O BRASIL É UM PAÍS QUE PRENDE MUITO, PORÉM, PRENDE MAL
(Entrevista ao jornalista FÁBIO SENA. Transcrição de áudio: Sabrina de Oliveira. Publicada no Jornal do Sudoeste, Ano XVI, Edição 556, 16 a 28 de janeiro de 2015. Depois constou do livro "Liberdades Democráticas", Edt. Girassóis, 2019.)
Titular da Vara de Júri e Execução Penal em Vitória da Conquista,
absolutamente comprometido com as políticas de ressocialização de detentos e
convicto de que o Estado não conseguirá dar conta desta fundamental tarefa
social sem apoio da sociedade civil organizada, o juiz Reno Viana Soares é um
crítico mordaz do modelo penitenciário brasileiro e advoga pela promoção de um
projeto nacional capaz de superar o drama da superpopulação carcerária. Segundo
ele, o Brasil prende muito, mas prende mal, de modo que a imensidão de presos
não redunda em melhoria do sistema de segurança pública. Há uma desvinculação
entre a quantidade de prisões efetuadas e a eficácia dessas prisões no sentido
de assegurar maior segurança à população.
Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Fábio Sena, o juiz Reno
Viana Soares defende que os presos oriundos de Vitória da Conquista cumpram
suas penas em unidades prisionais locais, não em Salvador. Indagado sobre o
permanente debate sobre redução da maioridade penal, em pauta sempre que um
fato envolvendo menores de idade ganha repercussão nacional, o juiz Reno Soares
é categórico ao afirmar que não enxerga na redução da maioridade uma solução. Na verdade, isso só
agravaria a nossa situação de superpopulação carcerária, adverte. É
legítimo a nação destinar à sua juventude a cadeia? Eu acho que a nação deveria
oferecer um futuro melhor para sua juventude.
Logo abaixo, leia na íntegra a entrevista com a juiz Reno Viana
Soares.
- Doutor Reno, o senhor tem tido um trabalho permanente na luta pelos Direitos Humanos. Que avaliação o senhor faz do cumprimento dos direitos no Brasil, dos Direitos Humanos?
- Olha, é uma luta constante, interminável, porque os direitos são
sempre conquistados, eles não são dados. E é uma luta permanente. Nós temos
registrado avanços, às vezes acontecem retrocessos, mas eu diria que a linha
evolutiva, de modo geral, tem sido no sentido de avanços nessa matéria. Porém,
no Brasil, nós temos problemas gravíssimos, um dos quais a situação carcerária,
que é um problema nacional hoje.
- A superpopulação carcerária é tema antigo no Brasil, mas, afinal, qual a raiz do problema?
- Olha, o Brasil, ao contrário do que se imagina, é um país que
prende muito, porém, prende mal. Então, nós temos prisões superlotadas, mas
como nós temos muitas deficiências nessa área da execução penal, isso faz com
que, embora as prisões estejam superlotadas, essa superlotação não se reflita
como aumento da segurança, da chamada segurança pública, ou seja, há uma
desproporção, há uma desvinculação entre a quantidade de prisões efetuadas e a
eficácia dessas prisões no sentido de assegurar maior segurança à população.
- Você acha que o processo de violência à dignidade humana verificada nas prisões brasileiras não fere preceitos constitucionais básicos?
- Sim, sim, as prisões brasileiras são muito ruins e isso já tem
sido, inclusive, oficialmente reconhecido, e no âmbito do Poder Judiciário, que
é o poder do qual eu faço parte. Já é consenso. Não há nenhuma dúvida de que as
prisões brasileiras, de modo geral, são muito ruins.
- O governo estadual está construindo um novo presídio, mas para abrigar presos provisórios. Isso, de alguma forma, será suficiente para debelar o problema atual?
- Nós tivemos uma luta histórica aqui muito grande pela construção
da nova unidade, já que o [Presídio] Nilton Gonçalves já não atendia às
necessidades da nossa população. Conseguiu-se finalmente a construção dessa
nova unidade, mas ainda não existe uma definição formal se essa nova unidade
será destinada a presos provisórios ou ao cumprimento de pena. Há uma
necessidade de que os condenados de Vitória da Conquista cumpram a pena aqui,
porque nós temos situações absurdas aqui em Vitória da Conquista, da seguinte
maneira: por exemplo, o preso condenado em Vitória da Conquista é levado a
cumprir pena em Salvador, e aí o Estado o leva pra Salvador através de condução
oficial e, no momento que ele obtêm a liberdade pelo cumprimento da pena ou por
algum benefício, ele é solto em Salvador sem ter um único centavo pra pegar
qualquer tipo de transporte pra voltar pra Vitória da Conquista, terra natal
dele. Isso é uma violação gravíssima aos direitos humanos. Então, ele é solto
em Salvador e não tem como se deslocar de volta pra Vitória da Conquista, então
a necessidade é que esse cumprimento da pena aconteça aqui, que é onde está a
família dele, onde está o enraizamento social dele, onde estão todas as
expectativas que essa pessoa algum dia consiga ser ressocializada. Em Salvador,
onde ele não conhece ninguém, onde ele não tem nenhum vínculo, onde ele é um
ex-presidiário que não vai conseguir nenhuma ocupação é que, com certeza,
ressocialização nenhuma vai acontecer.
- Sempre que a insegurança aperta, o mote preferencial na sociedade é a redução da maioridade penal. A Câmara Federal inclusive tem insistido no debate do tema e há um grande movimento inclusive nos meios de comunicação. Na visão do senhor, para os casos de crimes cometidos por menores de idade, qual é a solução? É a redução?
- Eu não vejo a redução da maioridade penal como sendo uma
solução, porque na verdade isso só agravaria a nossa situação de superpopulação
carcerária. Nós já não temos cadeias para atender a demanda atual. Uma eventual
redução da maioridade penal iria provocar um agravamento dessa situação, então
a solução não passa por aí, além da própria questão, não vou nem entrar na
discussão jurídica, se é constitucional ou não, mas eu acho que não é. É
legítimo a nação destinar à sua juventude a cadeia? Eu acho que a nação deveria
oferecer um futuro melhor para sua juventude.
- Uma das reclamações mais correntes na Justiça brasileira é a insuficiência de pessoal, o que tornaria a Justiça lenta no Brasil. Conquista passa por essa situação?
- Olha, no contexto judiciário da Bahia, Vitória da Conquista não
está, digamos assim, naquele rol das comarcas mais problemáticas; pelo
contrário, poderia dizer que a nossa situação aqui é uma das melhores. Mas, de
modo geral, isso é em todo Brasil, o Poder Judiciário tem tido muitas
dificuldades em atender às demandas da população, então é preciso que se faça
todo o planejamento estratégico, toda adoção de uma série de medidas visando
que o serviço de prestação judicial melhore. Agora, no contexto da Bahia, a
nossa situação aqui eu diria, arriscaria dizer, que está entre as melhores e
não entre as piores.


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