17 fevereiro 2026

AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NA REALIDADE LOCAL



 

 

AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NA REALIDADE LOCAL

 

 Reno Viana


(Texto escrito em 2019, como apresentação do nosso livro “Liberdades Democráticas”, lançado naquele ano pela Edt. Girassóis.)

 

Entre os anos de 2010 e 2015, editei na internet um blog cujo nome era Liberdades democráticas. Nele postei escritos diversos, em prosa e em verso, da autoria de outras pessoas, mas também vários textos redigidos por mim. Agora, neste ano de 2019, surgiu a oportunidade de resgatar e reunir aqui alguns daqueles escritos. As palavras que utilizo no título desta introdução escrita especialmente para este livro - afirmação dos direitos humanos na realidade local – penso que resumem de forma precisa a temática e a postura dos escritos que foram resgatados e aqui reunidos.

Nesses textos que postei na internet, diversos assuntos foram tratados, ainda que tangencialmente. Várias vezes ouvi de leitores que eu misturava muito as coisas. Algumas almas caridosas, porém, generosamente me defendiam dizendo que eu escrevia assim por estar tratando de filosofia do direito.

Na realidade, eu não tinha qualquer compromisso com os padrões acadêmicos de classificação das matérias. Mas igualmente rejeitava qualquer insinuação de diletantismo. Um fidalgo cidadão certa vez afirmou que meus escritos falavam de livros sobre livros. Outra ilustre figura chegou a dizer que a humanidade estaria dividida em dois grupos, os que leram e os que não leram a Crítica da razão pura de Kant, sendo que eu pertenceria ao grupo dos que leram a clássica obra kantiana. Alguns conseguiam até identificar a influência intelectual do nosso conterrâneo Glauber Rocha, cineasta e pensador caleidoscópico.

Seguro de que o início da crítica é a autocrítica, sei que estou seguindo no sentido inverso daquele percorrido pelas pessoas neste começo do século XXI. Enquanto muitos tentam passar textos impressos em papel para o formato digital, sigo no caminho contrário e trago para o papel textos que nasceram na internet, lá amparados por imagens coloridas, vídeos, áudios, links e pelas ferramentas diversas disponibilizadas pelos computadores. De fato, antes da desativação do blog Liberdades democráticas, eu fiz um becape das suas postagens principais. Depois selecionei aquelas que tinham entre si um vínculo de qualquer natureza. Mais recentemente copiei alguns daqueles escritos, em especial os de minha autoria, e enviei por e-mail, um por um, para a equipe do projeto editorial da Girassóis, que se prontificou a organizá-los e depois publicá-los. Em expressão do meu apoio a essa iniciativa, fiz a doação dos direitos autorais desta edição à Girassóis. Como resultado eis aqui este volume que o prezado leitor tem agora em suas mãos. Esclareço que não é por acaso que aqui constam somente textos, desacompanhados de fotografias. Com esse gesto quis traduzir a minha aposta convicta na força intensa da palavra, do logos, que manifesta o pensamento e dá sentido às coisas e aos viventes.

Os escritos que integram este volume tratam de temas como a teoria crítica do direito, a criminologia, as ciências sociais, os estudos culturais, dentre outros. Fala-se da crítica ao normativismo jurídico, através da reunião interdisciplinar de saberes, do combate ao conservadorismo jurídico, bem como se esboçam reflexões sobre liberdade, cultura e manipulações. Critica-se o encarceramento em massa no Brasil e o modelo penitenciário brasileiro, em defesa absoluta e incondicional dos direitos humanos.

O título deste livro – Liberdades democráticas – busca recuperar o nome e o espírito do blog em que os textos foram originalmente postados.

Aliás, a espiritualidade, embora muitos não percebessem, foi sempre o meu verdadeiro tema. Sim, era sobre esse conteúdo que eu escrevia. A minha espiritualidade da participação, como explicarei a seguir. Ela estava presente em todos os meus escritos, mesmo quando aparentemente estava tratando de outros assuntos. Essa era a perspectiva que me movia e que ainda move o projeto editorial deste livro.

Entretanto a palavra espiritualidade costuma provocar alguma estranheza nas pessoas pouco acostumadas com ela. Tentarei então esclarecer a afirmação que fiz acima. Os dicionários e o senso comum associam essa palavra ao campo da religião. Seria o contrário de materialismo, relacionando-se com a parte imaterial do ser humano, com o seu espírito. No vocabulário jurídico, o espírito da lei é o ânimo que ela traz consigo, um conceito muito próximo da concepção de alma. No vocabulário filosófico, o conceito se aproxima da noção de pensamento. Ou talvez também da noção de ideia, em oposição a matéria.

Enfim, trata-se de onde está situado o eu. Portanto, do campo da subjetividade onde situa-se a consciência. Nessa perspectiva, os textos que escrevo seriam aproximações entre a minha consciência e a vida, nas suas mais diversas manifestações. Assim, tudo que dissesse respeito à vida interessaria à minha espiritualidade. Por isso tantos assuntos. Por isso essa aparente mistura de tantas coisas diversas.

Enfim, trata-se apenas do meu testemunho.

É o depoimento da minha espiritualidade da participação, relatando o que vi, ouvi ou fiz, ou deixei de fazer, nas aproximações entre a minha consciência e a vida que pulsa fora dos textos. Através da espiritualidade, o indivíduo pode descobrir a essência mais profunda da realidade, percebendo que é possível transcender ao mundo material e, por meio da sua vida interior, alcançar a abertura ao infinito. Essa era a minha perspectiva.

Essa minha vivência, sobre a qual refletia nos textos, está situada no âmbito cultural e civilizatório do Cristianismo, hegemônico na América Latina e no Brasil. Por conseguinte, foi na tradição participante do Catolicismo que me deparei com o padrão metodológico que adotei para mim, consistente no método ver-julgar-agir, consagrado pela encíclica Mater et magistra, publicada pelo Papa São João XXIII em 1961. O parágrafo 232 desse documento eclesial é antológico e merece ser transcrito:

 

Para levar a realizações concretas os princípios e as diretrizes sociais, passa-se ordinariamente por três fases: estudo da situação; apreciação da mesma à luz desses princípios e diretrizes; exame e determinação do que se pode e deve fazer para aplicar os princípios e as diretrizes à prática, segundo o modo e no grau que a situação permite ou reclama. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as palavras seguintes: ver, julgar e agir.

 

Ver-julgar-agir foi o método que passei a seguir e que se encontra subjacente a tudo que consta deste livro. Dele vinha nosso forte vínculo com a realidade. Por isso sempre fiz questão de deixar bem claro quem eu era, de onde estava falando e o que estava fazendo. Era aquilo que se passou a chamar de meu lugar de fala, ou seja, a posição de onde olhava para o mundo e procurava participar dos acontecimentos. 

Contudo, mais do que uma atitude meramente pessoal, a nossa presença na internet acontecia em um contexto mais amplo, em uma perspectiva coletiva cujo conhecimento hoje nos parece proporcionar uma compreensão ampliada da época em que vivíamos e dos acontecimentos desse nosso tempo. Neste início do terceiro milênio, a globalização e o neoliberalismo se impuseram como perspectivas hegemônicas na nova ordem mundial surgida após o fim da chamada Guerra Fria, que antes colocava em campos antagônicos o capitalismo e o comunismo. No entanto, apesar da grande expansão do capitalismo em todos os continentes, com impressionantes progressos científicos e tecnológicos, que resultaram naquilo que alguns chamaram de revolução digital, originando a era dos computadores, dos aparelhos celulares e da internet, em grande parte do mundo globalizado persistiram bolsões de atraso, de miséria e até de barbárie, fonte de movimentos fanáticos e de práticas diversas de contestação.

No Brasil, neste início do século XXI, assistiu-se a tentativas de superação da profunda desigualdade que ainda separa os ricos dos pobres na nossa nação, naquele que talvez seja o nosso maior problema social. Neste cenário, emergiram também lutas identitárias de segmentos diversos da população, como mulheres, negros, homossexuais, índios, dentre outros. No entanto, permaneceram os traços básicos da divisão de classes na sociedade brasileira. As classes dominantes são formadas pela burguesia empresarial, pelos executivos das grandes empresas multinacionais, pelo patriciado ocupante dos cargos dirigentes das cúpulas das principais instituições sociais, além dos tradicionais grandes proprietários de terras, bem como pelas celebridades midiáticas surgidas na época atual. Logo abaixo na pirâmide social estão as camadas médias, formadas por pequenos empresários, técnicos especializados, intelectuais, estudantes, funcionários públicos civis e militares, artistas e sacerdotes. A classe operária situa-se logo a seguir. Com o crescimento da vida urbana, além dos trabalhadores das fábricas, ela passou a contar também com indivíduos que trabalham no setor de serviços. Embora socialmente subalterno, o operariado urbano está integrado no sistema produtivo e até mesmo no mercado consumidor. O campesinato, por sua vez, teve suas fileiras engrossadas pelo crescimento do trabalho assalariado no campo e pela mobilização dos trabalhadores sem-terra, evidenciando que em um país de grande extensão territorial como o Brasil a questão agrária nunca sairá da pauta dos grandes temas nacionais. Na base da pirâmide social, por fim, um enorme contingente de excluídos, oprimidos, marginais, delinquentes e mendigos. A princípio incapazes de se organizarem para a participação efetiva na vida coletiva, deixam porém sempre iminente o perigo da generalizada convulsão social.

Pessoalmente, como integrante das camadas médias da sociedade brasileira, em 1996 ingressei na carreira estatal da magistratura, passando a trabalhar como juiz de direito em cidades diversas da Bahia, inclusive na capital Salvador. Em 2009 instalei-me em Vitória da Conquista, minha cidade natal, com a intenção de permanecer e onde estou há dez anos. Este aqui se tornou o meu lugar de fala, de onde olho para o mundo e procuro participar dando a minha contribuição para o nosso nem sempre belo quadro social.

Como magistrado, tive a oportunidade de conhecer de perto parte significativa da realidade brasileira, interagindo com indivíduos das diversas classes sociais. Pude também acompanhar dois fenômenos que se acentuaram no Brasil após a promulgação da Constituição Federal de 1988, fortemente marcada pela catarse gerada no clima de euforia democrática que se seguiu ao fim da ditadura vigente em nosso país durante vinte e um anos, desde o golpe de estado de 1964. Após a redemocratização em 1985 viu-se, por um lado, o aumento sempre crescente da judicialização das condutas, com uma quantidade sempre maior de conflitos de interesses sendo levados à apreciação do Poder Judiciário brasileiro, inclusive matérias alusivas a políticas públicas. Por outro lado, ou talvez em decorrência desse fenômeno da judicialização, viu-se um inevitável desenvolvimento do que passou a ser denominado como ativismo judicial, entendido isso como sendo a atitude proativa e ampliada do Poder Judiciário no exercício das suas atribuições, inclusive envolvendo a ocupação de espaços que tradicionalmente não eram seus.

Nesse contexto, participei pessoalmente de uma experiência significativa de ativismo judicial. Ingressei na Associação Juízes para a Democracia (AJD), organização voltada para uma espécie de intensificação do foco jurisdicional na proteção aos direitos humanos. Nessa entidade, integrei a sua coordenação na Bahia, bem como fiz parte da sua direção nacional. Em função desse engajamento foi que ingressei nas redes sociais e criei o blog Liberdades democráticas, no qual foram postados os escritos constantes deste livro.

Em um ângulo mais documental, o ativismo da AJD pode ser melhor conhecido em algumas obras publicadas pela entidade. O livro Direitos Humanos – visões contemporâneas: publicação especial em comemoração aos 10 anos de fundação da Associação Juízes para a Democracia, organizado por Kenarik Boujikian, foi lançado em 2001. Organizado por Ana Maria Ciccacio, AJD: 20 anos para a Democracia foi lançado em 2011. Por fim, organizado por André Augusto Salvador Bezerra, o livro 2016: o histórico ano dos 25 anos da AJD.

Em uma ótica subjetiva, construída a partir das minhas vivências, leituras e reflexões pessoais, bem como dos compromissos advindos do nosso dever profissional de julgar condutas, e do mesmo modo da experiência de ativismo judicial, veio a certeza de que esta nossa época contemporânea é um tempo de confusão, de ceticismo, de desconfiança, até mesmo de aflição e de desespero, ante uma realidade cada vez mais instável e problemática. Por isso, passei a procurar reconhecer e reverenciar as poucas luzes que conseguia às vezes enxergar neste tempo que foi definido por Elomar Figueira Mello como sendo a era dos grandes equívocos.

Na cultura contemporânea, especificamente nos meios tidos como letrados, por exemplo, causava-me espanto constatar tantas pessoas escrevendo apenas por escrever, como se esse gesto fosse um fim em si mesmo, sem se preocuparem com o conteúdo ou com as consequências do que escreviam. Ao deparar-me com isso, muitas vezes lembrava das palavras do Evangelho segundo São Mateus, quando Jesus falava de cegos guiando cegos:

 

Deixai-os. São cegos conduzindo cegos! Ora, se um cego conduz outro cego, ambos acabarão caindo num buraco.

(Mt 15:14)

 

Nesse cenário é que se situa uma busca da minha parte por princípios que pudessem servir como parâmetros para guiar a caminhada através da escuridão desse nosso tempo de incertezas. Afinal, como devo comportar-me? Como devo agir? Como agir com sabedoria, de maneira fundamentada, tendo consciência do significado da minha ação dentro da realidade?

Trabalhando como juiz de direito no interior da Bahia, muito perambulei pelas estradas do Sertão. Foi assim que certo dia aconteceu-me chegar à cidade de Bom Jesus da Lapa, às margens do Rio São Francisco. Lembro que me causou forte impressão o contraste entre a paisagem caatingueira da extensa planície lá existente e a imponência no horizonte do majestoso Morro da Lapa, em cujo interior ficavam as grutas nas quais tinha sido instalado um  afamado Santuário, há séculos reverenciado por romarias de sertanejos. Na memória afetiva da minha própria família estavam guardadas muitas histórias da participação de parentes próximos nessas romarias. Meu avô materno, por exemplo, teria ido a pé pagar promessas feitas ao Bom Jesus, isso há quase cem anos.

Eu mesmo trazia comigo uma estranha e muito antiga lembrança, que não sabia dizer com certeza se era fato real ou fantasia dos tempos de criança. Era uma imagem do Rio São Francisco, vista por mim a partir do colo da minha mãe onde eu me encontrava, enquanto um barco navegava pelas águas então abundantes do rio. Embora a paisagem tenha sofrido alterações nos anos que se seguiram, devido a intervenções nocivas de obras humanas, ao voltar à cidade, conversar com pessoas mais velhas e novamente navegar no rio, constatei já adulto que aquela antiga imagem que trazia na memória era realmente lembrança de uma viagem dos meus pais a Bom Jesus da Lapa em 1969, quando eu ainda era muito pequeno. Navegando em um barco pelo Rio São Francisco, eu no colo da minha mãe, contemplando admirado o Morro da Lapa, essa é a memória mais antiga que ainda hoje trago em minha mente.

Muito mais tarde, quando já perambulava pelas estradas como juiz de direito, passou a ter para mim outro significado a imagem da rodovia quase reta que liga Vitória da Conquista a Bom Jesus da Lapa, nos Sertões da Bahia, com a vegetação caatingueira da sua paisagem e o imponente morro surgindo no horizonte. Vislumbrei essa imagem incontáveis vezes, inclusive por ter me tornado, eu mesmo, um romeiro do Bom Jesus, caminhando sobre as pegadas deixadas pelos passos dos meus antepassados. Passei então a associar aquela visão da estrada com aquilo que a ancestral tradição do Judaísmo denominava de XEOL. Era um ensinamento que há milênios estava escrito no antigo livro do Eclesiastes, que os cristãos herdaram dos judeus:

 

Tudo o que te vem à mão para fazer, faze-o conforme a tua capacidade, pois, no Xeol para onde vais, não existe obra, nem reflexão, nem conhecimento e nem sabedoria.

(Ecl 9:10)

 

Os cristãos, em suas traduções do Antigo Testamento, chamaram o Xeol de sepultura. Não me parece o termo exato, mas serve para a reflexão que estou aqui propondo. Na associação de ideias que criei, no horizonte que vislumbramos ao longe na estrada existencial pela qual trafegamos durante a nossa trajetória nessa vida, no destino final encontra-se o Xeol. O sentido dessa viagem que fazemos em direção à nossa própria sepultura, o mesmo ancestral livro do Eclesiastes nos esclarece, através da sabedoria do pregador Coélet:

 

Vaidade das vaidades – diz Coélet – tudo é vaidade (…) Fim do discurso. Tudo foi ouvido. Teme a Deus e observa seus mandamentos, porque aí está o homem todo.

(Ecl 12:8,14)

 

A lição do sábio Coélet nos fala assim da futilidade das coisas mundanas, bem como da necessidade de uma fé inabalável em Deus. Esse seria o alicerce da sua sabedoria. Deveria ser também o da nossa. A sabedoria ancestral dos judeus, herdada pelos cristãos. Em sentido semelhante era também o discernimento da sabedoria da Philosophia Perennis, através da qual chegaria até nós as verdades intemporais que foram alcançadas pelo pensador grego Aristóteles (o Filósofo por excelência, segundo São Tomás de Aquino), ao discorrer na Grécia clássica sobre o primeiro motor do mundo, o que move sem ser movido, eterno e incorruptível, a causa de todo movimento - Théos.

Note-se que ao longo dos séculos a tradição do Cristianismo nunca deixaria de atuar na preservação da rica herança que nos foi legada pelos Humanismos. Entenda-se essa expressão tanto no sentido filosófico e literário, como também no aspecto da valorização da pessoa humana, qualquer que fosse sua condição de nascimento ou de atuação na coletividade. No campo específico da filosofia, figuras antigas do porte de Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino, ou outras figuras mais recentes como Teilhard de Chardin ou Jacques Maritain, dentre tantos outros, são pensadores cristãos que muito colaboraram para a cultura humanística, em especial buscando conciliar fé e razão, evidenciando que entre ambas não existia contradição, mas sim afinidade. Afinal, a verdade não pode contradizer a verdade. 

Jacques Maritain dizia em seu livro Introdução geral à filosofia (Edt. Agir, 8ª ed., pág. 65), por exemplo:

 

Entre Aristóteles visto em Aristóteles e Aristóteles visto em Santo Tomás, há a mesma diferença que entre uma cidade avistada através do clarão de tochas conduzidas pelos homens e a mesma cidade vista aos raios do sol matinal.

 

Mas voltemos aos Sertões da Bahia. Navegando pelo Rio São Francisco, em Bom Jesus da Lapa, surgiu em minha mente outra associação de ideias. Para mim, metaforicamente, as águas do rio passaram a simbolizar o caminho para a espiritualidade. Na margem do lado de cá estávamos nós, na nossa condição humana encarnada. Na margem de lá, do outro lado, estava o plano espiritual. As águas ao mesmo tempo uniam e separavam as duas margens. Era possível que a pessoa ficasse parada do lado de cá, somente observando o que acontecia. Por sua vez, existiam vários barcos fazendo a travessia de uma margem para a outra. Era praticamente impossível uma pessoa navegar em dois barcos ao mesmo tempo, mas os barcos podiam seguir harmoniosamente juntos.

Eu, pessoalmente, escolheria fazer a travessia na Barca de Pedro.

 

Ele disse: Vem. Descendo Pedro da barca, caminhava sobre a água para ir a Jesus. Vendo, porém, que o vento era forte, temeu, e, começando a submergir-se, gritou, dizendo: Senhor, salva-me! Imediatamente Jesus estendendo a mão, o tomou e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste? Depois que subiram para a barca, o vento cessou.

(Mt, 14:29-32)

 

Na Associação Juízes para a Democracia (AJD), essa nossa perspectiva aristotélica e tomista era minoritária. Por outro lado, lá eram muitos os adeptos das ideias de Karl Marx. Nas oportunidades em que foi possível o diálogo franco, deixei claro nosso reconhecimento de que, embora a queda do regime soviético no final do século XX tenha abalado o prestígio do marxismo, eram inegáveis as suas contribuições para o conjunto da sabedoria humana. Citava como exemplo a identificação da influência das forças econômicas na dinâmica social, bem como a percepção de que as concepções ideológicas eram socialmente condicionadas. Enfim, as ideias de Marx são necessárias para o conhecimento da realidade, mas são insuficientes. No entanto, embora rejeitássemos a matriz filosófica materialista, identificávamos convergências conosco no pensamento marxista heterodoxo, em especial nas ideias do filósofo italiano Antonio Gramsci, principalmente na compreensão da importância da praxis humana para o enfrentamento da desumanização dos sujeitos e da coisificação das pessoas.  

Nesse enfrentamento é que se situa a nossa confiança no significado da pessoa humana como Imago Dei, criatura à imagem e semelhança de Deus, patamar esse que nos fornece um dos principais fundamentos que passariam a orientar nossa caminhada neste tempo de incertezas. Toda pessoa, e cada um de nós, não somos apenas uma coisa, mas sim somos alguém. Por isso devo respeitar o próximo como um outro eu, concepção que torna possível o crescimento pessoal de todos. Neste amanhecer do terceiro milênio, torna-se ainda necessária a afirmação de que todo homem é um fim em si mesmo e de modo algum pode ser tido como meio para algo, afirmando assim a centralidade da pessoa humana em todas as dimensões da sociabilidade, como legítimo protagonista da vida social. Esse entendimento consubstancia aquilo que os doutos chamam de princípio da dignidade da pessoa humana, segundo o qual não pode haver distinções injustificadas entre indivíduos por razões de origem, raça, cor, sexo, idade, opiniões ou outras formas de discriminação, devendo-se também assegurar um grau mínimo, pelo menos, de subsistência material para o ser humano, objetivando assim impedir a referida coisificação das pessoas.

O princípio da dignidade da pessoa humana é o fundamento sobre o qual estão edificados os chamados direitos humanos, cujo documento de maior destaque é a Declaração universal dos direitos do homem, proclamada pela Organização das Nações Unidas em 1948. Os direitos humanos dizem respeito às aspirações de dignidade da pessoa e acolhem o atendimento de suas carências mais significativas, em todas as fases da existência, em todos as circunstâncias políticas, sociais, econômicas ou culturais. A aparente redundância da locução é explicada pelos especialistas, a partir da lição da filósofa Hannah Arendt, como sendo em razão de ter o mundo contemporâneo se deparado com seres humanos que haviam perdido todas as suas outras referências, salvo que ainda eram humanos. A expressão direitos humanos é usualmente adotada em direito internacional, sendo a forma apresentada em inúmeros tratados e declarações sobre a matéria. A afirmação dos direitos humanos, alicerçada no princípio da dignidade da pessoa humana, tornou-se então o fundamental parâmetro sobre como deveríamos nos comportar, sobre como deveríamos agir. Na qualidade de síntese de todas as discussões teóricas sobre fé, razão, valores, fatos históricos e sociais, era a rejeição aos degenerados formalismos jurídicos e, principalmente, era a resoluta e decidida negação da estupidez e da barbárie.

Aqui nos Sertões da Bahia, nosso lugar de fala, a nossa maior ambição era conseguir colocar em prática a máxima de pensar globalmente, mas agir localmente. As pessoas que não acompanharam o que realizamos ao longo dos anos costumam ficar surpresas quando informo que em 2014 superamos a marca de quinhentas horas devidamente certificadas em atividades de extensão universitária na área de direitos humanos, em parceria com as universidades públicas e instituições de ensino superior privadas da nossa região.

Nessas ações trabalhamos também com várias outras entidades aliadas (como a Girassóis, por exemplo, que agora realiza esta publicação). Mas merece destaque o Conselho da Comunidade para Assuntos Penais de Vitória da Conquista, que há quase trinta anos vem atuando ininterruptamente na área prisional aqui e que chegou a adotar como seu o lema afirmação dos direitos humanos na realidade local.

Nessa nossa circunstância, é certo que alcançamos a consciência irreversível de que não podemos abandonar a rica herança dos Humanismos e de que a afirmação dos direitos humanos é a postura adequada a ser adotada neste nosso tempo de incertezas. Mas também compreendemos que temos de ter a resistente paciência de priorizar o despretensioso agir local, vez que aqui é o lugar onde estamos e cá é que estão as pessoas próximas de nós. Alterando a dinâmica das nossas ações, buscando conscientemente a ênfase no trabalho provinciano, porém esclarecido, passamos a aspirar a elevada distinção de nos tornar um cidadão municipal.

Essa, então, era a espiritualidade da participação que inspirou a temática e a postura dos escritos que estão aqui agora reunidos neste livro. Ela estava presente em todos os textos, mesmo quando aparentemente eram outros os assuntos tratados. Essa era a perspectiva que nos movia e que ainda hoje nos põe em movimento.

Nossa intenção é deste mesmo modo continuar a agir. Enquanto Deus quiser.

Portanto, que seja feita a Sua vontade.

FIAT VOLUNTAS TUA, SICUT IN CAELO ET IN TERRA.

 

Vitória da Conquista, Bahia, em 15 de fevereiro de 2019.

RV


Página 9 do livro “Liberdades Democráticas”


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