17 fevereiro 2026

ALTERNATIVOS, ALTERNATIVAS

 


ALTERNATIVOS, ALTERNATIVAS 

Reno Viana


(Texto postado na internet em 22 de março de 2011. Depois constou do livro "Liberdades Democráticas", Edt. Girassóis, 2019.)


Hoje terminei de ler pela segunda vez o mais impressionante livro que tive em mãos nos últimos tempos. Trata-se de um admirável ensaio escrito pelo jornalista e sociólogo Perseu Abramo, intitulado Padrões de manipulação na grande imprensa.

Tive a honra de receber este livro da juíza Kenarik Boujikian, cofundadora e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia, tempos depois de uma conversa nossa em São Paulo, quando comentamos a longa entrevista que ela concedera em 2009 à revista Caros amigos. Sempre gostei de ler essa revista. Não apenas pelo conteúdo muito bom, mas também porque a publicação lembra a imprensa alternativa dos tempos da ditadura militar.

Nasci em uma família que sempre gostou de ler jornais. Meu pai, por exemplo, durante cinquenta anos foi leitor assíduo do jornal A tarde, tido como o principal da Bahia. Durante a ditadura, lá em nossa casa também se lia tabloides alternativos de oposição ao regime militar então vigente. A presença desses tabloides era, certamente, influência do advogado Elquisson Soares.

Lançado pela esquerda de Vitória da Conquista e apoiado pelo célebre Francisco Pinto, de Feira de Santana, durante a ditadura Elquisson seria eleito e reeleito Deputado Federal pela Bahia. No Congresso Nacional, ele e Chico Pinto fariam parte de um agrupamento chamado Tendência Popular, corrente política que atuava dentro do MDB e que era umbilicalmente ligada ao jornal Movimento, um dos principais veículos nacionais da imprensa alternativa daquela época. A Tendência Popular chegava a fazer parte do próprio conselho de redação do tabloide.

Muitos anos depois, em Vitória da Conquista, lembro que certo dia recebi um telefonema de Elquisson, dizendo que queria me apresentar a um amigo. Nesse dia eu conheceria pessoalmente Raimundo Rodrigues Pereira.

Expulso do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) pelo golpe militar de 1964, Raimundo concluiria seus estudos na Universidade de São Paulo e se tornaria jornalista. Embora tenha sido um dos principais pioneiros da revista Veja, logo deixaria a grande imprensa e se tornaria editor de tabloides alternativos, como o conceituado Opinião e, depois, o já mencionado Movimento.

Para mim foi um grande privilégio ter tido a oportunidade de conhecê-lo e com ele poder conversar longamente. A influência dele, sem dúvida, é um dos motivos que me levaram a ser hoje um blogueiro e a escrever textos como este que agora está sendo lido.

Foi através de Raimundo Rodrigues Pereira que tomei conhecimento de detalhes da trajetória do jornalista Perseu Abramo, inclusive em relação à passagem deste pela Folha de São Paulo e pelo próprio jornal Movimento. Percebi então que Abramo era também o sociólogo autor de alguns textos que eu tinha lido na faculdade, como o trabalho intitulado Pesquisa em ciências sociais: um guia para estudantes, lançado há muitos anos pela Universidade Federal da Bahia, onde ele lecionara.

Dessa forma, quando a juíza Kenarik Boujikian me falou do livro Padrões de manipulação na grande imprensa, pensei que já sabia mais ou menos do que se tratava.

Mas, no entanto, eu estava enganado. O livro me surpreendeu.

Extremamente bem escrito, o texto analisa em profundidade a maneira como a grande mídia se torna um instrumento de controle político. Buscando em sua atividade não o lucro econômico, cuja obtenção poderia ser mais fácil em outras atividades empresariais, segundo o autor, os grandes veículos de comunicação atuariam motivados pela lógica do poder.

Essa ideia, em si mesma, não é nova. Qualquer pessoa minimamente bem informada tem pelo menos uma intuição dessa realidade. O que é formidável é a análise minuciosa que Perseu Abramo faz das técnicas que, aplicadas rotineiramente, levam àquele resultado, criando o que qualifica de realidade artificial, não real, irreal, apresentada no lugar da realidade real.

O livro é tão prodigioso, que vou fazer como a juíza Kenarik Boujikian: vou comprar alguns exemplares para as pessoas que conheço e que se interessam pelo tema. Uma dessas pessoas seria Elquisson Soares, que hoje vive quase recluso em sua fazenda na Barra do Choça, próximo a Vitória da Conquista. Acho que ele também vai gostar.

 


1979


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