AFIRMAÇÃO DOS
DIREITOS HUMANOS NA REALIDADE LOCAL
Reno Viana
(Texto
escrito em 2019, como apresentação do nosso livro “Liberdades Democráticas”,
lançado naquele ano pela Edt. Girassóis.)
Entre
os anos de 2010 e 2015, editei na internet um blog cujo nome era Liberdades
democráticas. Nele postei escritos diversos, em prosa e em verso, da
autoria de outras pessoas, mas também vários textos redigidos por mim. Agora,
neste ano de 2019, surgiu a oportunidade de resgatar e reunir aqui alguns
daqueles escritos. As palavras que utilizo no título desta introdução escrita
especialmente para este livro - afirmação dos direitos humanos na realidade
local – penso que resumem de forma precisa a temática e a postura dos
escritos que foram resgatados e aqui reunidos.
Nesses
textos que postei na internet, diversos assuntos foram tratados, ainda que
tangencialmente. Várias vezes ouvi de leitores que eu misturava muito as
coisas. Algumas almas caridosas, porém, generosamente me defendiam dizendo que
eu escrevia assim por estar tratando de filosofia do direito.
Na
realidade, eu não tinha qualquer compromisso com os padrões acadêmicos de
classificação das matérias. Mas igualmente rejeitava qualquer insinuação de
diletantismo. Um fidalgo cidadão certa vez afirmou que meus escritos falavam de
livros sobre livros. Outra ilustre figura chegou a dizer que a
humanidade estaria dividida em dois grupos, os que leram e os que não leram a Crítica
da razão pura de Kant, sendo que eu pertenceria ao grupo dos que leram a
clássica obra kantiana. Alguns conseguiam até identificar a influência
intelectual do nosso conterrâneo Glauber Rocha, cineasta e pensador
caleidoscópico.
Seguro
de que o início da crítica é a autocrítica, sei que estou seguindo no sentido
inverso daquele percorrido pelas pessoas neste começo do século XXI. Enquanto
muitos tentam passar textos impressos em papel para o formato digital, sigo no
caminho contrário e trago para o papel textos que nasceram na internet, lá
amparados por imagens coloridas, vídeos, áudios, links e pelas
ferramentas diversas disponibilizadas pelos computadores. De fato, antes da
desativação do blog Liberdades democráticas, eu fiz um becape das suas
postagens principais. Depois selecionei aquelas que tinham entre si um vínculo
de qualquer natureza. Mais recentemente copiei alguns daqueles escritos, em
especial os de minha autoria, e enviei por e-mail, um por um, para a
equipe do projeto editorial da Girassóis, que se prontificou a
organizá-los e depois publicá-los. Em expressão do meu apoio a essa iniciativa,
fiz a doação dos direitos autorais desta edição à Girassóis. Como
resultado eis aqui este volume que o prezado leitor tem agora em suas mãos.
Esclareço que não é por acaso que aqui constam somente textos, desacompanhados
de fotografias. Com esse gesto quis traduzir a minha aposta convicta na força
intensa da palavra, do logos, que manifesta o pensamento e dá
sentido às coisas e aos viventes.
Os
escritos que integram este volume tratam de temas como a teoria crítica do
direito, a criminologia, as ciências sociais, os estudos culturais, dentre
outros. Fala-se da crítica ao normativismo jurídico, através da reunião
interdisciplinar de saberes, do combate ao conservadorismo jurídico, bem como
se esboçam reflexões sobre liberdade, cultura e manipulações. Critica-se o
encarceramento em massa no Brasil e o modelo penitenciário brasileiro, em
defesa absoluta e incondicional dos direitos humanos.
O
título deste livro – Liberdades democráticas – busca recuperar o nome e
o espírito do blog em que os textos foram originalmente postados.
Aliás,
a espiritualidade, embora muitos não percebessem, foi sempre o meu
verdadeiro tema. Sim, era sobre esse conteúdo que eu escrevia. A minha espiritualidade
da participação, como explicarei a seguir. Ela estava presente em todos os
meus escritos, mesmo quando aparentemente estava tratando de outros assuntos.
Essa era a perspectiva que me movia e que ainda move o projeto editorial deste
livro.
Entretanto
a palavra espiritualidade costuma provocar alguma estranheza nas pessoas
pouco acostumadas com ela. Tentarei então esclarecer a afirmação que fiz acima.
Os dicionários e o senso comum associam essa palavra ao campo da religião.
Seria o contrário de materialismo, relacionando-se com a parte imaterial do ser
humano, com o seu espírito. No vocabulário jurídico, o espírito da lei é
o ânimo que ela traz consigo, um conceito muito próximo da concepção de alma.
No vocabulário filosófico, o conceito se aproxima da noção de pensamento.
Ou talvez também da noção de ideia, em oposição a matéria.
Enfim,
trata-se de onde está situado o eu. Portanto, do campo da subjetividade
onde situa-se a consciência. Nessa perspectiva, os textos que escrevo
seriam aproximações entre a minha consciência e a vida, nas suas mais diversas
manifestações. Assim, tudo que dissesse respeito à vida interessaria à minha
espiritualidade. Por isso tantos assuntos. Por isso essa aparente mistura de
tantas coisas diversas.
Enfim,
trata-se apenas do meu testemunho.
É
o depoimento da minha espiritualidade da participação, relatando o que
vi, ouvi ou fiz, ou deixei de fazer, nas aproximações entre a minha consciência
e a vida que pulsa fora dos textos. Através da
espiritualidade, o indivíduo pode descobrir a essência mais profunda da
realidade, percebendo que é possível transcender ao mundo material e, por meio
da sua vida interior, alcançar a abertura ao infinito. Essa era a minha
perspectiva.
Essa
minha vivência, sobre a qual refletia nos textos, está situada no âmbito
cultural e civilizatório do Cristianismo, hegemônico na América Latina e no
Brasil. Por conseguinte, foi na tradição participante do Catolicismo que me
deparei com o padrão metodológico que adotei para mim, consistente no método
ver-julgar-agir, consagrado pela encíclica Mater et magistra,
publicada pelo Papa São João XXIII em 1961. O parágrafo 232 desse documento
eclesial é antológico e merece ser transcrito:
Para levar a realizações
concretas os princípios e as diretrizes sociais, passa-se ordinariamente por
três fases: estudo da situação; apreciação da mesma à luz desses princípios e
diretrizes; exame e determinação do que se pode e deve fazer para aplicar os
princípios e as diretrizes à prática, segundo o modo e no grau que a situação
permite ou reclama. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as
palavras seguintes: ver, julgar e agir.
Ver-julgar-agir foi o método que passei a seguir e
que se encontra subjacente a tudo que consta deste livro. Dele vinha nosso
forte vínculo com a realidade. Por isso sempre fiz questão de deixar bem claro
quem eu era, de onde estava falando e o que estava fazendo. Era aquilo que se
passou a chamar de meu lugar de fala, ou seja, a posição de onde olhava
para o mundo e procurava participar dos acontecimentos.
Contudo,
mais do que uma atitude meramente pessoal, a nossa presença na internet
acontecia em um contexto mais amplo, em uma perspectiva coletiva cujo
conhecimento hoje nos parece proporcionar uma compreensão ampliada da época em
que vivíamos e dos acontecimentos desse nosso tempo. Neste início do terceiro
milênio, a globalização e o neoliberalismo se impuseram como perspectivas
hegemônicas na nova ordem mundial surgida após o fim da chamada Guerra Fria,
que antes colocava em campos antagônicos o capitalismo e o comunismo. No
entanto, apesar da grande expansão do capitalismo em todos os continentes, com
impressionantes progressos científicos e tecnológicos, que resultaram naquilo
que alguns chamaram de revolução digital, originando a era dos
computadores, dos aparelhos celulares e da internet, em grande parte do mundo
globalizado persistiram bolsões de atraso, de miséria e até de barbárie, fonte
de movimentos fanáticos e de práticas diversas de contestação.
No
Brasil, neste início do século XXI, assistiu-se a tentativas de superação da
profunda desigualdade que ainda separa os ricos dos pobres na nossa nação,
naquele que talvez seja o nosso maior problema social. Neste cenário, emergiram
também lutas identitárias de segmentos diversos da população, como mulheres,
negros, homossexuais, índios, dentre outros. No entanto, permaneceram os traços
básicos da divisão de classes na sociedade brasileira. As classes dominantes
são formadas pela burguesia empresarial, pelos executivos das grandes empresas
multinacionais, pelo patriciado ocupante dos cargos dirigentes das cúpulas das
principais instituições sociais, além dos tradicionais grandes proprietários de
terras, bem como pelas celebridades midiáticas surgidas na época atual. Logo
abaixo na pirâmide social estão as camadas médias, formadas por pequenos
empresários, técnicos especializados, intelectuais, estudantes, funcionários
públicos civis e militares, artistas e sacerdotes. A classe operária situa-se
logo a seguir. Com o crescimento da vida urbana, além dos trabalhadores das
fábricas, ela passou a contar também com indivíduos que trabalham no setor de
serviços. Embora socialmente subalterno, o operariado urbano está integrado no
sistema produtivo e até mesmo no mercado consumidor. O campesinato, por sua
vez, teve suas fileiras engrossadas pelo crescimento do trabalho assalariado no
campo e pela mobilização dos trabalhadores sem-terra, evidenciando que em um
país de grande extensão territorial como o Brasil a questão agrária nunca sairá
da pauta dos grandes temas nacionais. Na base da pirâmide social, por fim, um
enorme contingente de excluídos, oprimidos, marginais, delinquentes e mendigos.
A princípio incapazes de se organizarem para a participação efetiva na vida
coletiva, deixam porém sempre iminente o perigo da generalizada convulsão
social.
Pessoalmente,
como integrante das camadas médias da sociedade brasileira, em 1996 ingressei
na carreira estatal da magistratura, passando a trabalhar como juiz de direito
em cidades diversas da Bahia, inclusive na capital Salvador. Em 2009
instalei-me em Vitória da Conquista, minha cidade natal, com a intenção de
permanecer e onde estou há dez anos. Este aqui se tornou o meu lugar de fala,
de onde olho para o mundo e procuro participar dando a minha contribuição para
o nosso nem sempre belo quadro social.
Como
magistrado, tive a oportunidade de conhecer de perto parte significativa da
realidade brasileira, interagindo com indivíduos das diversas classes sociais.
Pude também acompanhar dois fenômenos que se acentuaram no Brasil após a
promulgação da Constituição Federal de 1988, fortemente marcada pela catarse
gerada no clima de euforia democrática que se seguiu ao fim da ditadura vigente
em nosso país durante vinte e um anos, desde o golpe de estado de 1964. Após a
redemocratização em 1985 viu-se, por um lado, o aumento sempre crescente da judicialização
das condutas, com uma quantidade sempre maior de conflitos de interesses sendo
levados à apreciação do Poder Judiciário brasileiro, inclusive matérias
alusivas a políticas públicas. Por outro lado, ou talvez em decorrência desse
fenômeno da judicialização, viu-se um inevitável desenvolvimento do que
passou a ser denominado como ativismo judicial, entendido isso como
sendo a atitude proativa e ampliada do Poder Judiciário no exercício das suas
atribuições, inclusive envolvendo a ocupação de espaços que tradicionalmente
não eram seus.
Nesse
contexto, participei pessoalmente de uma experiência significativa de ativismo
judicial. Ingressei na Associação Juízes para a Democracia (AJD), organização
voltada para uma espécie de intensificação do foco jurisdicional na proteção
aos direitos humanos. Nessa entidade, integrei a sua coordenação na Bahia, bem
como fiz parte da sua direção nacional. Em função desse engajamento foi que
ingressei nas redes sociais e criei o blog Liberdades democráticas, no
qual foram postados os escritos constantes deste livro.
Em
um ângulo mais documental, o ativismo da AJD pode ser melhor conhecido em
algumas obras publicadas pela entidade. O livro Direitos Humanos – visões
contemporâneas: publicação especial em comemoração aos 10 anos de fundação da
Associação Juízes para a Democracia, organizado por Kenarik Boujikian, foi
lançado em 2001. Organizado por Ana Maria Ciccacio, AJD: 20 anos para a
Democracia foi lançado em 2011. Por fim, organizado por André Augusto
Salvador Bezerra, o livro 2016: o histórico ano dos 25 anos da AJD.
Em
uma ótica subjetiva, construída a partir das minhas vivências, leituras e
reflexões pessoais, bem como dos compromissos advindos do nosso dever
profissional de julgar condutas, e do mesmo modo da experiência de ativismo
judicial, veio a certeza de que esta nossa época contemporânea é um
tempo de confusão, de ceticismo, de desconfiança, até mesmo de aflição e de
desespero, ante uma realidade cada vez mais instável e problemática. Por isso,
passei a procurar reconhecer e reverenciar as poucas luzes que conseguia
às vezes enxergar neste tempo que foi definido por Elomar Figueira Mello como
sendo a era dos grandes equívocos.
Na
cultura contemporânea, especificamente nos meios tidos como letrados, por
exemplo, causava-me espanto constatar tantas pessoas escrevendo apenas por
escrever, como se esse gesto fosse um fim em si mesmo, sem se preocuparem com o
conteúdo ou com as consequências do que escreviam. Ao deparar-me com isso,
muitas vezes lembrava das palavras do Evangelho segundo São Mateus,
quando Jesus falava de cegos guiando cegos:
Deixai-os. São cegos conduzindo cegos! Ora, se um cego
conduz outro cego, ambos acabarão caindo num buraco.
(Mt 15:14)
Nesse
cenário é que se situa uma busca da minha parte por princípios que pudessem
servir como parâmetros para guiar a caminhada através da escuridão desse nosso
tempo de incertezas. Afinal, como devo comportar-me? Como devo agir? Como agir
com sabedoria, de maneira fundamentada, tendo consciência do significado da
minha ação dentro da realidade?
Trabalhando
como juiz de direito no interior da Bahia, muito perambulei pelas estradas do
Sertão. Foi assim que certo dia aconteceu-me chegar à cidade de Bom Jesus da
Lapa, às margens do Rio São Francisco. Lembro que me causou forte impressão o
contraste entre a paisagem caatingueira da extensa planície lá existente e a
imponência no horizonte do majestoso Morro da Lapa, em cujo interior ficavam as
grutas nas quais tinha sido instalado um
afamado Santuário, há séculos reverenciado por romarias de sertanejos.
Na memória afetiva da minha própria família estavam guardadas muitas histórias
da participação de parentes próximos nessas romarias. Meu avô materno, por
exemplo, teria ido a pé pagar promessas feitas ao Bom Jesus, isso há quase cem
anos.
Eu
mesmo trazia comigo uma estranha e muito antiga lembrança, que não sabia dizer
com certeza se era fato real ou fantasia dos tempos de criança. Era uma imagem
do Rio São Francisco, vista por mim a partir do colo da minha mãe onde eu me
encontrava, enquanto um barco navegava pelas águas então abundantes do rio.
Embora a paisagem tenha sofrido alterações nos anos que se seguiram, devido a
intervenções nocivas de obras humanas, ao voltar à cidade, conversar com
pessoas mais velhas e novamente navegar no rio, constatei já adulto que aquela
antiga imagem que trazia na memória era realmente lembrança de uma viagem dos
meus pais a Bom Jesus da Lapa em 1969, quando eu ainda era muito pequeno.
Navegando em um barco pelo Rio São Francisco, eu no colo da minha mãe,
contemplando admirado o Morro da Lapa, essa é a memória mais antiga que ainda
hoje trago em minha mente.
Muito
mais tarde, quando já perambulava pelas estradas como juiz de direito, passou a
ter para mim outro significado a imagem da rodovia quase reta que liga Vitória
da Conquista a Bom Jesus da Lapa, nos Sertões da Bahia, com a vegetação
caatingueira da sua paisagem e o imponente morro surgindo no horizonte.
Vislumbrei essa imagem incontáveis vezes, inclusive por ter me tornado, eu
mesmo, um romeiro do Bom Jesus, caminhando sobre as pegadas deixadas pelos
passos dos meus antepassados. Passei então a associar aquela visão da estrada
com aquilo que a ancestral tradição do Judaísmo denominava de XEOL. Era
um ensinamento que há milênios estava escrito no antigo livro do Eclesiastes,
que os cristãos herdaram dos judeus:
Tudo o que te vem à mão para fazer, faze-o conforme a tua
capacidade, pois, no Xeol para onde vais, não existe obra, nem reflexão, nem
conhecimento e nem sabedoria.
(Ecl 9:10)
Os
cristãos, em suas traduções do Antigo Testamento, chamaram o Xeol de sepultura.
Não me parece o termo exato, mas serve para a reflexão que estou aqui propondo.
Na associação de ideias que criei, no horizonte que vislumbramos ao longe na
estrada existencial pela qual trafegamos durante a nossa trajetória nessa vida,
no destino final encontra-se o Xeol. O sentido dessa viagem que fazemos em
direção à nossa própria sepultura, o mesmo ancestral livro do Eclesiastes
nos esclarece, através da sabedoria do pregador Coélet:
Vaidade das vaidades – diz Coélet – tudo é vaidade (…)
Fim do discurso. Tudo foi ouvido. Teme a Deus e observa seus mandamentos,
porque aí está o homem todo.
(Ecl 12:8,14)
A
lição do sábio Coélet nos fala assim da futilidade das coisas mundanas,
bem como da necessidade de uma fé inabalável em Deus. Esse seria o alicerce da
sua sabedoria. Deveria ser também o da nossa. A sabedoria ancestral dos judeus,
herdada pelos cristãos. Em sentido semelhante era também o discernimento da
sabedoria da Philosophia Perennis, através da qual chegaria até nós as
verdades intemporais que foram alcançadas pelo pensador grego Aristóteles (o Filósofo
por excelência, segundo São Tomás de Aquino), ao discorrer na Grécia clássica
sobre o primeiro motor do mundo, o que move sem ser movido, eterno e
incorruptível, a causa de todo movimento - Théos.
Note-se
que ao longo dos séculos a tradição do Cristianismo nunca deixaria de atuar na
preservação da rica herança que nos foi legada pelos Humanismos. Entenda-se
essa expressão tanto no sentido filosófico e literário, como também no aspecto
da valorização da pessoa humana, qualquer que fosse sua condição de nascimento
ou de atuação na coletividade. No campo específico da filosofia, figuras
antigas do porte de Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino, ou outras figuras
mais recentes como Teilhard de Chardin ou Jacques Maritain, dentre tantos
outros, são pensadores cristãos que muito colaboraram para a cultura
humanística, em especial buscando conciliar fé e razão, evidenciando que entre
ambas não existia contradição, mas sim afinidade. Afinal, a verdade não pode
contradizer a verdade.
Jacques
Maritain dizia em seu livro Introdução geral à filosofia (Edt. Agir, 8ª
ed., pág. 65), por exemplo:
Entre Aristóteles visto em Aristóteles e Aristóteles
visto em Santo Tomás, há a mesma diferença que entre uma cidade avistada
através do clarão de tochas conduzidas pelos homens e a mesma cidade vista aos
raios do sol matinal.
Mas
voltemos aos Sertões da Bahia. Navegando pelo Rio São Francisco, em Bom Jesus
da Lapa, surgiu em minha mente outra associação de ideias. Para mim,
metaforicamente, as águas do rio passaram a simbolizar o caminho para a espiritualidade.
Na margem do lado de cá estávamos nós, na nossa condição humana encarnada. Na
margem de lá, do outro lado, estava o plano espiritual. As águas ao mesmo tempo
uniam e separavam as duas margens. Era possível que a pessoa ficasse parada do
lado de cá, somente observando o que acontecia. Por sua vez, existiam vários
barcos fazendo a travessia de uma margem para a outra. Era praticamente
impossível uma pessoa navegar em dois barcos ao mesmo tempo, mas os barcos
podiam seguir harmoniosamente juntos.
Eu,
pessoalmente, escolheria fazer a travessia na Barca de Pedro.
Ele disse: Vem. Descendo Pedro da
barca, caminhava sobre a água para ir a Jesus. Vendo, porém, que o vento era
forte, temeu, e, começando a submergir-se, gritou, dizendo: Senhor, salva-me!
Imediatamente Jesus estendendo a mão, o tomou e lhe disse: Homem de pouca fé,
por que duvidaste? Depois que subiram para a barca, o vento cessou.
(Mt, 14:29-32)
Na
Associação Juízes para a Democracia (AJD), essa nossa perspectiva aristotélica
e tomista era minoritária. Por outro lado, lá eram muitos os adeptos das ideias
de Karl Marx. Nas oportunidades em que foi possível o diálogo franco, deixei
claro nosso reconhecimento de que, embora a queda do regime soviético no final
do século XX tenha abalado o prestígio do marxismo, eram inegáveis as suas
contribuições para o conjunto da sabedoria humana. Citava como exemplo a
identificação da influência das forças econômicas na dinâmica social, bem como
a percepção de que as concepções ideológicas eram socialmente condicionadas.
Enfim, as ideias de Marx são necessárias para o conhecimento da realidade, mas
são insuficientes. No entanto, embora rejeitássemos a matriz filosófica
materialista, identificávamos convergências conosco no pensamento marxista
heterodoxo, em especial nas ideias do filósofo italiano Antonio Gramsci,
principalmente na compreensão da importância da praxis humana para o
enfrentamento da desumanização dos sujeitos e da coisificação das pessoas.
Nesse enfrentamento é que se situa a nossa confiança no
significado da pessoa humana como Imago Dei, criatura à imagem e
semelhança de Deus, patamar esse que nos fornece um dos principais fundamentos
que passariam a orientar nossa caminhada neste tempo de incertezas. Toda
pessoa, e cada um de nós, não somos apenas uma coisa, mas sim somos alguém.
Por isso devo respeitar o próximo como um outro eu, concepção que torna
possível o crescimento pessoal de todos. Neste amanhecer do terceiro milênio,
torna-se ainda necessária a afirmação de que todo homem é um fim em si mesmo e
de modo algum pode ser tido como meio para algo, afirmando assim a centralidade
da pessoa humana em todas as dimensões da sociabilidade, como legítimo
protagonista da vida social. Esse entendimento consubstancia aquilo que os
doutos chamam de princípio da dignidade da pessoa humana, segundo o qual
não pode haver distinções injustificadas entre indivíduos por razões de origem,
raça, cor, sexo, idade, opiniões ou outras formas de discriminação, devendo-se
também assegurar um grau mínimo, pelo menos, de subsistência material para o
ser humano, objetivando assim impedir a referida coisificação das pessoas.
O princípio da dignidade da pessoa humana é o fundamento sobre o
qual estão edificados os chamados direitos humanos, cujo documento de maior
destaque é a Declaração universal dos direitos do homem, proclamada pela
Organização das Nações Unidas em 1948. Os direitos humanos dizem respeito às
aspirações de dignidade da pessoa e acolhem o atendimento de suas carências
mais significativas, em todas as fases da existência, em todos as
circunstâncias políticas, sociais, econômicas ou culturais. A aparente
redundância da locução é explicada pelos especialistas, a partir da lição da
filósofa Hannah Arendt, como sendo em razão de ter o mundo contemporâneo se
deparado com seres humanos que haviam perdido todas as suas outras referências,
salvo que ainda eram humanos. A expressão direitos humanos é usualmente adotada
em direito internacional, sendo a forma apresentada em inúmeros tratados e
declarações sobre a matéria. A afirmação dos direitos humanos, alicerçada no princípio
da dignidade da pessoa humana, tornou-se então o fundamental parâmetro sobre
como deveríamos nos comportar, sobre como deveríamos agir. Na qualidade de
síntese de todas as discussões teóricas sobre fé, razão, valores, fatos
históricos e sociais, era a rejeição aos degenerados formalismos jurídicos e,
principalmente, era a resoluta e decidida negação da estupidez e da barbárie.
Aqui nos Sertões da Bahia, nosso lugar de fala, a nossa maior
ambição era conseguir colocar em prática a máxima de pensar globalmente, mas
agir localmente. As pessoas que não acompanharam o que realizamos ao longo
dos anos costumam ficar surpresas quando informo que em 2014 superamos a marca
de quinhentas horas devidamente certificadas em atividades de extensão
universitária na área de direitos humanos, em parceria com as universidades
públicas e instituições de ensino superior privadas da nossa região.
Nessas ações trabalhamos também com várias outras entidades
aliadas (como a Girassóis, por exemplo, que agora realiza esta
publicação). Mas merece destaque o Conselho da Comunidade para Assuntos Penais
de Vitória da Conquista, que há quase trinta anos vem atuando ininterruptamente
na área prisional aqui e que chegou a adotar como seu o lema afirmação dos
direitos humanos na realidade local.
Nessa nossa circunstância, é certo que alcançamos a consciência
irreversível de que não podemos abandonar a rica herança dos Humanismos e de
que a afirmação dos direitos humanos é a postura adequada a ser adotada neste
nosso tempo de incertezas. Mas também compreendemos que temos de ter a resistente
paciência de priorizar o despretensioso agir local, vez que aqui é o lugar onde
estamos e cá é que estão as pessoas próximas de nós. Alterando a dinâmica das
nossas ações, buscando conscientemente a ênfase no trabalho provinciano, porém
esclarecido, passamos a aspirar a elevada distinção de nos tornar um cidadão municipal.
Essa, então, era a espiritualidade da participação que
inspirou a temática e a postura dos escritos que estão aqui agora reunidos
neste livro. Ela estava presente em todos os textos, mesmo quando aparentemente
eram outros os assuntos tratados. Essa era a perspectiva que nos movia e que
ainda hoje nos põe em movimento.
Nossa intenção é deste mesmo modo continuar a agir. Enquanto Deus
quiser.
Portanto, que seja feita a Sua vontade.
FIAT VOLUNTAS TUA, SICUT
IN CAELO ET IN TERRA.
Vitória
da Conquista, Bahia, em 15 de fevereiro de 2019.
RV
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| Página 9 do livro “Liberdades Democráticas” |


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