LUSTOSA NO KAFKA CAFÉ
Reno Viana
O “Kafka Café” nasceu como uma brincadeira entre amigos que costumam conversar sobre livros, escrita e projetos editoriais nas cafeterias que se multiplicaram nos últimos anos em Vitória da Conquista, na Bahia.
Esse nome, convenhamos, jamais seria uma boa escolha comercial. Há nele algo excessivamente sombrio, carregado de referências intelectuais e literárias que nem todo mundo alcançaria de imediato. Talvez afastasse clientes antes mesmo do primeiro café servido. Por isso mesmo, o Kafka Café não existe de fato e provavelmente jamais existirá.
Ainda assim, de maneira mágica, qualquer cafeteria da cidade onde nos sentamos para discutir literatura, memória, edição de livros ou ideias para futuros textos acaba se transformando, por algumas horas, nessa cafeteria imaginária. O Kafka Café tornou-se, assim, menos um lugar físico e mais um estado de espírito. Um espaço simbólico onde diálogos sobre livros, escrita, humanidades e publicação editorial continuam acontecendo entre xícaras de café e longas tardes de conversa.
Valdimiro Lustosa é uma dessas pessoas que está se dedicando à escrita. Economista e advogado, ele aceitou participar desta conversa justamente porque começou a escrever textos em que pretende refletir sobre a história econômica, financeira e sindical da Bahia.
Depois de décadas atuando no sistema financeiro, especialmente no extinto Banco do Estado da Bahia (Baneb), e de intensa participação no sindicalismo bancário, Lustosa passou a organizar memórias, experiências e reflexões acumuladas ao longo de sua trajetória profissional e política. Aos poucos, esse material começou a ganhar forma mais definida de escrita. Segundo ele, as relações entre economia, política, sindicalismo, democracia e desenvolvimento regional ainda guardam histórias pouco compreendidas, que merecem ser registradas.
Foi justamente em torno dessas lembranças e reflexões que nos sentamos para conversar, no fim de uma tarde tranquila neste início de 2026, em uma das várias cafeterias abertas nos últimos anos em Vitória da Conquista. Entre o som baixo das xícaras, o movimento discreto dos atendentes e a luz morna do entardecer atravessando os vidros da fachada, a cidade seguia seu ritmo habitual enquanto falávamos de memórias e das muitas transformações da Bahia ao longo das últimas décadas.
Não havia em Lustosa qualquer gesto de grandiloquência. Falava devagar, com a serenidade de quem atravessou muitas épocas do país e aprendeu a olhar o passado sem nostalgia exagerada, mas também sem ingratidão. Ao recordar sua longa experiência profissional e sindical, refletia sobre como as engrenagens econômicas influenciaram diretamente a vida de milhares de pessoas e ajudaram a moldar não apenas instituições financeiras, mas também parte importante da própria história social e política baiana.
Em determinado momento, ao recordar os dias de juventude, sorri discretamente ao mencionar que chegou à cidade de Santana, no Oeste da Bahia, em 7 de abril de 1967, vestindo as cores do Flamengo. Três dias depois começaria a trabalhar no banco Baneb. A lembrança da calça de tergal e da camisa “volta ao mundo” aparece quase como um retrato de época. Ele explica que aquelas roupas simbolizavam não apenas a moda do período, mas também uma ideia de respeitabilidade profissional muito forte naquele Brasil dos anos 1960. Entrar no banco significava ingressar num universo de disciplina, aparência e postura. Havia ali o orgulho silencioso de quem começava a construir independência e lugar próprio no mundo. Ele admite que sempre foi um pouco vaidoso, embora diga nunca ter transformado a indumentária em marca calculada. “Era mais o desejo natural de estar bem apresentado”, explica, “e corresponder às exigências daquele tempo.”
Quando a conversa avança para sua mudança de Santana para Salvador, o tom muda ligeiramente. Lustosa descreve a chegada à capital como um verdadeiro choque cultural. Em Santana, tudo era próximo. Morava a poucos metros do banco e caminhava até o trabalho. Salvador lhe apresentou outro ritmo de vida, trânsito intenso, ônibus lotados, filas de elevador, corredores apressados do centro da cidade, calor abafado dos escritórios, necessidade de estudar para o vestibular e sensação constante de falta de tempo. A cidade grande, segundo ele, obriga as pessoas a reorganizar não apenas a rotina, mas também a própria maneira de pensar.
Foi nesse ambiente que amadureceu sua entrada na militância sindical. Ele deixa claro que isso não surgiu inicialmente como projeto político estruturado, mas como consequência de convivências e leituras. Recorda com especial carinho de Geraldo Guedes, colega de trabalho e militante político, que lhe apresentava livros proibidos pela ditadura militar.
Havia também a biblioteca do próprio Baneb, no quinto andar do prédio onde trabalhava. Depois do almoço no restaurante do banco, no segundo andar, subiam para ler e discutir política. Entre pilhas de livros, jornais dobrados e o ruído contínuo dos ventiladores do prédio, eram conversas discretas, quase silenciosas, mas profundamente transformadoras. Aos poucos, compreendeu que o sindicalismo não era apenas reivindicação salarial, mas também participação política e defesa da democracia.
Ao recordar o AI-5, decretado em 1968, interrompe brevemente a fala, como se ainda escutasse o som distante daquela notícia chegando pelo rádio. Conta que ouviu pela Rádio Tupy do Rio de Janeiro o anúncio do Ato Institucional nº 5. Tinha apenas 19 anos e ainda não compreendia totalmente a dimensão política do acontecimento, mas percebeu imediatamente que algo ameaçador se instalava no país.
Interrompe novamente a fala por alguns segundos antes de continuar. O AI-5 fechou o Congresso Nacional, ampliou a censura, cassou mandatos e abriu caminho para prisões arbitrárias, perseguições e torturas. Nos bancos, nas repartições e nos corredores o medo começava a circular em voz baixa. Trabalhar num banco estatal, naquele contexto, exigia cautela constante. O medo existia. Qualquer aproximação com movimentos sindicais poderia ser interpretada como ameaça política. Ainda assim, afirma que foi justamente naquele ambiente ambíguo, entre o medo e a necessidade de agir, que amadureceu sua consciência de que a luta sindical também era uma forma de resistência democrática.
Ao longo das décadas, as engrenagens da economia brasileira passaram por transformações profundas. Mudaram os modelos de desenvolvimento, alteraram-se as relações entre Estado e mercado, surgiram novos ciclos políticos, crises financeiras, reformas econômicas e diferentes formas de organização do trabalho. Mudavam também os corredores dos bancos, os arquivos de papel, as mesas cobertas por formulários, as máquinas de escrever e o ritmo das agências bancárias espalhadas pelo país. Na Bahia, essas mudanças também deixaram marcas visíveis, atravessando a história dos bancos públicos, da expansão industrial, do sindicalismo e das próprias disputas políticas em torno do desenvolvimento regional.
Quando pergunto sobre a interferência política nos bancos estaduais, Lustosa fala sem hesitação. Enquanto mexe lentamente na xícara de café, ele lembra que o problema não era exclusivo da Bahia, mas atingia praticamente todos os bancos públicos estaduais brasileiros.
O Baneb frequentemente funcionava como extensão de interesses políticos, entre gabinetes oficiais, pilhas de contratos e mesas de negociação atravessadas por pressões invisíveis, concedendo empréstimos favorecidos e subsidiados a figuras influentes que muitas vezes sequer quitavam seus débitos. Isso gerava prejuízos profundos à saúde financeira da instituição e acabava recaindo justamente sobre os trabalhadores, que perdiam participação nos lucros, estabilidade e segurança profissional. Para ele, defender os direitos dos bancários significava também denunciar o uso político da máquina pública.
Ao falar da virada dos anos 1970 para os anos 1980, faz uma pequena pausa antes de recordar aquele período. Recorda então o surgimento do chamado “novo sindicalismo”.
Explica que até então predominava um sindicalismo pelego, controlado pelo Ministério do Trabalho e alinhado à ditadura militar. O movimento dos metalúrgicos do ABC paulista, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva, rompeu essa lógica ao criar uma organização sindical baseada na mobilização direta dos trabalhadores, nas greves por fábrica, nas comissões internas, em assembleias lotadas e pátios tomados por multidões. Aquilo repercutiu fortemente entre os bancários da Bahia. O sindicato deixava de ser apenas espaço burocrático e passava a funcionar como lugar de participação política real. “Mais do que lutar por salário”, diz Lustosa, “estávamos disputando cidadania.”
Ele reconhece que a Bahia não esteve inicialmente na linha de frente do novo sindicalismo, embora acompanhasse de perto o que acontecia em São Paulo, especialmente no ABC paulista. Ainda assim, lembra que lideranças baianas tiveram papel importante na reorganização sindical brasileira. Cita nomes como José Novais, no movimento rural, e Mário Lima, entre os petroleiros. Segundo ele, a contribuição baiana esteve sobretudo na capacidade de articulação política e na formação de quadros comprometidos com uma visão mais ampla de democracia sindical, ajudando inclusive na construção da Central Única dos Trabalhadores.
A conversa então chega ao Dieese. Enquanto observa o movimento da cafeteria, ele começa a falar da criação do órgão na Bahia, do qual foi cofundador. Como quem descreve uma mudança de mentalidade, explica que o movimento sindical compreendeu naquele momento que a luta trabalhista precisava também de instrumentos técnicos. O Dieese permitia sustentar reivindicações com dados concretos sobre inflação, perdas salariais e custo de vida, em mesas cobertas por gráficos, planilhas e cálculos. Nesse ponto, menciona com admiração Walter Barelli, professor da Universidade Estadual de Campinas e diretor técnico do órgão, com quem trabalhou durante cerca de três anos quando integrou a direção nacional da entidade. Barelli, mais tarde ministro do Trabalho no governo Itamar Franco, ajudou a consolidar a ideia de que a economia também era linguagem de luta política.
Lustosa lembra ainda que a sede provisória do Dieese funcionou no Sindicato dos Bancários da Bahia e que o primeiro técnico do órgão no estado foi o economista Carlos Alberto Batista. Segundo ele, aquilo simbolizava uma mudança profunda. O sindicato deixava de ser apenas espaço de protesto para se tornar também espaço de produção de conhecimento.
Ao comentar os planos econômicos (Cruzado, Collor e Real), explica que o Dieese teve papel decisivo ao produzir dados independentes em meio à inflação galopante. Os números oficiais frequentemente não refletiam a realidade concreta dos trabalhadores. Ter estatísticas confiáveis fortalecia enormemente as negociações coletivas. “Defender dados independentes”, diz ele, “era também defender democracia.”
Quando o assunto se desloca para o Nordeste dentro das estruturas sindicais nacionais, observa que o sindicalismo brasileiro era profundamente concentrado no Sudeste, especialmente em São Paulo. Mas afirma que, gradualmente, o Nordeste conquistou espaço político e passou a exigir que suas especificidades fossem consideradas. “Era preciso mostrar que o Brasil não terminava no Sudeste”, afirma. Segundo ele, depois desse avanço tornou-se impossível pensar o movimento sindical brasileiro sem ouvir também a palavra dos nordestinos.
A industrialização da Bahia ocupa uma parte importante da conversa. Lustosa gira lentamente a xícara antes de voltar aos anos 1970. Explica então que esse processo aconteceu de maneira bastante diferente do modelo vivido em São Paulo.
Enquanto no Sudeste a expansão industrial foi impulsionada principalmente pela iniciativa privada, na Bahia o Estado assumiu papel decisivo na condução desse desenvolvimento. Nesse contexto, o extinto Banco do Estado da Bahia teve participação relevante no financiamento e no apoio aos primeiros projetos de industrialização mais estruturada do estado, especialmente com a implantação do Centro Industrial de Aratu (CIA), considerado o primeiro grande núcleo de consolidação industrial baiano.
Segundo ele, havia naquele período um problema fundamental, que era a falta de energia suficiente para sustentar o crescimento das novas indústrias. Por isso, tornou-se necessária uma articulação com a Companhia Hidrelétrica do São Francisco, ampliando o fornecimento de energia vindo da usina de Paulo Afonso. Ao mesmo tempo, os incentivos fiscais oferecidos pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) ajudaram a atrair investimentos e facilitaram a instalação de empresas no estado.
Mais tarde, o Polo Petroquímico de Camaçari aprofundaria ainda mais esse processo de transformação econômica. O governo passou a oferecer isenções fiscais, infraestrutura, doação de terrenos e políticas de incentivo para consolidar aquele novo ciclo industrial. Também destaca a importância da Petrobrás, especialmente através da Refinaria Landulfo Alves, como elemento central desse cenário de modernização econômica.
Para ele, a industrialização não transformou apenas a economia baiana. Ela também modificou profundamente o perfil dos trabalhadores do estado. Surgiu uma nova classe operária, mais concentrada, mais organizada e mais consciente de seus direitos, o que fortaleceu significativamente o sindicalismo local e ampliou sua capacidade de mobilização política e social.
Ao falar de sua formação em Economia e Direito, Lustosa insiste que o conhecimento técnico era importante, mas insuficiente sozinho. O dirigente sindical, segundo ele, precisava sobretudo de sensibilidade política. “Eu sempre me senti mais um político da categoria do que um técnico”, afirma. A técnica, diz ele, deveria servir para fortalecer a ação política e não para substituí-la.
Quando recorda a presidência da Casseb, entidade criada pelos próprios funcionários do antigo Baneb para assistência médica da categoria, demonstra um orgulho tranquilo. Explica que administrar uma instituição coletiva é muito diferente de reivindicar. Encontrou a entidade numa situação dramática após o confisco promovido pelo governo Fernando Collor de Mello, com apenas cinquenta mil cruzados novos em caixa. Foi necessário vender ativos, renegociar compromissos entre reuniões demoradas, pilhas de documentos e telefonemas urgentes para hospitais e prestadores de serviço, bem como lutar para que o Baneb passasse a contribuir de maneira paritária para o plano de saúde dos associados.
O ponto culminante dessa mobilização foi uma assembleia histórica no Teatro Vila Velha, com mais de mil participantes, a maior da história da Casseb.
Quando deixou a presidência, a entidade possuía mais de dez milhões de reais em caixa e uma rede de farmácias distribuídas por cidades como Salvador, Itabuna, Teixeira de Freitas, Irecê, Barreiras, Juazeiro e Vitória da Conquista.
Ao chegar ao tema da privatização do Baneb nos anos 1990, silencia brevemente antes de tocar naquele assunto. Lustosa assume um tom mais grave. Explica que os bancos estaduais funcionavam historicamente como caixas dos governos estaduais e eram profundamente vulneráveis à ingerência política. Com o governo Fernando Henrique Cardoso e a criação do PROES, os estados foram pressionados a recapitalizar ou vender seus bancos. Para isso, era preciso “enfeitar a noiva”, como se dizia na época, demitir funcionários, limpar carteiras de crédito e reduzir passivos para tornar as instituições atraentes ao mercado. Ele considera que houve não apenas uma fatalidade econômica, mas também uma decisão política deliberada de desmontar os bancos estaduais. Para ele, a privatização do Baneb representou o enfraquecimento da própria autonomia econômica da Bahia.
Ao refletir sobre a passagem da militância sindical para cargos de gestão, rejeita a ideia de que administrar signifique abandonar a luta. Diz que a responsabilidade administrativa apenas muda a forma de militância. Continuou participando de negociações sindicais mesmo enquanto presidia a Casseb. “Administrar bem também é uma forma de luta política”, resume.
Do lado de fora, a luz do entardecer já começava a diminuir.
Quando a conversa se aproxima do presente, compara o Brasil da ditadura militar com o cenário polarizado de 2026. Afirma que a repressão dos anos 1960 e 1970 era mais explícita e violenta, mas lembra que naquele período os trabalhadores estavam muito mais organizados coletivamente. Hoje, segundo ele, a fragmentação social, a automação bancária, o desemprego e a individualização das relações de trabalho tornaram a mobilização mais difícil. “Na ditadura, o inimigo era visível”, observa. “Hoje ele é mais difuso.” Em seguida, ri discretamente e completa: “É como sair do espeto e cair na brasa.”
Pergunto então qual momento resumiria a essência de ser “banebiano”. Lustosa não hesita, volta à grande assembleia da Casseb no Teatro Vila Velha. Diz que aquele encontro condensava tudo aquilo que entendia como espírito banebiano. União, solidariedade e confiança coletiva. “Ali senti que todo o esforço valia a pena.”
A luz do entardecer já começava a perder força do lado de fora quando a conversa chegou ao tema da luta. Lustosa lembra do rapaz de 19 anos que chegou a Santana em 1967 sem compreender plenamente o que significava o sindicalismo. Hoje, depois de décadas de experiência, define a luta de forma diferente. Para ele, lutar não significa apenas enfrentar ou protestar. Significa compreender a realidade, organizar forças, construir alianças e transformar concretamente a vida das pessoas.
Enquanto fala, mantém o olhar perdido por alguns instantes na direção da vidraça. “A luta mais eficaz”, afirma, “não é a que faz mais barulho, mas a que melhora a vida concreta das pessoas.”
Ao refletir sobre a democracia brasileira, reconhece os avanços institucionais desde o fim da ditadura militar, mas diz que seria ingenuidade acreditar que o risco autoritário desapareceu. Recorda a recente tentativa de ruptura institucional no Brasil e elogia a atuação do Supremo Tribunal Federal, da Polícia Federal, do Ministério da Justiça e também setores do Exército e da Aeronáutica que resistiram às pressões golpistas. Nesse ponto, menciona o pensamento de Luiz Alberto Moniz Bandeira e sua leitura sobre o nazifascismo como fenômeno possível em momentos de crise profunda dos Estados modernos. Recorda inclusive a expressão de Nicolau Maquiavel sobre “mutazione dello stato” (mutatio rerum, commutatio rei publicae), para explicar que nenhuma democracia está definitivamente garantida.
Em determinado momento da conversa, proponho a Lustosa um exercício de memória. Imaginar uma grande mesa reunindo as pessoas mais marcantes que cruzaram sua trajetória ao longo de tantas décadas de vida profissional, sindical e humana. Pergunto então quem ele convidaria para essa mesa imaginária e o que cada uma dessas pessoas teria lhe ensinado. Ele ri longamente antes de responder e diz que precisaria de uma mesa maior do que a da própria Santa Ceia. Fala novamente de Walter Barelli, de Geraldo Guedes, de companheiros anônimos do cotidiano bancário, de sindicalistas, economistas, administradores e até adversários que ajudaram a moldar sua visão de mundo. “Fui um bom aluno da vida”, diz com simplicidade. “Aprendi um pouco sobre muitas coisas.”
Ao final do diálogo, a noite já havia tomado conta de Vitória da Conquista. A cafeteria permanecia iluminada por aquela luz morna e discreta típica dos lugares onde as conversas parecem durar mais do que o relógio permite.
Antes de sair, Lustosa como que recolheu lentamente algumas memórias espalhadas, nomes, sindicatos, assembleias, vitórias, derrotas, instituições desaparecidas, como quem organiza antigos papéis sobre a mesa ao final de um expediente. Então repetiu, quase em tom de síntese de toda a sua trajetória, uma frase simples que parecia condensar décadas de experiência.
“Lutar é preciso!”
Respondi então com outra pergunta: “E escrever, também é?”
Ele permaneceu alguns segundos em silêncio.
Do lado de fora, a cidade seguia tranquila, sob a luz silenciosa do começo da noite.


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