17 fevereiro 2026

GLAUBER, CINEMA E ARTE



GLAUBER, CINEMA E ARTE

 

Reno Viana

 

(Texto originalmente publicado na revista ESCRI7A, dirigida pelo escritor Aurélio Ricardo Filho, edição nº 13, de dezembro de 2025.)

 

Em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, há anos algumas pessoas se mobilizam para preservar a casa onde nasceu o cineasta Glauber Rocha, na rua 2 de Julho, no centro. A defesa desse patrimônio cultural tem sido uma luta árdua. Dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta, confirmou o nascimento ali e chegou a indicar ao fotógrafo JC D’Almeida o quarto exato em que ele nasceu. Glauber Rocha (1939-1981) não foi figura corriqueira da cidade, mas um conquistense de projeção internacional. Por isso, nem todos percebem a dimensão de sua obra e o valor desse vínculo físico e material.

Muitas vezes foi preciso contextualizar a importância cultural e histórica de Glauber Rocha para que alguns compreendessem sua relevância no campo do Cinema e da Arte.

Iniciávamos essa contextualização lembrando que, desde as cavernas até a era digital, o ser humano sempre produziu Arte — presente em todas as civilizações e em todos os tempos.

No mundo contemporâneo, por exemplo, a Arte não está restrita a nichos específicos. Ela molda nossa relação com o mundo, da tela do celular à Arquitetura das ruas. Manifesta-se de modo explícito, como entretenimento e reflexão, mas também de forma sutil, como no design e no ambiente construído. Está na cor e na forma dos objetos que usamos, nos logotipos, embalagens e websites. No rádio, na televisão, nos fones de ouvido e nos shows. Até as roupas — padrões, cores e cortes — refletem tendências estéticas. Igualmente, a beleza e a funcionalidade dos edifícios, das cidades, das praças e parques revelam a sua presença constante.

Ao que parece, a espécie humana sente necessidade da beleza e da expressão. Como dizia o poeta Ferreira Gullar, "a Arte existe porque a vida não basta".

No campo das manifestações artísticas, é comum referir-se ao Cinema como sendo a Sétima Arte.

Para contextualizar e compreender esse conceito, é necessário lembrar que até recentemente as Artes eram classificadas em dois tipos básicos, as Belas-artes e as artes aplicadas ou utilitárias.

Tradicionalmente, eram seis as chamadas Belas-artes. Esse conceito tradicional se baseava na ideia de que cada forma de expressão tem um elemento material principal ou um meio de comunicação específico que define sua natureza e linguagem.

As chamadas Artes Estáticas são aquelas que se constroem a partir da manipulação da forma, da matéria e do espaço, sendo percebidas pelo espectador de maneira simultânea, isto é, em um único golpe de vista. Nesse grupo, a Pintura se define como a Arte da cor e da luz, utilizando pigmentos e jogos de luminosidade para compor imagens sobre uma superfície bidimensional. Já a Escultura é entendida como a Arte do volume, pois trabalha materiais como pedra, metal, madeira ou argila, modelando-os até que se convertam em formas tridimensionais que ocupam fisicamente o espaço. Por fim, a Arquitetura é a Arte da organização do espaço construído, projetando e erguendo edifícios ou ambientes por meio da disposição de volumes, linhas e proporções, de modo a conciliar beleza e funcionalidade.

As Artes Dinâmicas são aquelas que se realizam ao longo de uma duração, sendo percebidas pelo espectador de forma sucessiva, conforme se desenrolam no tempo. Nesse conjunto, a Música se apresenta como a Arte do som, organizando ritmos, timbres e silêncios em padrões temporais capazes de produzir harmonia, melodia e expressão sensível. A Literatura, por sua vez, é a Arte da palavra e da língua, explorando o uso estético e rítmico do discurso, seja escrito ou oral, em verso ou prosa, para transmitir ideias e emoções. Já a Dança e o Teatro são reconhecidos como Artes do movimento e do corpo, pois se valem da gestualidade, da ação dramática e da presença física, seja para expressar sentimentos por meio da movimentação corporal, seja para representar histórias e conflitos sobre o palco.

O Cinema foi reconhecido como a Sétima Arte justamente porque reúne e sintetiza elementos das seis tradicionais Belas-artes, configurando-se como uma forma artística profundamente complexa. Nele, há a manipulação de cores, iluminação e enquadramentos fotográficos, bem como o trabalho com o volume e o espaço, perceptíveis na criação e organização de cenários, objetos e ambientes filmados. Além disso, integra trilha sonora e efeitos sonoros, que contribuem para a construção de atmosferas e sentidos, bem como se estrutura a partir de um roteiro, que organiza a narrativa e os diálogos. Soma-se a isso a encenação, que envolve o movimento do corpo, a expressão dos atores e o ritmo das ações no espaço. Dessa forma, o Cinema articula diferentes linguagens artísticas em um único resultado expressivo.

Ao longo do século XX, a estética norte-americana de Hollywood consolidou-se como o modelo dominante de Cinema industrial, estruturado por um sistema complexo voltado ao lucro e à ampla adesão do público, o que determinou sua linguagem e dramaturgia. A estética hollywoodiana busca criar a ilusão de realidade. Para isso, a montagem adota cortes quase imperceptíveis, com transições suaves, evitando rupturas visíveis que revelem a presença do cineasta. A câmera, em regra, evita ângulos incomuns ou experimentais. Diálogos e ruídos são produzidos de modo a parecer naturais, enquanto a música incidental atua de maneira sutil para intensificar emoções, muitas vezes sem que o espectador perceba. Em geral, o filme hollywoodiano dura cerca de uma hora e meia e organiza todos os seus elementos em função da estória, eliminando o que não contribui para o andamento do enredo. As narrativas tendem a seguir estruturas fixas, muitas vezes centradas no confronto entre mocinho e bandido, com frequência culminando em um final feliz, evitando temas polêmicos que possam afastar parte do público. Além disso, a dramaturgia hollywoodiana é influenciada pela lógica mercadológica, que transforma atores em estrelas capazes de atrair espectadores. A classificação dos filmes em gêneros — como aventura, suspense, romance, terror, faroeste, entre outros — funciona como um mecanismo comercial que garante a venda das obras, uma vez que, quando uma fórmula agrada, a indústria tende a reproduzi-la, assegurando seu sucesso no mercado.

No entanto, muitos cineastas célebres se opuseram ao modelo hollywoodiano, contribuindo assim para a evolução da linguagem cinematográfica e para a afirmação do Cinema como uma Arte de grande densidade estética e crítica. A história do Cinema, assim, ficou marcada pela tensão entre sustentar a ilusão de realidade e denunciar seu ocultamento, permanecendo como um campo de disputa contínua entre o sistema industrial-comercial e propostas estéticas e políticas alternativas.

Glauber Rocha, atuando no contexto do chamado Cinema Novo brasileiro, afirmou-se em oposição ao modelo dominante e industrial de Hollywood. Reconhecido como um dos mais importantes cineastas do Brasil, passaria a ser com frequência citado ao lado de importantes personalidades que enxergavam a Arte cinematográfica como espaço de reflexão política, existencial e estética. Por exemplo, Eisenstein (O Encouraçado Potemkin, 1925); Buñuel (Um Cão Andaluz, 1928); os cineastas do Neorrealismo Italiano, como Rossellini (Roma Cidade Aberta, 1945) e De Sica (Ladrões de Bicicleta, 1948); também Fellini (A Doce Vida, 1960) e Antonioni (Blow-Up - Depois Daquele Beijo, 1966); a Nouvelle Vague francesa, com Godard (Acossado, 1960), Truffaut (Jules e Jim - Uma Mulher para Dois, 1962) e Resnais (Hiroshima Meu Amor, 1959); Ingmar Bergman (Persona - Quando Duas Mulheres Pecam, 1966), explorando dilemas psicológicos e morais; bem como Costa-Gavras (Z - A Orgia do Poder, 1969), inserindo crítica política. Todos esses cineastas tinham em comum a oposição ao modelo dominante, buscando novas formas de produção, novas temáticas e linguagens.

Glauber Rocha, ao lado de diretores como Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas, 1963), Ruy Guerra (Os Fuzis, 1964), Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma, 1969), dentre outros, defendia uma Arte cinematográfica voltada para a questão social, capaz de expressar as contradições do subdesenvolvimento, denunciar injustiças e dar voz aos oprimidos. Associado à ideia de Cinema de Autor, ele buscou realizar uma obra em que o diretor afirmava sua visão estética e política. Seus filmes mais conhecidos, como Deus e o Diabo Na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968), são frequentemente listados entre os mais importantes de todos os tempos no Brasil.

Enquanto a estética hollywoodiana buscava a ilusão de realidade, o Cinema Novo brasileiro apostava em uma expressão crítica e consciente de si mesma. Ao reunir linguagem cinematográfica, dramaturgia e reflexão política, Glauber Rocha criou uma forma de Cinema autoral voltada para a realidade do povo, o subdesenvolvimento e a exploração, desafiando o espectador tanto intelectual quanto emocionalmente. Sua defesa de uma linguagem própria e sua repercussão inédita, com consagração internacional e reconhecimento entre os maiores cineastas do século XX, consolidaram sua relevância para o Cinema mundial, contribuindo decisivamente para elevar a Sétima Arte à condição de espaço de liberdade, crítica e invenção.

Glauber Rocha, assim, alcançou importância internacional, figurando entre os grandes cineastas que elevaram o Cinema do mero entretenimento a um legítimo patamar de obra de Arte.






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