SILÊNCIO E MEMÓRIA
Reno Viana
Os corredores do Fórum João Mangabeira, naquela tarde de março de 2026, guardavam o eco de passos antigos. Do lado de fora, o céu de Vitória da Conquista insistia em um tom cinza, desses que parecem suspender o tempo. Foi nesse cenário, entre paredes que conhecem leis e esquecimentos, que esta conversa começou.
Não começou por acaso, mas movida por um propósito muito claro. Conhecer mais de perto a trajetória e o pensamento da professora Ângela Maria de Jesus Souza, autora da importante dissertação “A (In)visibilidade de Negros e Indígenas no Memorial Casa Governador Régis Pacheco: Uma proposta decolonial para o ensino de História”.
Sua presença ali era fruto de um encontro cuidadosamente tecido. Ângela chegou com a serenidade de quem carrega não apenas livros, mas histórias que foram negadas. Ela foi trazida ao Fórum pelo líder comunitário Marcos Rocha, figura reconhecida em Vitória da Conquista por sua atuação firme nas pautas sociais e no sistema de justiça, alguém acostumado a transformar inquietações em ação concreta. Ao seu lado, o professor Osmundo Macário, também da rede pública, historiador de formação sólida e olhar crítico, cuja trajetória, marcada pela origem periférica e pelo compromisso com a educação, conferia densidade às discussões sobre memória e pertencimento.
Assim, ao se formarem em roda naquele espaço institucional, não se reuniam apenas três vozes, mas três percursos distintos, profundamente entrelaçados pelo desejo comum de revisitar a história da cidade e devolver voz àqueles que dela foram silenciados. Como se, naquele instante, o próprio Fórum se tornasse não apenas lugar de julgamento, mas também de escuta.
Entre eles, também se fazia presente este narrador. Não como protagonista, mas como uma espécie de testemunha atenta, quase silenciosa, recolhendo cada palavra como quem recolhe vestígios. Sentado ali, no mesmo círculo, ouvia os depoimentos de Ângela Maria, Osmundo Macário e Marcos Rocha com a consciência de que não se tratava apenas de uma conversa, mas de um encontro com camadas profundas da memória da cidade. O olhar transitava entre as vozes e o espaço, entre o que era dito e o que aquele velho Fórum parecia guardar. Percebendo que, mais do que registrar falas, cabia acolher sentidos, organizar silêncios e dar forma narrativa àquilo que, por tanto tempo, permanecera disperso ou invisível.
Ângela não começou falando de teoria. Começou falando de si. Filha de uma mulher negra, lavadeira, crescida nas margens sociais da cidade, ela descreve sua trajetória como uma travessia. A universidade, diz ela, não foi um destino natural, mas uma ruptura. E talvez por isso sua pesquisa não foi apenas acadêmica. Foi também um gesto de retorno, um esforço de reinscrever no mapa da cidade aqueles que sempre estiveram ali, mas que raramente eram nomeados.
Ao falar do Memorial Casa Governador Régis Pacheco, sua voz ganha densidade. Ela não o vê apenas como um espaço de preservação, mas como um território de disputa. O problema, explica, não está no que é mostrado, mas no que é ocultado. Negros e indígenas são figuras diluídas na paisagem, destituídas de qualquer protagonismo. O museu, que deveria ser lugar de memória, transforma-se em instrumento de esquecimento.
Osmundo Macário, inclinando levemente o corpo para frente, como quem reconhece aquela dor, acrescenta que essa invisibilidade não é acidental. Trata-se de um projeto. Um projeto antigo, cuidadosamente construído, que transforma a história em narrativa homogênea. Ele fala de um “mito colonizador” que organiza o passado como uma fábula. De um lado, o herói civilizador. Do outro, o silêncio imposto aos vencidos. E lembra que essa simplificação não apenas apaga, ela educa mal, forma consciências mutiladas.
Marcos Rocha, acostumado a transitar entre o sistema de justiça e as margens sociais, observa que esse apagamento histórico tem consequências concretas. Ele não vê a história como algo distante, mas como algo que se materializa nas desigualdades do presente. Quando fala da população carcerária, da periferia, dos trabalhadores invisíveis, ele sugere, sem precisar dizer diretamente, que o passado mal contado continua produzindo injustiça. A cidade que esquece quem a construiu também esquece quem precisa ser protegido.
É nesse ponto que a professora Ângela faz uma pausa mais longa, como quem reorganiza o próprio fôlego, introduzindo com firmeza a questão indígena. Ela lembra que os povos originários — Mongoiós, Camacãs, Pataxós e Ymborés — não foram figuras secundárias na história da região, mas protagonistas de uma resistência intensa à invasão de seus territórios. A narrativa oficial, no entanto, preferiu reduzi-los a um passado encerrado, como se tivessem sido completamente apagados pela marcha da “civilização”.
Marcos Rocha, com o olhar atento, observa que esse apagamento histórico tem efeitos concretos até hoje. Ele menciona comunidades que continuam lutando por reconhecimento, muitas vezes invisíveis para o poder público. A cidade que se orgulha de sua memória, diz ele, não reconhece aqueles que ainda carregam no corpo a continuidade desse percurso.
Ângela recorda, com certa indignação contida, o episódio da recusa de instalação de um monumento indígena na praça principal da cidade, sob o argumento de que “poluiria o visual”. A frase, aparentemente banal, revela muito. A memória indígena é tratada como algo inconveniente, deslocado, quase um ruído na paisagem urbana organizada para exaltar outros símbolos.
Osmundo complementa dizendo que esse tipo de exclusão simbólica reforça a ideia de que os indígenas pertencem ao passado, quando, na verdade, continuam presentes. Ele lembra que a história oficial fala em extermínio total, mas a realidade insiste em mostrar sobrevivência.
É então que Ângela traz à conversa uma imagem poderosa, as paneleiras da Batalha. Mulheres que moldam a argila como quem molda a própria lembrança. Ela descreve o gesto, mãos que giram o barro, olhos atentos, silêncio concentrado, como uma forma de resistência. Ali, naquelas panelas, não está apenas um objeto utilitário, mas a continuidade de uma identidade que se recusou a desaparecer.
A tradição das paneleiras, explica ela, é mais do que cultura. É um arquivo vivo. Cada peça carrega saberes ancestrais, transmitidos de geração em geração, desafiando a narrativa de que os povos indígenas teriam sido apagados. Ao contrário, eles permanecem, reinventando-se, resistindo, existindo.
Marcos Rocha observa que essa resistência também se manifesta na luta por território. Muitas dessas comunidades enfrentam dificuldades para manter suas terras, sendo empurradas para as periferias urbanas. Ainda assim, diz ele, mantêm um forte sentimento de pertencimento, uma ligação que não se rompe facilmente com o deslocamento físico.
A conversa então se desloca para um dos conceitos mais incômodos, o mito da “Suíça Baiana”. Ângela o descreve como uma espécie de fantasia coletiva, uma imagem cuidadosamente cultivada para projetar uma cidade branca, europeizada, civilizada. Mas essa imagem, insiste ela, tem um custo. Para que ela exista, é preciso apagar tudo aquilo que não se encaixa nela. E o que não se encaixa? A maioria da população. Negros, indígenas, trabalhadores pobres, todos empurrados para fora do quadro oficial.
Osmundo concorda, mas vai além. Afirma que esse mito não apenas oculta, ele legitima. Ao exaltar uma origem branca e europeia, a cidade justifica, ainda hoje, a distribuição desigual de espaços e oportunidades. Ele lembra que a história ensinada nas escolas, por muito tempo, reforçou essa ideia de civilização como algo trazido de fora, como se o sertão não tivesse produzido cultura, resistência e saber.
Há um momento de silêncio, desses que não interrompem, mas aprofundam. É quando surge o nome de João Gonçalves da Costa. A figura do “fundador” da cidade de Vitória da Conquista parece pairar sobre a conversa como um fantasma mal resolvido. Ângela então revela o que sua pesquisa escancarava. O herói celebrado como branco era, na verdade, um “preto forro”, um homem negro que nasceu escravizado.
O impacto dessa afirmação não está apenas no dado histórico, mas no que foi feito com ele. Ao longo dos séculos, explica ela, sua imagem foi cuidadosamente embranquecida, genealogicamente, simbolicamente e, por fim, visualmente. O retrato exposto no Memorial, pintado em 2008, apresenta um homem de traços europeus, apagando qualquer vestígio de ancestralidade africana. Não se trata de erro, trata-se de escolha.
Marcos Rocha observa que esse embranquecimento não é apenas uma questão estética. Ele é político. Ao transformar o fundador em um homem branco, a cidade reforça a ideia de que o poder, desde o início, pertenceu a uma elite específica. E isso legitima, ainda hoje, estruturas de exclusão.
Osmundo, com a sensatez de quem ensina, lembra que há uma ironia profunda nisso tudo. A própria figura exaltada como símbolo da civilização carrega, em sua origem, aquilo que a cidade tenta esconder. É como se a história oficial fosse construída sobre uma negação permanente, uma tentativa de manter intacta uma imagem que nunca correspondeu à realidade.
Ângela retorna então ao ponto central de sua pesquisa, a necessidade de uma abordagem “decolonial”. Para ela, não basta incluir negros e indígenas na narrativa, é preciso reorganizar a narrativa. Mudar o olhar. Permitir que os objetos, os espaços e as histórias sejam lidos a partir de outras perspectivas. Ela fala da “pedagogia do objeto”, da aula-oficina, da necessidade de formar alunos que questionem, investiguem e reconstruam o passado.
A conversa, que começou no campo da memória, chegou naturalmente à educação. Todos parecem concordar que a escola é o lugar onde essa disputa pode ser transformada. Onde o silêncio pode ser rompido. Onde o aluno da periferia pode, pela primeira vez, reconhecer-se como parte da história, não como exceção, mas como protagonista.
Quando a conversa se encerrou, já era noite.
Do lado de fora do Fórum, o tempo parecia ter desacelerado, como se a cidade, por um instante, estivesse disposta a ouvir aquilo que sempre evitou.
Ao final, Ângela não oferece uma conclusão, oferece um convite. É preciso, diz ela, enfrentar o “perigo da história única” e permitir que outras vozes ocupem os espaços de registro.
Ao nos despedirmos, ficou a sensação de que aquela conversa não terminou, mas apenas abriu uma fresta. Como uma porta antiga que range ao ser empurrada, depois de muito tempo fechada.
E talvez seja exatamente isso.
A história de Vitória da Conquista precisa, antes de tudo, ser finalmente ouvida.
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| Bandeirante João Gonçalves da Costa, retratado com as feições do ativista Marcos Rocha, em desenho do artista Nill Santos. |
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Professora Ângela Maria de Jesus Souza, com Osmundo Macário, Reno Viana e Marcos Rocha. |



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