O QUE SÃO LIBERDADES
Reno Viana
(Texto postado na internet em 06 de abril de 2011. Depois constou do livro "Liberdades Democráticas", Edt. Girassóis, 2019.)
Nos últimos dias, aqui em Vitória da Conquista, Bahia, como também
no ciberespaço, estivemos trabalhando
na criação de um pequeno grupo de estudos para analisar o sempre relevante tema
das liberdades.
Palavras muito utilizadas (como felicidade, democracia, socialismo
etc), com o tempo vão perdendo sua capacidade de comunicação, não se sabendo
exatamente qual a ideia transmitida quando são enunciadas. Esse é o caso também
da palavra liberdade, razão pela qual necessitamos descobrir exatamente qual
seu significado, inclusive considerando a importância desse conceito nas
respectivas áreas em que atuamos.
Embora sem nunca ter sabido precisamente qual sua adequada
definição, tenho convivido com essa palavra desde que entrei para a escola.
Lembro, por exemplo, que ainda era criança quando ouvia as professoras do
ensino fundamental falarem que Castro Alves era o poeta da liberdade.
De fato, o ilustre poeta baiano era um colosso. Quanto mais
conheço sua obra, mais admiro sua figura extraordinária. Espero, inclusive,
poder realizar um estudo aprofundado sobre o drama de sua autoria intitulado Gonzaga ou a revolução de Minas, peça em
que Castro Alves escreve sobre Tomás Antônio Gonzaga, outro gigante da
literatura brasileira.
Nascido em Portugal, criado no Brasil, depois exilado em
Moçambique, Tomás Antônio Gonzaga foi um pioneiro da chamada lusofonia, tendo sua existência
associada a essas nações que hoje integram a comunidade dos países de língua
portuguesa. Figura de destaque no histórico episódio da Inconfidência Mineira,
o autor do célebre poema Marília de
Dirceu é também considerado um dos heróis da liberdade no Brasil.
Mas o que é mesmo liberdade?
Ainda nos meus tempos de estudante, lembro que no início da década
de 1980 tiveram enorme sucesso no nosso meio escolar os livrinhos de bolso da
coleção Primeiros passos, lançada
pela Editora Brasiliense. Os títulos dessa coleção traziam sempre a expressão o que é. Escrito pelo consagrado
intelectual Caio Prado Júnior, recordo que o volume O que é liberdade causou-me uma enorme decepção.
Caio Prado Júnior era uma unanimidade na área das ciências
humanas, como um dos maiores historiadores do Brasil. Além disso, era também
autor de trabalhos importantes no campo da filosofia, estudando a dialética
marxista. Na coleção Primeiros passos,
era igualmente autor do volume O que é
filosofia. Na época em que o li, no início do curso universitário, o
livrinho O que é liberdade deixou-me
profundamente decepcionado. Argumentando a partir da noção de liberdade como consciência histórica da necessidade, o texto era extraído de outro
livro intitulado O mundo do socialismo,
no qual o historiador fazia uma ortodoxa e equivocada defesa da extinta União
Soviética.
Nessa época, eu estava estudando textos de filosofia
existencialista, descobertos a partir de antigas pesquisas de caráter religioso
sobre questões como o livre-arbítrio e a predestinação, temas centrais do
pensamento cristão desde Santo Agostinho e que repercutiam em aspectos da
teoria jurídica como a autonomia da vontade, a culpa e os fundamentos da
responsabilidade. Dentre os filósofos existencialistas (Kierkegaard, Nietzsche,
Heidegger, Jaspers etc), o francês Jean-Paul Sartre teria sido quem elaborou de
forma mais sistemática e minuciosa uma teoria da liberdade. Seu conceito de coeficiente de adversidade me despertava
particular simpatia, uma vez que concordava que a resistência apresentada ao
indivíduo pelo ambiente muitas vezes podia ser superada. Dizia Sartre: o importante não é o que fazem de nós, mas o
que nós próprios fazemos daquilo que fazem de nós.
Nesse contexto, fiquei apoquentado quando li no livro Dialética do Conhecimento os termos que
o autor Caio Prado Junior utilizava para se referir a Sartre: literato desarvorado metido a filósofo, em
disputa nos prostíbulos existencialistas. Essas últimas palavras, até onde
eu tinha conhecimento, estavam fazendo referência aos célebres restaurantes
parisienses Cafe de flore, Les deux
magots e La coupole,
estabelecimentos no passado frequentados pelos filósofos e depois pelos
turistas, eu inclusive.
Então, quando li o já referido livrinho de Caio Prado Junior,
reconheço que estava um pouco de má vontade. Porém, reconhecendo seu enorme
valor intelectual como historiador e filósofo, pretendo voltar a fazer uma nova
leitura dessa sua malfadada obra. Penso, no entanto, que pouca coisa nela tenha
sobrevivido ao tempo e ao devir da
História.
De qualquer sorte, a pergunta persiste. O que é liberdade?
Nos meus tempos de estudante, dizia-se que a enciclopédia Mirador era a melhor então disponível
em língua portuguesa. Na referida obra, porém, não existia um verbete
específico para o tema liberdade. O
assunto era abordado de forma dispersa em outros tópicos. Essa omissão era
relevante e reveladora, na medida em que aquela enciclopédia tinha sido
elaborada por um grupo de respeitados intelectuais, liderados por figuras como
Antônio Houaiss e Otto Maria Carpeaux, dentre outros luminares.
O fato é que já ouvi pessoas muito inteligentes dizendo que a
liberdade não existe. Da minha parte, eu hoje arriscaria dizer que a liberdade,
no singular, talvez realmente não exista. Existiria, sim, o plural –
liberdades.
O que são as liberdades? Esse é o tema que o nosso grupo de estudos pretende analisar.


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