SOBRE ARAR EM TERRA PRÓPRIA
Reno Viana
O verão desse início de 2026 em Vitória da Conquista veio carregado de chuva, dessas demoradas, que caem persistentes. A tarde úmida atravessava a cidade quando nos sentamos para conversar com o historiador Antonio Ernesto Viana Soares.
Não é uma conversa qualquer. Antonio Ernesto está diante de mim não apenas como personagem, mas também como meu irmão!
Talvez por isso o diálogo flua com naturalidade, sem formalidades rígidas, como se estivéssemos retomando histórias que já fazem parte de nossa memória familiar. Ainda assim, cada vez que ele começa a falar sobre o passado, percebe-se ser alguém que aprendeu a olhar a própria vida como documento.
Em determinado momento, enquanto mexe em alguns papéis e fotografias, Ernesto repete uma frase que costuma dizer sempre que fala de seu trabalho: “A história é feita de fragmentos.”
Ele explica que o historiador trabalha com restos de memória, cartas, depoimentos, cadernos esquecidos, fotografias amareladas, tentando recompor uma narrativa maior. Esta conversa nasce justamente desse espírito. Reunir fragmentos de diferentes momentos e organizá-los em um relato contínuo.
Em certo momento da conversa, quando falo das muitas voltas que sua vida deu, do seminário à militância estudantil, da pesquisa histórica à publicação de livros, Ernesto sorri com aquela expressão tranquila de quem já pensou bastante sobre o próprio percurso.
Diz então que gosta muito de uma frase que aprendeu ao longo da vida e que, segundo ele, resume bem sua experiência: “É caminhando que se abre caminho.”
Explica que nunca acreditou em trajetórias perfeitamente planejadas. Para ele, a vida se constrói passo a passo, muitas vezes sem que se saiba exatamente aonde se chegará. “A gente começa andando”, diz ele, quase como quem oferece um conselho, “e o caminho vai aparecendo.”
Começo perguntando sobre suas origens. Ernesto sorri e responde sem hesitar que nasceu em Vitória da Conquista, em 9 de junho de 1950. Mas rapidamente acrescenta que sua verdadeira raiz está em Anagé, então distrito rural conquistense, conhecido na época como Vila Nova.
“Minha família era de Anagé”, diz ele. “Venho de uma família profundamente ligada à política.”
Ele recorda que seu interesse pela vida pública surgiu cedo, quando ainda jovem começou a participar da militância estudantil. Naquele período aproximou-se da CIVUB, uma entidade que reunia estudantes do interior baiano e que teve papel importante na formação política de muitos jovens nos anos 1970.
Pergunto então sobre um episódio pouco conhecido de sua trajetória, sua passagem pelo seminário. Ernesto ri discretamente, como quem revisita uma escolha antiga. Conta que, em 1976, mudou-se para Salvador e ingressou no Seminário dos Capuchinhos, chegando a prestar vestibular para Teologia e Filosofia na Universidade Católica de Salvador.
Durante algum tempo acreditou que seguiria o caminho religioso, mas logo percebeu que não possuía vocação para o sacerdócio. “Não era aquilo”, diz ele com serenidade. “Mas o desejo de estudar e compreender a realidade permaneceu.”
Quando voltou a Vitória da Conquista, encontrou a Faculdade de Formação de Professores de Vitória da Conquista (FFPVC). Matriculou-se no curso de Estudos Sociais e mergulhou na mobilização estudantil pela criação da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).
“Era um momento de luta”, explica. “Queríamos uma universidade que atendesse a todo o sudoeste baiano.”
Em 1981, foi eleito presidente do Diretório Acadêmico e, no mesmo período, vice-presidente da União dos Estudantes da Bahia. O país ainda vivia sob o regime militar e as entidades estudantis tinham pouca liberdade de atuação. Mesmo assim, os estudantes insistiam em construir um espaço universitário democrático.
Durante a conversa, Ernesto recorda com emoção a homenagem prestada a Dinaelza Coqueiro, jovem de Vitória da Conquista morta na Guerrilha do Araguaia. O Diretório Acadêmico recebeu seu nome, gesto que simbolizava a ligação entre a luta estudantil local e as grandes batalhas políticas do país.
Ele então se inclina na cadeira, fixa o olhar e não esconde um certo orgulho geracional. “Nossa geração lutou e venceu. Conseguimos derrubar o regime militar e abrir caminho para uma universidade pública na região”.
Ao falar desse período, ele menciona também um professor que marcou profundamente sua trajetória. “Durval Menezes foi meu professor de Geografia no ginásio”, lembra. “Depois se tornou um grande amigo.” Com o tempo, a relação de professor e aluno transformou-se em amizade e confiança. Ernesto fala dele com enorme carinho e conta que ainda hoje reserva um momento de suas orações para pedir por sua saúde, especialmente diante da longa batalha que Durval enfrenta contra o câncer. Foi ele quem o incentivou decisivamente a publicar seu primeiro livro.
“Ernesto, lance seu livro. Não fique preocupado com críticas”, teria dito Durval. “O importante é registrar a história.”
Nesse ponto da conversa, Ernesto menciona também outra figura que exerceu grande influência em sua formação intelectual e política, seu tio Elquisson Dias Soares. Fala dele com respeito e certa admiração silenciosa, como quem reconhece a importância de uma presença decisiva na história da família.
Elquisson foi uma personalidade marcante da vida pública baiana, homem de forte temperamento político e espírito combativo, cuja trajetória atravessou alguns dos momentos mais tensos da história recente do país. Durante o período da ditadura militar, sofreu perseguições e chegou a ser preso no Rio de Janeiro, em 1969, experiência que deixou marcas profundas em sua vida. Mais tarde, seguiria carreira política, elegendo-se deputado estadual na Bahia e, posteriormente, deputado federal, sempre identificado com posições de oposição ao regime autoritário.
Ao recordar o tio, ele deixa claro que muitas de suas reflexões sobre história, poder e memória nasceram também da observação atenta da trajetória desse homem que viveu intensamente as contradições de seu tempo.
Segundo ele, Elquisson costumava levantar inúmeras dúvidas sobre as dificuldades de publicar um livro. Durval Menezes, ao contrário, encorajava-o a seguir em frente.
“Durval dizia que muitas pessoas brilhantes de Conquista nunca publicaram um livro”, recorda Ernesto. “E que era importante deixar registrado aquilo que se sabe.”
Pergunto então qual foi o episódio que realmente o transformou em historiador. Ernesto faz uma breve pausa antes de responder.
Tudo começou com um pequeno caderno manuscrito pertencente a nosso pai, Edson Dias Soares. Ele havia participado da Segunda Guerra Mundial como soldado da Força Expedicionária Brasileira e registrou suas experiências em um diário escrito no front italiano.
“Encontrei esse caderno em um cofre”, conta Ernesto. “Estava junto com medalhas e outros documentos relacionados à campanha da Itália.”
A partir daquela descoberta, ele iniciou uma pesquisa que duraria mais de dez anos. Reuniu documentos, depoimentos e fotografias até organizar o material que resultaria no livro “Diário da Segunda Guerra Mundial de Edson Dias Soares”, publicado em 2007.
Pergunto se ele imaginava a repercussão da obra. Ernesto balança a cabeça.
“De forma nenhuma.”
O livro teve um lançamento em Brasília, com a presença de vários generais do Exército Brasileiro e foi reconhecido como documento histórico relevante sobre a participação da FEB na guerra. Houve também uma apresentação na Embaixada da Itália, onde Ernesto realizou uma palestra e organizou uma exposição de fotografias do acervo da família.
“Ver a história de um soldado de Anagé ser apresentada ali foi emocionante”, diz ele.
Mas a repercussão não parou ali. Ernesto participou de entrevistas em jornais e emissoras de televisão e viu o diário de seu pai transformar-se também em um filme de curta-metragem.
Em certo momento da conversa, ao relembrar o período em que viveu em Goiânia, Ernesto faz questão de mencionar uma etapa que considera fundamental em sua formação intelectual. Foi ali que decidiu retomar de maneira sistemática os estudos acadêmicos e ingressou no curso de História da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás), onde concluiu sua graduação. A experiência universitária, segundo ele, foi decisiva para dar método e rigor às inquietações que já carregava desde a juventude.
Mais tarde, aprofundou essa formação ao realizar uma especialização em História Cultural na Universidade Federal de Goiás (UFG), ampliando seu olhar sobre memória, narrativa histórica e identidade cultural. Ernesto diz que esses estudos lhe ofereceram instrumentos teóricos importantes para compreender melhor aquilo que já intuía em sua prática de pesquisador, que a história não se encontra apenas nos grandes acontecimentos, mas também nas experiências cotidianas, nas memórias familiares e nas narrativas locais que ajudam a formar a identidade de um povo.
Nesse período consolidou-se também sua relação com a Editora Kelps, de Goiânia. Ernesto conta que chegou à editora por indicação de um amigo escritor e foi recebido com grande cordialidade pelos proprietários, dois irmãos que administravam a empresa familiar.
“Desde aquele primeiro encontro, estabelecemos uma relação de confiança”, explica.
Até hoje ele mantém parceria com a editora, responsável pela publicação de seus livros e pela continuidade de seu trabalho editorial.
Pergunto então sobre o livro que talvez mais o identifique com sua terra: “Anagé: A Força de Uma Ideia”, publicado em 2014.
Ernesto explica que a obra nasceu do desejo de compreender a emancipação política de Anagé, ocorrida em 1962. O livro reúne depoimentos, documentos e entrevistas, entre elas uma conversa com o líder político conquistense José Pedral Sampaio, que revelou bastidores importantes da criação do município.
“Anagé naquela época era praticamente uma rua longa de terra”, lembra ele. “Dividida entre rua de cima e rua de baixo.”
A emancipação, segundo sua pesquisa, não resultou de uma mobilização popular direta, mas de uma estratégia política que acabou criando uma nova cidade. O livro tornou-se referência histórica para educadores e moradores da região.
Hoje, conta Ernesto, é comum entrar em casas de Anagé e encontrar o livro logo na sala. Algumas pessoas o chamam nas ruas pelo próprio título da obra:
“Antonio Ernesto, a força de uma ideia!”
Ele ri ao lembrar dessas situações.
A conversa se encaminha para o presente. Pergunto por que decidiu voltar a viver em Anagé.
Ernesto responde citando um conselho que ouviu muitas vezes de um parente querido, conhecido na família como Bilonga.
“Bilonga dizia que a gente precisava estudar e depois voltar para arar em terra própria.”
A frase se tornou quase um lema pessoal. Hoje ele dedica grande parte do tempo à preservação da memória local, reunindo documentos, fotografias e relatos históricos da cidade.
Antes de encerrarmos a conversa, Ernesto fala de um projeto recente que considera essencial, a criação de um memorial em homenagem aos ex-combatentes de Anagé, Edson Dias Soares e Manoel Vieira dos Santos.
“O que eu quero”, diz ele, “é que as futuras gerações saibam que Anagé também esteve na Segunda Guerra Mundial.”
Quando nos despedimos, a noite já começa a cair sobre Vitória da Conquista. Ernesto recolhe algumas fotografias antigas e guarda novamente os fragmentos de memória que tanto lhe importam.
Antes de sair, repete uma frase simples, que parece condensar toda a sua trajetória:
“Arar em terra própria...”
Lá fora, a chuva do verão conquistense continuava caindo persistente sobre a cidade.
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Antonio Ernesto e seu pai Edson Dias Soares, c. 1975 |


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