SERTÃO LÍQUIDO NA ERA DA PÓS-VERDADE
Reno Viana
(Texto originalmente publicado na revista ESCRI7A, dirigida pelo escritor Aurélio Ricardo Filho, edição nº 15, de junho de 2026.)
Neste início de 2026, publicamos em Vitória da Conquista o nosso livrinho “Um quarto do século XXI”, em que, esboçando reflexões sobre o tempo que vivemos, abordamos temas como o poder invisível das plataformas digitais, o século dos algoritmos e a condição humana na era das redes. Dias depois, conversando com o escritor Aurélio Ricardo Filho, editor da revista ESCRI7A, uma observação feita por ele acabou servindo de ponto de partida para estas linhas.
— Aquela ideia do smartphone como uma espécie de prótese cognitiva ficou na minha cabeça. Existe aí uma discussão filosófica muito maior.
Respondi em tom de brincadeira:
— Para escrever sobre isso, só se os espíritos de Zygmunt Bauman e Jean-François Lyotard baixarem nalgum terreiro aqui do Sertão da Ressaca.
Aurélio riu antes de responder:
— Mas é exatamente isso que eu quero publicar. Filosofia contemporânea atravessada pela poeira do sertão.
Foi assim que acabamos “invocando” simbolicamente esses dois pensadores para uma conversa imaginária no antigo Sertão da Ressaca, território histórico do sudoeste baiano onde se encontra Vitória da Conquista, cidade onde nasceu e vive o autor destas linhas.
Talvez porque até mesmo os espaços tradicionalmente associados à lentidão sertaneja tenham sido alcançados pela velocidade líquida da vida contemporânea.
Foi justamente para compreender essa dissolução das antigas estruturas de estabilidade que Bauman e Lyotard se tornaram referências fundamentais no pensamento contemporâneo. Embora provenientes de trajetórias intelectuais distintas, ambos procuraram interpretar um mesmo fenômeno. O enfraquecimento das antigas certezas da modernidade.
Jean-François Lyotard (1924-1998) tornou-se um dos principais nomes da reflexão sobre a pós-modernidade ao diagnosticar o desgaste das grandes “metanarrativas” construídas desde o Iluminismo. Ideias como progresso, razão universal e verdade objetiva deixaram gradualmente de exercer o antigo poder de convencimento. Em lugar dessas explicações totalizantes, o filósofo percebeu o surgimento de uma época marcada pela fragmentação das experiências, pela multiplicidade de perspectivas e pela desconfiança em relação a qualquer discurso que pretendesse apresentar-se como verdade absoluta.
“A condição pós-moderna”, expressão que celebrizou seu livro publicado em 1979, corresponde justamente a esse ambiente de incredulidade diante das antigas promessas universais da modernidade. O pensamento contemporâneo passa então a voltar-se para narrativas locais, experiências fragmentárias e vozes historicamente marginalizadas.
Se Lyotard descreveu o colapso das antigas verdades universais, Zygmunt Bauman (1925-2017) procurou compreender os efeitos humanos produzidos por essa dissolução. Sua metáfora da “modernidade líquida” tornou-se uma das imagens mais poderosas para interpretar a vida contemporânea.
Segundo Bauman, as estruturas que antes transmitiam estabilidade, como relações afetivas, instituições, projetos coletivos, identidades sociais e até trajetórias profissionais, passaram a adquirir uma condição fluida, instável e transitória. Nada parece destinado a durar muito tempo. Os vínculos humanos tornam-se frágeis, as identidades se transformam rapidamente e a sensação de insegurança converte-se em experiência cotidiana permanente.
A lógica do consumismo intensifica ainda mais esse cenário. Na sociedade líquida, tudo tende a ser rapidamente adquirido, utilizado e descartado. Objetos, informações, opiniões e até relações humanas. O indivíduo passa a ser constantemente pressionado pela velocidade, pela adaptação contínua e pela necessidade permanente de atualização.
Ao mesmo tempo, antigos projetos coletivos de transformação social enfraquecem-se. Muitos indivíduos passam a refugiar-se em experiências cada vez mais individualizadas e mediadas pela tecnologia. A conexão virtual substitui gradualmente o convívio concreto, enquanto as relações sociais parecem escorrer pelos vãos dos dedos, como sugeria o próprio Bauman.
Foi justamente nesse ambiente de fragmentação cultural e liquidez social que floresceu aquilo que hoje se convencionou chamar de pós-verdade. Em grande medida, ela pode ser compreendida como consequência extrema desse enfraquecimento das antigas referências de verdade objetiva e racionalidade compartilhada. A chamada era da pós-verdade será esse período em que emoções, crenças e narrativas ideológicas passam a influenciar mais a opinião pública do que fatos objetivamente verificáveis.
Se a pós-modernidade relativizou as antigas certezas filosóficas, a era digital transformou essa instabilidade em experiência cotidiana permanente. A expansão das redes sociais alterou profundamente as formas de comunicação, sociabilidade e participação política. Plataformas digitais passaram a disputar diretamente a construção da percepção da realidade.
Nesse novo ambiente informacional, o debate racional cede espaço com frequência ao impacto emocional imediato. Narrativas mobilizadoras tornam-se mais poderosas do que análises complexas. Fake news espalham-se com enorme velocidade, impulsionadas não apenas por algoritmos, mas também pela própria tendência humana de compartilhar conteúdos emocionalmente impactantes sem verificação prévia.
As plataformas digitais intensificam esse fenômeno ao operar através de mecanismos que favorecem afinidades ideológicas e reforçam bolhas informacionais. O usuário passa a consumir predominantemente conteúdos semelhantes às suas próprias convicções, reduzindo o contato com perspectivas divergentes.
Nesse contexto, o lançamento do iPhone, em 2007, tornou-se um marco simbólico decisivo. A internet deixou de ser acessada ocasionalmente em computadores fixos e passou a acompanhar permanentemente milhões de pessoas em seus bolsos. O smartphone consolidou-se como instrumento central da vida contemporânea. Uma espécie de prótese cognitiva capaz de armazenar memórias, organizar deslocamentos, mediar afetos e participar da própria construção das identidades sociais.
Ao longo das primeiras décadas do século XXI, gigantes tecnológicas como Google, Apple, Meta, Amazon e Microsoft passaram a controlar fluxos massivos de informação, transformando dados em um dos ativos econômicos mais valiosos do planeta. A experiência cotidiana dos indivíduos tornou-se progressivamente mediada por telas, notificações e algoritmos invisíveis.
No antigo Sertão da Ressaca, essas transformações adquirem contornos particularmente simbólicos. Durante muito tempo, o sertão foi associado à lentidão das distâncias, à permanência das relações pessoais e a formas mais diretas de convivência humana. Hoje, porém, mesmo sob o frio leve e o céu acinzentado de Vitória da Conquista, a vida cotidiana também passou a ser atravessada pelos fluxos incessantes da modernidade digital. O smartphone conecta instantaneamente o sudoeste baiano às disputas narrativas globais, às redes sociais e aos algoritmos das grandes plataformas tecnológicas. A antiga poeira das estradas sertanejas convive agora com a luminosidade contínua das telas, revelando como até mesmo os espaços historicamente considerados periféricos foram incorporados à experiência fragmentada, acelerada e líquida do século XXI.
Mesmo cidades interioranas e regiões historicamente marcadas pelo ritmo lento da vida sertaneja passaram a integrar essa nova arquitetura global da conectividade permanente. O antigo Sertão da Ressaca também ingressou definitivamente na modernidade líquida. A poeira das estradas passou a conviver com o brilho frio das telas digitais.
Diante desse cenário, muitos pensadores sustentam que a superação da crise contemporânea não poderá surgir apenas da própria tecnologia. A reconstrução de vínculos sociais, da confiança pública e da própria ideia de verdade compartilhada tornou-se um dos grandes desafios do nosso tempo.
Isso talvez exija o resgate de antigas habilidades de convivência enfraquecidas pela cultura digital. A capacidade de escutar o outro, conviver com diferenças, negociar conflitos e construir experiências coletivas concretas fora das bolhas virtuais. Exige também educação crítica capaz de formar cidadãos preparados para compreender os mecanismos de manipulação emocional e desinformação que atravessam o ambiente digital contemporâneo.
Mais do que simples crise tecnológica, a pós-verdade parece revelar uma crise mais profunda da própria experiência social contemporânea. Uma crise marcada pela fragmentação das referências comuns, pela dissolução dos vínculos coletivos e pela dificuldade crescente de estabelecer consensos mínimos sobre a realidade compartilhada.
Nesse processo de reconstrução social, o Estado continua desempenhando papel absolutamente decisivo. Em uma época marcada pela concentração de poder nas grandes plataformas digitais e pela fragmentação produzida pelos algoritmos, torna-se cada vez mais necessária a presença de instituições públicas capazes de proteger o interesse coletivo, fortalecer a educação crítica, garantir políticas de inclusão digital e preservar espaços democráticos de convivência social. Mais do que simples agente regulador da economia, o Estado reaparece como instrumento essencial de mediação política e defesa da própria esfera pública, sobretudo diante de um cenário em que fluxos privados de informação passaram a exercer influência crescente sobre a percepção da realidade, sobre o debate democrático e até mesmo sobre a formação das subjetividades contemporâneas.
Talvez seja exatamente nesse ponto que as vozes imaginárias de Bauman e Lyotard ainda ecoem com força no velho Sertão da Ressaca. Não como profetas capazes de oferecer respostas definitivas, mas como intérpretes de um tempo em que até mesmo as paisagens aparentemente mais sólidas passaram a dissolver-se na fluidez inquieta da modernidade líquida.


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