GLAUBER,
CINEMA E ARTE
Reno Viana
(Texto
originalmente publicado na revista ESCRI7A, dirigida pelo escritor Aurélio
Ricardo Filho, edição nº 13, de dezembro de 2025.)
Em Vitória
da Conquista, no sudoeste baiano, há anos algumas pessoas se mobilizam para
preservar a casa onde nasceu o cineasta Glauber Rocha, na rua 2 de Julho, no
centro. A defesa desse patrimônio cultural tem sido uma luta árdua. Dona Lúcia
Rocha, mãe do cineasta, confirmou o nascimento ali e chegou a indicar ao
fotógrafo JC D’Almeida o quarto exato em que ele nasceu. Glauber Rocha
(1939-1981) não foi figura corriqueira da cidade, mas um conquistense de
projeção internacional. Por isso, nem todos percebem a dimensão de sua obra e o
valor desse vínculo físico e material.
Muitas
vezes foi preciso contextualizar a importância cultural e histórica de Glauber
Rocha para que alguns compreendessem sua relevância no campo do Cinema e da
Arte.
Iniciávamos
essa contextualização lembrando que, desde as cavernas até a era digital, o ser
humano sempre produziu Arte — presente em todas as civilizações e em todos os
tempos.
No
mundo contemporâneo, por exemplo, a Arte não está restrita a nichos
específicos. Ela molda nossa relação com o mundo, da tela do celular à
Arquitetura das ruas. Manifesta-se de modo explícito, como entretenimento e
reflexão, mas também de forma sutil, como no design e no ambiente construído.
Está na cor e na forma dos objetos que usamos, nos logotipos, embalagens e
websites. No rádio, na televisão, nos fones de ouvido e nos shows. Até as
roupas — padrões, cores e cortes — refletem tendências estéticas. Igualmente, a
beleza e a funcionalidade dos edifícios, das cidades, das praças e parques
revelam a sua presença constante.
Ao que
parece, a espécie humana sente necessidade da beleza e da expressão. Como dizia
o poeta Ferreira Gullar, "a Arte existe porque a vida não basta".
No
campo das manifestações artísticas, é comum referir-se ao Cinema como sendo a Sétima
Arte.
Para
contextualizar e compreender esse conceito, é necessário lembrar que até recentemente
as Artes eram classificadas em dois tipos básicos, as Belas-artes e as artes aplicadas ou utilitárias.
Tradicionalmente,
eram seis as chamadas Belas-artes. Esse conceito tradicional se baseava na
ideia de que cada forma de expressão tem um elemento material principal ou um
meio de comunicação específico que define sua natureza e linguagem.
As
chamadas Artes Estáticas são aquelas que se constroem a partir da manipulação
da forma, da matéria e do espaço, sendo percebidas pelo espectador de maneira
simultânea, isto é, em um único golpe de vista. Nesse grupo, a Pintura se
define como a Arte da cor e da luz, utilizando pigmentos e jogos de
luminosidade para compor imagens sobre uma superfície bidimensional. Já a
Escultura é entendida como a Arte do volume, pois trabalha materiais como
pedra, metal, madeira ou argila, modelando-os até que se convertam em formas
tridimensionais que ocupam fisicamente o espaço. Por fim, a Arquitetura é a
Arte da organização do espaço construído, projetando e erguendo edifícios ou
ambientes por meio da disposição de volumes, linhas e proporções, de modo a
conciliar beleza e funcionalidade.
As
Artes Dinâmicas são aquelas que se realizam ao longo de uma duração, sendo
percebidas pelo espectador de forma sucessiva, conforme se desenrolam no tempo.
Nesse conjunto, a Música se apresenta como a Arte do som, organizando ritmos, timbres
e silêncios em padrões temporais capazes de produzir harmonia, melodia e
expressão sensível. A Literatura, por sua vez, é a Arte da palavra e da língua,
explorando o uso estético e rítmico do discurso, seja escrito ou oral, em verso
ou prosa, para transmitir ideias e emoções. Já a Dança e o Teatro são
reconhecidos como Artes do movimento e do corpo, pois se valem da gestualidade,
da ação dramática e da presença física, seja para expressar sentimentos por
meio da movimentação corporal, seja para representar histórias e conflitos
sobre o palco.
O
Cinema foi reconhecido como a Sétima Arte justamente porque reúne e
sintetiza elementos das seis tradicionais Belas-artes, configurando-se como uma
forma artística profundamente complexa. Nele, há a manipulação de cores,
iluminação e enquadramentos fotográficos, bem como o trabalho com o volume e o
espaço, perceptíveis na criação e organização de cenários, objetos e ambientes
filmados. Além disso, integra trilha sonora e efeitos sonoros, que contribuem
para a construção de atmosferas e sentidos, bem como se estrutura a partir de
um roteiro, que organiza a narrativa e os diálogos. Soma-se a isso a encenação,
que envolve o movimento do corpo, a expressão dos atores e o ritmo das ações no
espaço. Dessa forma, o Cinema articula diferentes linguagens artísticas em um
único resultado expressivo.
Ao
longo do século XX, a estética norte-americana de Hollywood consolidou-se como
o modelo dominante de Cinema industrial, estruturado por um sistema complexo
voltado ao lucro e à ampla adesão do público, o que determinou sua linguagem e
dramaturgia. A estética hollywoodiana busca criar a ilusão de realidade. Para
isso, a montagem adota cortes quase imperceptíveis, com transições suaves,
evitando rupturas visíveis que revelem a presença do cineasta. A câmera, em
regra, evita ângulos incomuns ou experimentais. Diálogos e ruídos são
produzidos de modo a parecer naturais, enquanto a música incidental atua de
maneira sutil para intensificar emoções, muitas vezes sem que o espectador
perceba. Em geral, o filme hollywoodiano dura cerca de uma hora e meia e
organiza todos os seus elementos em função da estória, eliminando o que não
contribui para o andamento do enredo. As narrativas tendem a seguir estruturas
fixas, muitas vezes centradas no confronto entre mocinho e bandido, com
frequência culminando em um final feliz, evitando temas polêmicos que possam
afastar parte do público. Além disso, a dramaturgia hollywoodiana é
influenciada pela lógica mercadológica, que transforma atores em estrelas
capazes de atrair espectadores. A classificação dos filmes em gêneros — como
aventura, suspense, romance, terror, faroeste, entre outros — funciona como um
mecanismo comercial que garante a venda das obras, uma vez que, quando uma
fórmula agrada, a indústria tende a reproduzi-la, assegurando seu sucesso no
mercado.
No
entanto, muitos cineastas célebres se opuseram ao modelo hollywoodiano,
contribuindo assim para a evolução da linguagem cinematográfica e para a
afirmação do Cinema como uma Arte de grande densidade estética e crítica. A
história do Cinema, assim, ficou marcada pela tensão entre sustentar a ilusão
de realidade e denunciar seu ocultamento, permanecendo como um campo de disputa
contínua entre o sistema industrial-comercial e propostas estéticas e políticas
alternativas.
Glauber
Rocha, atuando no contexto do chamado Cinema Novo brasileiro, afirmou-se
em oposição ao modelo dominante e industrial de Hollywood. Reconhecido como um
dos mais importantes cineastas do Brasil, passaria a ser com frequência citado ao
lado de importantes personalidades que enxergavam a Arte cinematográfica como
espaço de reflexão política, existencial e estética. Por exemplo, Eisenstein (O
Encouraçado Potemkin, 1925); Buñuel (Um Cão Andaluz, 1928); os
cineastas do Neorrealismo Italiano, como Rossellini (Roma Cidade Aberta,
1945) e De Sica (Ladrões de Bicicleta, 1948); também Fellini (A Doce
Vida, 1960) e Antonioni (Blow-Up - Depois Daquele Beijo, 1966); a Nouvelle
Vague francesa, com Godard (Acossado, 1960), Truffaut (Jules e
Jim - Uma Mulher para Dois, 1962) e Resnais (Hiroshima Meu Amor,
1959); Ingmar Bergman (Persona - Quando Duas Mulheres Pecam, 1966),
explorando dilemas psicológicos e morais; bem como Costa-Gavras (Z - A Orgia
do Poder, 1969), inserindo crítica política. Todos esses cineastas tinham
em comum a oposição ao modelo dominante, buscando novas formas de produção, novas
temáticas e linguagens.
Glauber
Rocha, ao lado de diretores como Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas,
1963), Ruy Guerra (Os Fuzis, 1964), Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma,
1969), dentre outros, defendia uma Arte cinematográfica voltada para a questão
social, capaz de expressar as contradições do subdesenvolvimento, denunciar
injustiças e dar voz aos oprimidos. Associado à ideia de Cinema de Autor,
ele buscou realizar uma obra em que o diretor afirmava sua visão estética e
política. Seus filmes mais conhecidos, como Deus
e o Diabo Na Terra do Sol
(1964), Terra em Transe (1967) e O
Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968), são frequentemente listados
entre os mais importantes de todos os tempos no Brasil.
Enquanto
a estética hollywoodiana buscava a ilusão de realidade, o Cinema Novo
brasileiro apostava em uma expressão crítica e consciente de si mesma. Ao
reunir linguagem cinematográfica, dramaturgia e reflexão política, Glauber
Rocha criou uma forma de Cinema autoral voltada para a realidade do povo, o
subdesenvolvimento e a exploração, desafiando o espectador tanto intelectual
quanto emocionalmente. Sua defesa de uma linguagem própria e sua repercussão
inédita, com consagração internacional e reconhecimento entre os maiores
cineastas do século XX, consolidaram sua relevância para o Cinema mundial, contribuindo
decisivamente para elevar a Sétima Arte à condição de espaço de
liberdade, crítica e invenção.
Glauber
Rocha, assim, alcançou importância internacional, figurando entre os grandes
cineastas que elevaram o Cinema do mero entretenimento a um legítimo patamar de
obra de Arte.


Nenhum comentário:
Postar um comentário