Reno Viana
(Texto postado na internet em 31 de janeiro de 2011. Depois constou do livro "Liberdades Democráticas", Edt. Girassóis, 2019.)
Hoje eu pretendia voltar a escrever neste blog sobre cadeias, mas
tive que mudar de ideia. A enorme repercussão entre os nossos leitores do poema
Réu confesso, de Luizão Ferraz, exigiu outro assunto.
O referido poema é uma obra-prima e de certa forma parece ser uma
espécie de prefácio ao conteúdo deste
blog Liberdades democráticas. As nossas postagens terão pela frente,
assim, o grande desafio de corresponder à homenagem recebida.
Essa situação delicada em que nos encontramos mostra o perigo
representado pelos prefácios.
O crítico literário Otto Maria Carpeaux escreveu um texto
intitulado O artigo sobre os prefácios,
que pode ser encontrado no segundo volume dos seus Ensaios reunidos, livro publicado pela Editora Topbooks em parceria
com a UniverCidade. Segundo ele, na história da literatura ocidental o prefácio
já teria sido justificativa, pedido de desculpa, desafio, manifesto, crítica,
sentença, prólogo, epílogo e até mesmo epitáfio.
Esse tema nos faz lembrar novamente do jurista e sociólogo A. L.
Machado Neto, cujo primeiro livro, em razão do respectivo prefácio, faz parte
do folclore intelectual baiano. Lançado em 1952, quando o autor tinha apenas
vinte e dois anos de idade, a primeira edição do livro Marx e Mannheim: dois aspectos da sociologia do conhecimento trazia uma longa introdução assinada
pelo conceituado jurista Nelson de Sousa Sampaio (1914-1985). No meio jurídico
baiano sempre se disse que esse prefácio era melhor do que o livro propriamente
dito, escrito por um então iniciante. Esse fato teria ensejado inúmeras piadas,
passando a se tornar folclórico. Curiosamente, na segunda edição do livro a
longa introdução foi suprimida.
Depois que postei o texto Quando o direito mente, alguns
leitores perguntaram por que eu insistia em falar sobre A. L. Machado Neto, se
não era adepto das ideias que ele sustentava. Talvez o motivo não tenha ficado
suficientemente claro naquela postagem. Então peço licença para esclarecer que,
na perspectiva da sociologia jurídica, as ideias sustentadas nos textos deste Blog,
de um modo geral, estarão fundamentadas em uma orientação que busca fugir das
meras palavras, em busca de uma
aproximação com os fatos reais.
Teríamos assim uma espécie de diretriz sociológica: fatos, não palavras.
Assim, a obra de A. L. Machado Neto como também a de Nelson de
Sousa Sampaio estariam situadas nessa perspectiva, no contexto evolutivo do
nosso meio jurídico. Eles representariam um momento de transformação, em que
gradualmente se tenta um afastamento do formalismo retórico do direito
tradicional, com o início entre nós de uma investigação sistemática da nossa
realidade concreta. Não era à toa que o já mencionado primeiro livro de A. L.
Machado Neto trazia no próprio título uma ousada e explícita referência ao nome
de Karl Marx. Em semelhante panorama estaria a vasta obra de Nelson de Sousa
Sampaio, com destaque para os livros A desumanização da política,
de 1951, e O
diálogo democrático na Bahia, de 1960.
Como se sabe, essa evolução das palavras em direção aos fatos encontra
uma similitude até na própria mística cristã trazida pela Bíblia Sagrada. Está lá,
no Evangelho segundo São João, em seu capítulo primeiro, que no princípio era o Verbo, e o Verbo estava
com Deus, e o Verbo era Deus. Falando sobre a pessoa de Jesus Cristo, em
sua historicidade factual e concreta, o mesmo São João acrescenta: e o Verbo se fez carne, e habitou entre nós.
Essa diretriz que apontamos, entretanto, não pode ser tratada de
forma inflexível e dogmática. Existem matizes, evidentemente. O poema Réu
confesso, de Luizão Ferraz, por exemplo, embora coerente com os ideais que
sustentamos aqui, trata-se de um genial jogo de palavras, cuja polissemia intrínseca admite inúmeras interpretações
para os seus versos.
Enfim, nós teremos que nos empenhar com muito brio para estar à
altura do nosso prefácio.
Além disso, outro aspecto a considerar é que a nossa Associação
Juízes para a Democracia, inspiradora do nosso trabalho, está se
transformando em uma autêntica associação de juízes blogueiros. No Sertão da
Bahia, temos o grande juiz Gerivaldo Neiva. No Rio Grande do Norte, o brilhante
juiz Rosivaldo Toscano Jr. Em Santa Catarina, o admirável juiz Alexandre Morais
da Rosa. Em São Paulo, o juiz e romancista Marcelo Semer, além do juiz e
filósofo Alberto Muñoz. Em todo o Brasil, outros tantos colegas juízes
difundindo essa iniciativa.
O blog Liberdades democráticas terá que se esforçar muito
para estar à altura dos seus congêneres e, mantendo-se fiel à sua diretriz
sociológica, atender às expectativas do seu público.


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