ELQUISSON SOARES E A POLÍTICA
EM NÓS
Reno Viana Soares
(Texto escrito em 2017 para o livro “Elquisson – O
menino da vila”, do Professor Durval Lemos Menezes, lançado pela Edt. Kelps, em
2022.)
O professor Durval Menezes pediu-me um depoimento escrito para o livro que está escrevendo sobre a trajetória do advogado baiano Elquisson Soares. Dois motivos fortes me obrigaram a atender ao pedido do eminente educador. O primeiro é que neste ano de 2017, quando escrevo, estou completando oito anos de atuação como juiz titular no mesmo Tribunal do Júri da cidade baiana de Vitória da Conquista em que, há quase cinquenta anos, o ilustre advogado começou a se tornar afamado. O segundo motivo que me obrigou a redigir o presente texto foi o fato de que o aludido bacharel cuja carreira será estudada eventualmente é meu tio.
A memória da atuação do advogado Elquisson Soares no Tribunal do Júri se confunde com as minhas primeiras lembranças da infância. Certamente isso pode ter alguma relação inconsciente ou não com o fato de eu estar hoje aqui, tantos anos depois, mourejando todos os dias nos angustiados casos levados a julgamento no tribunal popular.
Por razões familiares, nossos caminhos sempre estiveram entrelaçados. Como em todas as famílias, vivenciamos inúmeros dramas, alguns grandes, outros pequenos, mas também compartilhamos alegrias e regozijos, Graças a Deus. Essas vivências e os respectivos sentimentos que proporcionaram dificilmente poderiam ser transformados em palavras, pelo menos dentro das limitações expressivas do modesto redator destas linhas. No entanto, tentando revelar alguns traços da personalidade do indivíduo de quem ora tratamos, resolvi rememorar abaixo três episódios que me deixaram impressões profundas, genuínos nós existenciais que exigiram de mim algum esforço para desatar, expondo situações que fogem um pouco daquilo que normalmente acontece na maioria das famílias comuns.
Antes, porém, pensando em eventuais leitores que possam se deparar com o presente relato em contexto diverso daquele para o qual está sendo originalmente escrito, penso ser necessário mencionar alguns marcos biográficos principais do sujeito de quem estamos tratando.
O referido indivíduo chama-se Elquisson Dias Soares. Ele nasceu em 1940, na zona rural da cidade de Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia, em um pequeno arruado conhecido como São João da Vila Nova, às margens do Rio Gavião. Essa localidade, depois de elevada a condição de Município, passou a se denominar Anagé. Ainda hoje trata-se de uma povoação de feições rústicas, situada em uma região pastoril, em pleno sertão semiárido. Por volta de 1959, o jovem Elquisson seguiu o mesmo destino de muitos dos seus conterrâneos sertanejos e emigrou para o sul do País. Foi para o Rio de Janeiro. Por lá, certamente com algum sacrifício, conseguiu formar-se advogado. Em 1971 resolve retornar para a Bahia. De volta a Vitória da Conquista, ganha aqui fama de destemido e combativo. Profissional bem-sucedido, torna-se também produtor rural e empreendedor. Enveredando pela Política, disputa eleições, vários pleitos, algumas vezes alcançando êxito, outras vezes não.
Esse é o personagem principal dos acontecimentos que quero rememorar.
Assim, relembro primeiramente episódio acontecido no distante ano de 1978. Estávamos em plena ditadura, no final do mandato presidencial do general Ernesto Geisel. Nesse ano aconteceriam eleições e Elquisson era candidato a deputado federal pelo único partido de oposição existente à época, o MDB. Eu era criança e meus pais residiam em Vitória da Conquista, no Bairro São Vicente, próximo ao centro da cidade. O episódio que quero narrar aconteceu em nossa casa, em reunião na qual se encontravam Elquisson e seus irmãos Elbson (“Bibi”) e Edson, esse último meu pai. Também se encontrava presente meu irmão Antonio Ernesto, então ativo militante político. Em determinado momento, Elbson (“Bibi”), que exercia o primeiro dos seus futuros cinco mandatos como prefeito de Anagé, irrita-se e esbraveja com veemência:
- Você não é comunista, Elquisson! Comunista é
Haroldo Lima, que está lá na cadeia preso...
Essas palavras ficaram para sempre gravadas em minha mente e o meu esforço inocente para entender o que significavam marcou para mim o final da minha infância e o ingresso no mundo adulto. Aos poucos fui entendendo o que estava acontecendo. Elquisson visitara na cadeia o dirigente Haroldo Lima e os comunistas de forma velada passaram a apoiar sua candidatura a deputado federal. O assunto tratado na reunião em nossa casa versava sobre o fato de que os comitês eleitorais da sua candidatura estariam sendo usados para rearticulação clandestina do Partido Comunista do Brasil.
Elquisson era amigo dos comunistas. O advogado Ruy Medeiros, seu antigo colega de escritório, era um deles e por isso fora preso e torturado pela ditadura. Outro colega seu, o advogado Rosalindo de Sousa, igualmente era e morrera como guerrilheiro na região do Araguaia. Na véspera de partir para a guerrilha na selva, Rosalindo teria convidado Elquisson para ir também. Essas eram histórias que eu ia descobrindo a partir daquela épica reunião.
Haroldo Lima, o dirigente comunista que Elquisson visitara na prisão, depois de solto tornou-se também parlamentar. Na Câmara dos Deputados eles dois se juntariam ao renomado líder oposicionista Francisco Pinto, formando um grupo que ficaria conhecido em Brasília como a “Tendência Popular”, agrupamento que atuava dentro do PMDB.
Esses três parlamentares estavam juntos no segundo episódio que quero rememorar. Esse fato aconteceu em 1986, em Salvador, Bahia, onde eu como jovem estudante universitário residia na ocasião. Tratava-se do grande comício de encerramento da campanha progressista de Waldir Pires para governador. No ano anterior tivera fim o regime militar, acontecera a morte dramática do presidente Tancredo Neves e naquele momento já estávamos na chamada “Nova República”. No entanto, poucos meses após o civil José Sarney assumir a Presidência da República, Elquisson rompera com seus antigos companheiros e voltara para a oposição, passando a acompanhar as propostas do socialismo moreno de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.
Naquele comício em
Salvador, uma multidão incalculável ocupava a Praça Castro Alves, no centro da
capital baiana. Nos jornais do dia seguinte as autoridades falavam em cento e
vinte mil pessoas presentes no ato. Foi o prestígio político do lendário
Francisco Pinto que assegurou a Elquisson espaço naquela manifestação
gigantesca, como um dos principais oradores a falar. Ele proferiu ali um dos
seus mais violentos discursos. Perante aquela multidão descomunal, sua voz
firme e sua gesticulação segura arrancaram aplausos frenéticos. Eu estava lá e
vi. Até hoje me lembro das suas ásperas palavras:
- Não se pergunta a uma mulher grávida se ela é
virgem...
Depois disso,
muitos anos se passaram até chegarmos ao terceiro episódio que desejo
rememorar. Em 2010, no último ano do segundo mandato de Lula na Presidência da
República, Elquisson já era um septuagenário. Aparentemente, um homem mais
tranquilo. Quanto a mim, já atuava como juiz de direito em Vitória da
Conquista. Foi nesse ano que mostrei para ele as ofensas que lhe eram dirigidas
pelo ex-ministro da fazenda Maílson da Nóbrega, em livro publicado naquele ano,
intitulado “Além do Feijão com Arroz”, no qual o tecnocrata tentava
explicar suas ideias danosas ao imprescindível Banco do Brasil. Na
página 310 do livro, o ex-ministro do Governo Sarney escrevia:
“Fui convocado para explicar as propostas na
Câmara dos Deputados (…) O deputado Elquisson Soares, do PMDB da Bahia e autor
do convite, fez um discurso inflamado contra o projeto. Ao final, sentenciou:
Vossa Senhoria é o inimigo público número um do Banco do Brasil. Ninguém se
levantou em defesa do nosso trabalho. Não consegui reagir à altura aos ataques
pessoais do deputado Elquisson, para me contrapor à demagogia de um parlamentar
que olhava os votos que podia conquistar”.
Elquisson, na oportunidade em que lhe mostrei esse livro, com revigorada contundência explicou sua atuação em defesa do Banco do Brasil e das empresas estatais estratégicas, reafirmando suas antigas e enraizadas posições nacionalistas. Na luta por elas não somente fizera aguerridos discursos, como também obtivera deferimento em várias medidas judiciais de grande relevância. Além, é claro, de receber os insultos e impropérios de sempre por parte dos entreguistas de variados matizes.
Desses três episódios acima rememorados, ocorridos em momentos distintos da evolução política do Brasil, ficaram algumas impressões resultantes da convivência de tantos anos com Elquisson. Delas, certamente, resultaram algumas importantes lições.
A mais imediata, obviamente, é a importância da conscientização política para todos nós. Muitas decisões que afetam quase todos os aspectos da nossa vida são tomadas nesse âmbito. Não é mero lugar-comum dizer que quem tem nojo da Política é governado por quem não tem. Todavia, se por um lado o desinteresse das pessoas interessa e favorece aos mal-intencionados, por outro lado as grandes transformações exigem esforço de mobilização de muita amplitude e de singular intensidade. Além disso, exige fundamental cuidado a percepção de que a realidade local não se encontra isolada, mas sim intimamente interligada com dimensões mais amplas da existência coletiva, em horizonte de caráter nacional e até internacional.
Porém, em nível mais profundo, que talvez escape ao olhar do observador menos atento, vislumbro também uma dimensão pedagógica na trajetória de Elquisson, considerando o lugar de onde saiu, aquilo em que se tornou e os espaços que ocupou. Isso porque todo ser humano nasce com infinitas possibilidades. Mas vem ao mundo desprovido das necessárias habilidades para efetivá-las. As diversas competências exigidas pela vida ele terá de adquirir. Nesse sentido, o itinerário existencial de Elquisson contou com uma Pedagogia, tanto em termos de educação formal, como também de ampliação das percepções sociais. A participação política, em especial, exigiu dele uma leitura da realidade que trouxe ao percurso de sua vida e ao seu espaço vital, familiar e comunitário, uma dimensão que, na ausência de expressão melhor para definir, eu arriscaria chamar de influência civilizatória. Em outras palavras, ousaria dizer que o movimento de sua vida foi sempre admiravelmente libertador.
Esboçando uma
avaliação de tudo que foi dito aqui, à luz dos aspectos pontuados e tendo em
vista os talentos singulares da pessoa considerada, reconheço razão em quem
disse que vai demorar uns cem anos para surgir em Anagé outro indivíduo tão
altivo e desassombrado como o cidadão Elquisson Dias Soares.


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