ALTERNATIVOS, ALTERNATIVAS
Reno Viana
(Texto postado na internet em 22 de março de 2011. Depois constou do livro "Liberdades Democráticas", Edt. Girassóis, 2019.)
Hoje terminei de ler pela segunda vez o mais impressionante livro que tive em mãos nos últimos tempos. Trata-se de um admirável ensaio escrito pelo jornalista e sociólogo Perseu Abramo, intitulado Padrões de manipulação na grande imprensa.
Tive a honra de receber este livro da juíza Kenarik Boujikian,
cofundadora e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia, tempos
depois de uma conversa nossa em São Paulo, quando comentamos a longa entrevista
que ela concedera em 2009 à revista Caros
amigos. Sempre gostei de ler essa revista. Não apenas pelo conteúdo muito bom, mas também porque a
publicação lembra a imprensa alternativa dos tempos da ditadura militar.
Nasci em uma família que sempre gostou de ler jornais. Meu pai,
por exemplo, durante cinquenta anos foi leitor assíduo do jornal A tarde, tido como o principal da Bahia.
Durante a ditadura, lá em nossa casa também se lia tabloides alternativos de
oposição ao regime militar então vigente. A presença desses tabloides era,
certamente, influência do advogado Elquisson Soares.
Lançado pela esquerda de Vitória da Conquista e apoiado pelo
célebre Francisco Pinto, de Feira de Santana, durante a ditadura Elquisson
seria eleito e reeleito Deputado Federal pela Bahia. No Congresso Nacional, ele
e Chico Pinto fariam parte de um agrupamento chamado Tendência Popular,
corrente política que atuava dentro do MDB e que era umbilicalmente ligada ao
jornal Movimento, um dos principais
veículos nacionais da imprensa alternativa daquela época. A Tendência
Popular chegava a fazer parte do próprio conselho de redação do tabloide.
Muitos anos depois, em Vitória da Conquista, lembro que certo dia
recebi um telefonema de Elquisson, dizendo que queria me apresentar a um amigo.
Nesse dia eu conheceria pessoalmente Raimundo Rodrigues Pereira.
Expulso do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) pelo golpe
militar de 1964, Raimundo concluiria seus estudos na Universidade de São Paulo
e se tornaria jornalista. Embora tenha sido um dos principais pioneiros da
revista Veja, logo deixaria a grande
imprensa e se tornaria editor de tabloides alternativos, como o conceituado Opinião e, depois, o já mencionado Movimento.
Para mim foi um grande privilégio ter tido a oportunidade de
conhecê-lo e com ele poder conversar longamente. A influência dele, sem dúvida,
é um dos motivos que me levaram a ser hoje um blogueiro e a escrever
textos como este que agora está sendo lido.
Foi através de Raimundo Rodrigues Pereira que tomei conhecimento
de detalhes da trajetória do jornalista Perseu Abramo, inclusive em relação à
passagem deste pela Folha de São Paulo e
pelo próprio jornal Movimento.
Percebi então que Abramo era também o sociólogo autor de alguns textos que eu
tinha lido na faculdade, como o trabalho intitulado Pesquisa em ciências
sociais: um guia para estudantes, lançado há muitos anos pela Universidade
Federal da Bahia, onde ele lecionara.
Dessa forma, quando a juíza Kenarik Boujikian me falou do livro Padrões de manipulação na grande imprensa,
pensei que já sabia mais ou menos do que se tratava.
Mas, no entanto, eu estava enganado. O livro me surpreendeu.
Extremamente bem escrito, o texto analisa em profundidade a
maneira como a grande mídia se torna um instrumento de controle político.
Buscando em sua atividade não o lucro econômico, cuja obtenção poderia ser mais
fácil em outras atividades empresariais, segundo o autor, os grandes veículos
de comunicação atuariam motivados pela lógica do poder.
Essa ideia, em si mesma, não é nova. Qualquer pessoa minimamente
bem informada tem pelo menos uma intuição dessa realidade. O que é formidável é
a análise minuciosa que Perseu Abramo faz das técnicas que, aplicadas
rotineiramente, levam àquele resultado, criando o que qualifica de realidade artificial, não real, irreal,
apresentada no lugar da realidade real.
O livro é tão prodigioso, que vou fazer como a juíza Kenarik
Boujikian: vou comprar alguns exemplares para as pessoas que conheço e que se
interessam pelo tema. Uma dessas pessoas seria Elquisson Soares, que hoje vive
quase recluso em sua fazenda na Barra do Choça, próximo a Vitória da Conquista.
Acho que ele também vai gostar.
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| 1979 |


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