CARTA DE SALVADOR
(Manifesto de autoria coletiva publicado no boletim Juízes para a Democracia, edição nº 66, Fev/Abr 2015. Depois constou do livro "Liberdades Democráticas", Edt. Girassóis, 2019.)
Os membros da Associação Juízes para a
Democracia (AJD), reunidos na Universidade Católica do Salvador, em Encontro
Nacional ocorrido nos dias 6 e 7 de março de 2015, tendo, no decorrer do
evento, ouvido relatos de ativistas que sofreram prisões ilegais e torturas
quando da luta contra a ditadura civil-militar pós-1964; relatos de atuais
lideranças de movimentos populares no sentido de sofrerem violências
semelhantes, em pleno século XXI, quando da luta por moradia, trabalho digno,
reforma agrária e demarcação de terras, vêm a público dizer que:
1. As atuais práticas do Estado brasileiro em
relação aos moradores negros das periferias das cidades, aos povos originários
destituídos de terras demarcadas e aos camponeses impedidos de trabalhar não
diferem, na essência, daquelas realizadas durante o período ditatorial nas
décadas de 1960, 1970 e 1980. As mazelas sociais oriundas dos séculos de
exclusão e genocídio continuam a ser oficialmente tratadas por ações
predominantemente repressivas.
2. Portanto, quase vinte e sete anos após a
promulgação de uma Constituição que contém ambicioso projeto de democracia
participativa, a realidade das populações historicamente excluídas revela que a
sociedade brasileira ainda não se desvencilhou de práticas dignas de um regime
ditatorial. Para as populações mais carentes, perduram a colonização e a
ditadura civil-militar.
3. Tal quadro não deixa dúvida de que é preciso
que o Estado brasileiro adapte suas ações à Constituição Federal de 1988. Isso
significa efetivar os Direitos Humanos previstos no próprio texto
constitucional e nos tratados internacionais subscritos pelo Brasil.
4. Os Juízes de todo o país têm papel crucial
para que o Estado brasileiro modifique suas práticas históricas e, enfim,
adapte-se ao projeto de democracia participativa inserido na Constituição
Federal de 1988. Afinal, são agentes do aparelho estatal, estando também
incumbidos de aplicar os Direitos Humanos que vigoram no ordenamento jurídico.
Atentos ao quadro de naturalização no
descumprimento de direitos que subsiste no Brasil, cuja atual dinâmica política
indica a possibilidade de agravamento nas violações e limitação ou cerceio da
funcionalidade das instituições, os membros da Associação Juízes para a
Democracia, reunidos em Salvador, clamam para que a população brasileira não
permita qualquer regressão à já incompleta democracia do país e exija que o
Estado cumpra seu dever de efetivar os Direitos Humanos arduamente conquistados
pela sociedade civil.
Salvador, 7 de março de 2015.
A
Associação Juízes para a Democracia.
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| UCSal, campus da Federação |
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