontrar novas raízes no Planalto da Conquista.

É justamente desse percurso, da Chapada Diamantina ao sertão conquistense, que nasce a escrita de Edna. Uma forma delicada de transformar lembranças de família em reflexão sobre o tempo, o pertencimento e aquilo que permanece depois que as gerações passam.

Mas, se no início havíamos falado das antigas lavras de diamantes e da memória familiar da autora, agora a conversa se deslocava para outra questão: como os livros encontram seus caminhos no interior da Bahia? Como nasce um livro? Por quais caminhos ele chega às mãos dos leitores? E quem são as pessoas, quase sempre invisíveis, que ajudam as histórias a circular, sobretudo longe das grandes capitais?

Foi a partir dessas perguntas que o nosso diálogo continuou.

O olhar se deslocou. Afastou-se das pedras que simbolizavam a memória das Lavras Diamantinas, em direção a outras pedras simbólicas do caminho literário, as “esmeraldas” de Anagé.

A metáfora é simples, mas bonita. Pequenas iniciativas culturais que, surgindo em cidades do interior, ajudam a manter viva essa antiga necessidade humana de contar histórias.

Em Anagé, ali onde o solo guarda veios de valiosas esmeraldas, parece existir também uma forma diferente de mineração. Mais silenciosa, mas não menos valiosa. Não se trata de escavar a terra, mas de lapidar palavras, ideias e projetos culturais que fazem livros nascerem e encontrarem seus leitores. Como as pedras verdes que às vezes aparecem no fundo da terra, essas iniciativas literárias surgidas no interior profundo mostram que a cultura também brota em lugares distantes dos grandes centros. E quando brota, surpreende. São, por assim dizer, esmeraldas de Anagé. Pequenos focos de criação, edição e partilha de histórias que, pouco a pouco, passam a irradiar seu brilho no mapa cultural da Bahia.

 

— Edna, por que escrever a história da própria família?

— Essa pergunta me acompanha desde o início. Durante muitos anos me dediquei à pesquisa literária e histórica. Estudei autores, textos, processos de transmissão das obras. Mas em determinado momento percebi que a História também estava muito perto de mim, dentro da própria família.

Nossa mãe, D. Blandina, ou Ziza, como todos a chamam, sempre foi uma grande contadora de histórias. Daquelas pessoas que falam e, de repente, a sala inteira se transforma em cenário. E havia nela um desejo silencioso, que era ver essas histórias registradas em livro.

Foi ela quem um dia me provocou: “Você passou tanto tempo pesquisando e escrevendo sobre pessoas que nem conhece… por que não escreve a história da sua própria família?”

A pergunta ficou ecoando. Funcionou como um desafio.

Assim nasceu “Diamantes não são para sempre”, um livro que procura reconstruir trajetórias familiares ligadas às Lavras Diamantinas, reunindo memória oral, documentos e narrativa.

 

— Ao longo da sua trajetória acadêmica você também estudou o movimento literário baiano. O que essa pesquisa revelou?

— Ao investigar a trajetória de escritores baianos do século XX, especialmente a do escritor Vasconcelos Maia, percebi que a história da Literatura regional está profundamente ligada às condições de circulação dos livros.

Nos anos 1950, a vida literária na Bahia era intensa. Jornais e revistas mantinham suplementos culturais ativos, concursos revelavam novos autores e antologias reuniam contistas de diferentes regiões.

Mas a estrutura editorial ainda era frágil.

Muitos escritores publicavam sobretudo em periódicos e enfrentavam dificuldades para transformar seus textos em livros. O próprio Vasconcelos Maia, reconhecido em antologias nacionais e estrangeiras, chegou a atuar como seu próprio editor, republicando textos e reorganizando versões para manter sua obra em circulação.

Esse episódio revela algo importante. Em vários momentos da história literária brasileira, os autores precisaram inventar seus próprios caminhos editoriais.

 

— Essa reflexão dialoga com sua própria experiência como autora?

— Sem dúvida. Quando escrevemos sobre Literatura, muitas vezes observamos o sistema editorial de fora, quase como pesquisadores diante de um objeto de estudo. Mas quando chega o momento de publicar um livro, tudo muda.

Passamos a viver essas questões na prática.

“Diamantes não são para sempre” nasceu como um projeto de pesquisa e memória. Aos poucos foi se transformando também em um projeto editorial, um livro que precisava encontrar forma material, edição, leitores.

Esse percurso ensina muito a qualquer autor.

Porque escrever é uma coisa. Fazer um livro existir no mundo é outra.

 

— Como foi o encontro do seu livro com a editora?

— O livro acabou encontrando acolhida na Girassóis Editora, que assumiu o projeto com grande sensibilidade.

Esse detalhe tem para mim um significado especial.

A editora está vinculada a um trabalho cultural mais amplo desenvolvido pela Associação Girassóis, coordenada por Laurinda Soares Nascimento, que há anos promove leitura e imaginação por meio da contação de histórias em hospitais.

Há algo de profundamente simbólico nisso.

Um livro que nasce da memória familiar e da tradição oral acaba sendo publicado por uma iniciativa que valoriza justamente a arte de contar histórias.

Como se a narrativa retornasse à sua fonte.

 

— Existe também um curioso encontro de origens nesse processo editorial, não?

— Sim, é um detalhe muito bonito.

Duas iniciativas que hoje ajudam a dinamizar a circulação de livros no interior da Bahia têm raízes na mesma cidade: Anagé, antigo distrito de Vitória da Conquista.

De um lado está a editora Casarão do Verbo, ligada a Rosel Soares, que desenvolve importantes projetos editoriais e culturais voltados à promoção da leitura.

De outro, a Girassóis Editora, responsável pela publicação de “Diamantes não são para sempre”, vinculada ao trabalho cultural da Associação Girassóis, liderada pela professora Laurinda Soares.

A propósito, esse nome, Laurinda Soares, era também o nome da nossa avó paterna, antiga matriarca muito conhecida na cidade de Anagé.

Há ainda um outro elo. O livro traz ilustrações de Tony de Pádua, cartunista, paleontólogo e professor residente em Lindo Horizonte, distrito de Anagé.

Pode parecer apenas um detalhe biográfico. Mas ele revela algo maior.

De uma pequena cidade do interior acabam surgindo iniciativas culturais que irradiam influência para uma região mais ampla. Essas iniciativas ajudam a dinamizar a circulação de livros e projetos culturais tanto no Sertão da Ressaca, no entorno de Vitória da Conquista, quanto na Chapada Diamantina.

Como acontece com as pedras preciosas que brotam da terra, certas experiências culturais também surgem em lugares inesperados.

E passam a brilhar muito além de sua origem.

São, de certo modo, como as admiradas esmeraldas de Anagé.

 

— Essas iniciativas culturais têm ligações curiosas com a cidade de Anagé. Há algo de especial acontecendo ali naquela cidade?

— É interessante perceber isso. Anagé sempre foi conhecida pela mineração de esmeraldas. Mas, de algum modo, parece que também começaram a surgir ali outras “pedras preciosas”. Projetos culturais, editoras, escritores. Talvez seja apenas coincidência. Ou talvez seja mais um daqueles casos em que uma pequena cidade acaba se transformando em ponto de encontro de histórias e de iniciativas culturais.

 

— Já que estamos falando de iniciativas surgidas em Anagé, vamos falar da experiência da editora Casarão do Verbo. Você acompanhou de perto esse trabalho, não?

— Tenho uma relação de proximidade com a editora Casarão do Verbo desde os seus primeiros anos. Em alguns momentos colaborei como freelancer em determinadas publicações. Mas, desde a fundação da editora acompanho com interesse seus lançamentos e iniciativas culturais. A Casarão do Verbo tem sede em Anagé, no Vale do Rio Gavião. Foi fundada em 2007, sob a liderança do editor Rosel Bonfim Soares.

O trabalho desenvolvido ali tem algo de admirável, quase heroico mesmo. Manter uma editora ativa no interior da Bahia, longe dos grandes centros editoriais, exige perseverança, paixão pelos livros e uma forte crença no valor da cultura.

 

— Em sua visão, qual é o significado do projeto cultural da editora Casarão do Verbo?

— A editora nasceu com um propósito muito claro, que era publicar livros e incentivar a leitura na região. Ao longo dos anos, foi reunindo autores diversos e ampliando seu catálogo, sempre com atenção especial à valorização da Literatura. Entre os escritores publicados estão nomes como Hélio Pólvora, Armando Avena, Fernando Conceição, Antonio Calloni, Adilson Soares Vieira, dentre outros. Alguns desses autores chegaram a figurar entre os finalistas de importantes prêmios literários brasileiros, como o Jabuti e o Oceanos, o que mostra que iniciativas culturais nascidas em cidades pequenas também podem alcançar reconhecimento mais amplo.

O próprio nome da editora carrega um significado bonito. “Casarão do Verbo” remete a um antigo casarão, quase centenário, localizado no centro de Anagé. Na calçada desse casarão, ao longo de muitas décadas, gerações de moradores se sentaram para conversar, contar histórias e ouvir causos. A editora recupera simbolicamente esse espaço de encontro. O lugar onde a palavra circula livremente e onde as histórias continuam a nascer.

 

— A Girassóis Editora está ligada a um trabalho cultural mais amplo da Associação Girassóis. Você poderia explicar como nasceu essa iniciativa?

— A Girassóis Editora, responsável pela publicação de “Diamantes não são para sempre”, está ligada ao trabalho cultural da Associação Girassóis, conduzida por Laurinda Soares Nascimento, neta da matriarca anageense de mesmo nome.

Mais do que uma editora, a iniciativa nasce de um gesto de cuidado com a palavra e com as pessoas. A associação surgiu de uma inquietação muito humana, que era aproximar a vida da imaginação e da palavra. Desde o início, suas ações se concentraram em torno da leitura, buscando levar histórias a lugares onde elas são especialmente necessárias.

Para isso, seus voluntários escolheram um caminho pouco convencional. Em vez de esperar o leitor nas bibliotecas ou em salas tradicionais de leitura, eles levam as histórias até os corredores de hospitais e os leitos de crianças hospitalizadas. Ali, entre aparelhos médicos e rotinas difíceis, as histórias ganham um sentido novo. Ler passa a ser também um gesto de cuidado.

A própria origem da associação está ligada a uma experiência pessoal vivida por um de seus participantes-fundadores, o que ajuda a explicar a sensibilidade especial com que o grupo se dirige a esse público.

O livro, em sua materialidade, ocupa um lugar central nesse trabalho. Além de contar histórias, os voluntários também distribuem livros recebidos por meio de doações.

 

— Em que momento o trabalho da Associação Girassóis com a leitura acabou se desdobrando também na criação da Girassóis Editora?

— Com o tempo, a Associação Girassóis ampliou naturalmente seus horizontes e passou a abraçar também a atividade editorial. Era quase um desdobramento natural do trabalho que já realizava com a leitura. Como os girassóis que voltam seu rosto para o sol em busca de luz, o grupo encontrou na palavra escrita uma forma de continuar nutrindo aquilo que considera essencial.

Tive a oportunidade de atuar na coordenação editorial de livros lançados pela Girassóis Editora, acompanhando de perto esse processo de transformação das histórias em livros.

Quando se observa o conjunto dessas iniciativas, percebe-se algo muito bonito. Muitas vezes tudo começa de maneira simples, quase silenciosa. Publicar um livro aqui, organizar um lançamento ali, reunir algumas pessoas em torno de uma história. Aos poucos, porém, esses gestos vão criando uma rede de encontros entre autores, leitores e narrativas.

No fundo, cada livro publicado é também um convite para que novas histórias continuem sendo contadas.

 

— Outros autores da sua família também têm buscado caminhos editoriais?

— Sim. Isso mostra como a Literatura pode se tornar uma experiência compartilhada.

Autores como Antônio Ernesto Viana Soares e Adilson Soares Vieira, por exemplo, têm procurado soluções editoriais para seus projetos literários. Bem como você, Reno Viana (risos).

Em alguns casos, recorreram a editoras de outras regiões do país, como a editora Kelps, de Goiânia, que tem publicado os livros de Antônio Ernesto.

Essa diversidade de caminhos revela algo importante sobre o momento atual do livro no Brasil. Os autores têm explorado diferentes possibilidades, dialogando com editoras independentes e ampliando os circuitos de circulação de suas obras.

Cada livro encontra seu próprio percurso.

E cada percurso acaba ampliando o mapa da Literatura.

 

— O que a experiência de publicar “Diamantes não são para sempre” lhe ensinou?

— Talvez a principal lição seja simples: a Literatura é sempre um trabalho coletivo. Existe, claro, o momento solitário da escrita. O autor diante da página em branco. Mas o livro só ganha vida quando entra em contato com outras pessoas, editores, ilustradores, revisores, prefaciadores, pesquisadores, leitores, instituições culturais.

Cada lançamento, cada conversa com leitores, cada encontro em torno de um livro mostra que a Literatura continua sendo uma forma de construir pontes entre memória, história e comunidade.

 

— Ainda faz sentido falar em mercado editorial na Bahia?

— Talvez hoje seja mais adequado falar em rede literária. Uma rede formada por editoras independentes, coletivos culturais, autores que buscam caminhos criativos para publicar seus livros e leitores que continuam interessados em boas histórias.

No fundo, o que mantém a Literatura viva não é apenas o mercado. É algo mais antigo e mais humano. É a persistência da palavra. É a memória que insiste em ser contada. É a vontade profunda que as pessoas têm de compartilhar histórias.

Se nas Lavras Diamantinas o brilho do diamante marcou o tempo da abundância mineral, talvez hoje, em outros lugares do sertão, surjam pedras diferentes. Pedras verdes, mais discretas. Mas igualmente luminosas. São essas pequenas iniciativas culturais, editoras, projetos de leitura, redes de escritores, que continuam fazendo a Literatura circular. Talvez seja assim que a história iniciada entre os diamantes das Lavras Diamantinas continue a brilhar, agora sob outra forma, em outra paisagem. Mas movida pela mesma força, que é a memória transformada em palavra.

 

*

 

Assim, entre um gole e outro de café, as histórias iam surgindo quase naturalmente, como se estivessem apenas esperando o momento certo para serem ditas. Como acontece nas boas prosas, uma ideia puxa outra, uma lembrança chama a seguinte. Talvez por isso tantas narrativas nasçam de conversas simples, como aquela que tivemos ali, à mesa daquela cafeteria de Vitória da Conquista, enquanto a chuva batia nas vidraças e o café quente prolongava a prosa.

Assim continuou o diálogo, revelando que, além dos antigos diamantes, existem hoje outras pedras simbólicas sendo lapidadas. Histórias e iniciativas culturais que nascem discretamente. Talvez seja assim mesmo que as histórias continuam vivendo. Mudando de forma, mudando de paisagem, mas permanecendo.

Mesmo depois que os diamantes se foram, algumas riquezas continuaram brilhando.  Às vezes elas reaparecem em pedras mais discretas, como essas pequenas iniciativas culturais surgidas no interior do Brasil profundo.

 

Elas são, afinal, como as admiradas esmeraldas de Anagé.

 





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